Uma visão melancólica da vida. Por Adelto Gonçalves.

Em novo livro, Silas Corrêa Leite reúne poemas e textos poéticos
repassados de lirismo

I

Escritor extremamente produtivo, Silas Corrêa Leite (1952), depois de novas
experiências nos gêneros romance e contos e minicontos, volta a exercitar o ofício de
poeta com Coquetel Molotov – Drinks para a morte (São Paulo, Namíbia Editora, 2026)
em que reúne poemas e textos em prosa poética que “percorrem a dor, a morte, o amor,
a solidão e os abismos do cotidiano”, como se lê na apresentação na contracapa.
São poemas repassados de lirismo, em que o fluxo de consciência escorre de
maneira livre, em forma de solilóquio, como se o poeta estivesse sozinho a falar em voz
alta, expressando seus pensamentos, sentimentos e reflexões íntimas, conversando com
a consciência. E, na maioria, o que passam é uma visão melancólica da vida, como se
constata nos versos do poema “Flores amarelas”: “(…) Eu faço versos como quem
morre / Dando cicuta ao meu ser / Em dor-poesia vazo. Escorre / A minh’alma nesse
“escreviver”…”
Afinal, se como diz no texto poético “Efemérides”, “poesia é toque humano, é
epiderme letral da alma entre escombros e sedas com sangue”, são poemas que
funcionam como confissões realizadas no calor dos acontecimentos e que resultaram do
abalo que representou para o autor o desaparecimento de Rosangela Silva (1956-2026),
sua “estrela bailarina”, sua musa, a quem a obra é dedicada in memoriam. E que é
explicitamente evocada no poema “Não quero que você seja triste”, onde se lê
“(…) Eu nasci triste, vivi triste, escrevo triste / Você é quem colocou nuvens de
algodão doce em minha alma entrevada / Agora você triste me faz ter medo de me
perder de mim / Quando você é a meiguice e o remanso de afeto e ternura (…) / Porque
duas pessoas tristes não vão a lugar nenhum, afundam e morrem juntas / E o seu
brilho, sua delicadeza, foram minha âncora, meu estrelário, meu motivo de continuar
lutando e sobrevivendo com as mãos limpas (…)”.

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