O Mito da Europa governada pela “Esquerda”, in RiseUp Portugal, Facebook

Há uma ideia bastante cómica que se instalou com uma facilidade admirável no debate político: a Europa anda a ser governada pela esquerda. Repete-se em discursos, debates e caixas de comentários com aquela segurança tranquila das verdades que funcionam bastante melhor enquanto ninguém se lembra de as verificar. O problema começa precisamente aí, quando alguém comete a afronta de olhar para quem tem ocupado os principais cargos europeus nas últimas décadas. É um hábito desagradável, este de estragar certezas com nomes, datas e resultados eleitorais.

Comecemos pela Comissão Europeia. Desde 2004, foi presidida sucessivamente por José Manuel Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Ursula von der Leyen. Os três pertencem à família política do Partido Popular Europeu, o PPE, a grande força democrata-cristã e de centro-direita da União Europeia. São mais de vinte anos consecutivos de presidência da Comissão nas mãos da mesma família política. A acreditar na versão de uma Europa dominada pela esquerda, estaremos perante uma operação de infiltração de uma subtileza verdadeiramente magistral: para controlar Bruxelas, a esquerda começou por entregar a sua principal instituição executiva ao centro-direita e, para não levantar suspeitas, deixou-o lá durante mais de duas décadas. Há planos maquiavélicos, mas este exige um talento especial para desaparecer da fotografia enquanto se ocupa o poder.

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