Encerramento da cúpula do BRICS, em Nova Délhi

Xi Jinping aproveitou o encerramento da cúpula do BRICS, em Nova Délhi, para apresentar uma proposta ambiciosa: transformar o bloco em uma plataforma cada vez mais integrada de tecnologia, comércio, indústria, ciência e segurança. O presidente chinês afirmou que os países do Sul Global precisam enfrentar conjuntamente as ameaças tradicionais e não tradicionais à segurança e defendeu uma reforma da arquitetura financeira internacional.  

E Xi não ficou apenas no discurso. A China apresentou cinco iniciativas concretas para aprofundar a cooperação dentro do BRICS. A primeira envolve inteligência artificial de código aberto, com uma comunidade para desenvolver e aplicar grandes modelos de linguagem. A segunda propõe uma parceria para zonas econômicas especiais e um fórum de comércio de serviços que será realizado pela China em 2027. As outras três envolvem um ecossistema digital, manufatura inteligente e formação de engenheiros e talentos científicos. 

A mensagem estratégica é poderosa. Pequim está tentando fazer com que o BRICS deixe de ser apenas uma mesa de diálogo político e avance para uma estrutura concreta de desenvolvimento do Sul Global. Cadeias industriais, tecnologia, inteligência artificial, manufatura, comércio e formação profissional entram no mesmo tabuleiro. É uma tentativa de criar interdependência entre os países emergentes em setores que definirão o poder econômico das próximas décadas. 

Xi também voltou a defender a reforma da arquitetura financeira internacional para ampliar a representação e a voz dos países em desenvolvimento. E a declaração final do BRICS avançou na discussão sobre pagamentos transfronteiriços e utilização das moedas nacionais no comércio e nos investimentos. Não houve anúncio de uma moeda única do BRICS, mas houve avanço na construção de mecanismos que reduzam a dependência de estruturas financeiras externas. 

É justamente aí que está o movimento mais silencioso desta cúpula. O BRICS não anunciou uma ruptura imediata com o sistema financeiro internacional. Está fazendo algo mais gradual: construindo alternativas, criando infraestrutura própria e ampliando a capacidade de seus membros negociarem entre si usando suas próprias moedas e sistemas de pagamento. 

E quando Xi fala em um “BRICS maior”, a ambição fica ainda mais evidente. A China assumirá a presidência do bloco em 2027 e já sinaliza que pretende colocar industrialização, tecnologia e integração econômica no centro da próxima etapa. Depois de uma expansão que levou o BRICS a 11 membros, representando aproximadamente metade da população mundial, Pequim quer transformar tamanho em capacidade real de influência.

CIMEIRA DOS BRICS em Nova Deli

O BRICS encerrou sua cúpula em Nova Déli com uma mensagem que Washington certamente não ignora: os países do bloco decidiram aprofundar o uso de moedas locais no comércio e nos investimentos e avançar na integração dos seus sistemas de pagamentos. 

A declaração aprovada pelos líderes não anunciou uma moeda comum do BRICS. A estratégia escolhida foi outra, mais gradual e talvez mais difícil de combater: fazer com que Brasil, China, Rússia, Índia e os demais integrantes consigam negociar cada vez mais entre si sem precisar recorrer ao dólar em todas as operações. O documento fala em interoperabilidade dos sistemas de pagamentos e em liquidação de comércio e investimentos usando moedas locais. 

E aqui está o ponto mais importante: o BRICS não precisa criar uma nova moeda amanhã para reduzir o espaço ocupado pelo dólar. Se os países ampliarem o comércio em reais, yuans, rublos, rúpias e outras moedas nacionais, criando mecanismos próprios para realizar esses pagamentos, a dependência da moeda norte-americana pode ser reduzida operação por operação.

O dólar não foi derrubado em Nova Déli. Mas o BRICS deixou claro que não pretende continuar dependendo dele da mesma maneira. E essa mudança, silenciosa e gradual, pode ser muito mais relevante do que uma manchete anunciando uma moeda nova.

Moz na Diáspora | DOMINAÇÃO E CONTRADOMINAÇÃO

Vladimir Putin ocupa hoje um papel que muita gente não gosta de admitir, mas sente na prática: o de freio da ordem imperial. Não porque seja um santo, nem porque aja por altruísmo puro, mas porque, no tabuleiro real do poder global, alguém precisa dizer “não” quando o império decide avançar sem limite. E, gostem ou não, esse alguém tem sido Putin.

Desde o fim da Guerra Fria, o mundo foi empurrado para uma lógica de obediência. Países inteiros passaram a viver sob vigilância, pressão econômica, sanções seletivas, espionagem política e chantagem financeira. A regra era simples: ou você se alinha, ou vira alvo. O problema é que essa lógica só funciona quando ninguém reage. Putin reagiu. E, ao reagir, mudou o jogo.

Não é exagero dizer que muitos países só conseguiram manter um mínimo de soberania porque existe hoje um polo de poder que confronta diretamente as ordens imperiais. Sem essa resistência, intervenções “humanitárias” virariam rotina, governos seriam derrubados por conveniência estratégica e recursos naturais continuariam sendo sugados sob o discurso da democracia seletiva. A tranquilidade global, paradoxalmente, passou dUE depender do equilíbrio do medo, não da boa vontade.

A DOMINAÇÃO

Putin não controla o mundo. Mas impede que ele seja controlado por um só centro. E isso, no cenário atual, faz dele uma figura central da ordem global, não como árbitro moral, mas como contrapeso real. Quando existe alguém capaz de impor custo às aventuras imperiais, a escalada desacelera. Não por ética, mas por cálculo.

É por isso que ele incomoda tanto. Não porque seja imprevisível, mas porque limita. Limita a espionagem desenfreada, limita a expansão automática, limita a ideia de que alguns países nasceram para mandar e outros para obedecer. Sem esse limite, a “ordem internacional” seria apenas um nome elegante para dominação permanente.

No fim, a pergunta não é se Putin é o herói do planeta. Ele não é. A pergunta é outra, bem mais desconfortável: quem estaria no lugar dele se ele não existisse? Porque a história recente mostra que, quando ninguém freia o império, o mundo não fica mais seguro.

Fica apenas mais silencioso… até explodir.