O Mito da Europa governada pela “Esquerda”, in RiseUp Portugal, Facebook

Há uma ideia bastante cómica que se instalou com uma facilidade admirável no debate político: a Europa anda a ser governada pela esquerda. Repete-se em discursos, debates e caixas de comentários com aquela segurança tranquila das verdades que funcionam bastante melhor enquanto ninguém se lembra de as verificar. O problema começa precisamente aí, quando alguém comete a afronta de olhar para quem tem ocupado os principais cargos europeus nas últimas décadas. É um hábito desagradável, este de estragar certezas com nomes, datas e resultados eleitorais.

Comecemos pela Comissão Europeia. Desde 2004, foi presidida sucessivamente por José Manuel Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Ursula von der Leyen. Os três pertencem à família política do Partido Popular Europeu, o PPE, a grande força democrata-cristã e de centro-direita da União Europeia. São mais de vinte anos consecutivos de presidência da Comissão nas mãos da mesma família política. A acreditar na versão de uma Europa dominada pela esquerda, estaremos perante uma operação de infiltração de uma subtileza verdadeiramente magistral: para controlar Bruxelas, a esquerda começou por entregar a sua principal instituição executiva ao centro-direita e, para não levantar suspeitas, deixou-o lá durante mais de duas décadas. Há planos maquiavélicos, mas este exige um talento especial para desaparecer da fotografia enquanto se ocupa o poder.

No Parlamento Europeu, os números também não mostram grande vontade de colaborar. O PPE tornou-se o maior grupo parlamentar nas eleições de 1999 e nunca mais perdeu essa posição, vencendo sucessivamente em 2004, 2009, 2014, 2019 e 2024. Antes de 1999, eram precisamente os socialistas que ocupavam o primeiro lugar. Ou seja, durante mais de um quarto de século, a maior força do Parlamento Europeu tem sido uma família de centro-direita. É uma base curiosa para sustentar a ideia de que a Europa tem sido conduzida politicamente pela esquerda, mas talvez os resultados eleitorais tenham passado a ser uma questão meramente ornamental.

As eleições de 2024 obrigaram essa tese a exercícios ainda mais interessantes. O PPE elegeu 188 deputados, contra 136 dos Socialistas e Democratas. Os Patriotas pela Europa ficaram com 84, os Conservadores e Reformistas com 78 e a Europa das Nações Soberanas com 25. O grupo parlamentar chamado literalmente The Left, numa rara gentileza da realidade para quem tenha dificuldades em localizar a esquerda, ficou com 46 deputados em 720, enquanto os Verdes elegeram 53.

Podemos, aliás, fazer uma concessão bastante generosa e colocar automaticamente os 136 deputados do S&D na coluna da esquerda. Convém apenas perceber o tamanho da oferta. Chamar hoje “esquerda”, sem mais, a toda a social-democracia europeia exige uma memória política bastante curta. Ao longo das últimas décadas, uma parte considerável desses partidos aceitou ou promoveu privatizações, liberalizações, flexibilização das relações laborais, disciplina orçamental apertada, abertura de sectores públicos à concorrência, independência dos bancos centrais e uma arquitectura económica europeia assente no mercado único, na livre circulação de capitais e em fortes limitações à intervenção económica dos Estados. Em vários casos, aplicaram políticas que, algumas décadas antes, seriam identificadas sem grande discussão como liberais ou de centro-direita.

Tony Blair deu-lhe o nome elegante de Terceira Via, Gerhard Schröder deixou como herança as reformas Hartz e, por toda a Europa, partidos socialistas e sociais-democratas foram aproximando a sua política económica do centro liberal enquanto mantinham posições mais progressistas em matérias sociais e de costumes. Isto não os transforma automaticamente em partidos de direita, naturalmente, mas também torna bastante infantil o raciocínio segundo o qual basta encontrar a palavra “socialista” no nome para concluir que estamos perante esquerda no sentido histórico do termo. A social-democracia europeia mudou profundamente. Em boa parte dela, identificá-la hoje com a esquerda económica tradicional exige ignorar os últimos quarenta anos de transformação política.

Mas facilitemos a vida à teoria. Façamos de conta que nada disso aconteceu, coloquemos todo o S&D na esquerda e juntemos-lhe Verdes e The Left. Chegamos a 235 deputados, cerca de um terço do Parlamento. Portanto, mesmo depois de oferecermos uma definição suficientemente elástica para nela caber toda a social-democracia europeia contemporânea, continuamos com o pequeno problema de lhe faltarem quase duas centenas de deputados para uma maioria. Pelos vistos, dominar uma instituição deixou também de exigir qualquer coisa parecida com dominá-la.

Talvez o verdadeiro controlo esteja então escondido nos governos nacionais, que compõem o Conselho Europeu. Também aqui os números revelam uma irritante resistência em colaborar. Em 2009, 44% dos chefes de Estado ou de Governo pertenciam ao PPE e 26% à família socialista europeia; em 2014, a relação era de 43% para 32%; e, em 2019, o PPE representava 29%, os liberais outros 29% e os socialistas 25%. O próprio Serviço de Estudos do Parlamento Europeu descreve o PPE como a força claramente dominante no Conselho Europeu em 2009 e 2014. E repare-se que continuamos, por generosidade metodológica, a contar como “esquerda” todos os governos socialistas e sociais-democratas, independentemente das políticas económicas que efectivamente praticavam. Nem assim as contas chegam onde a tese precisa que cheguem.

Em Junho de 2026, depois de tantos anos de alegado domínio progressista, seria legítimo esperar encontrar finalmente o Conselho Europeu tomado por forças de esquerda. A realidade resolveu novamente ser pouco colaborante. Dos 27 membros com direito de voto, 12 estavam ligados ao PPE, quatro à família liberal, três ao PES, dois aos Conservadores e Reformistas, um aos Patriotas pela Europa e cinco eram independentes ou não afiliados. Ou seja, a família socialista tinha três representantes e o PPE doze. Uma Europa governada pela esquerda numa relação de quatro para um a favor do centro-direita é certamente possível, mas obriga a uma pequena actualização do vocabulário político. Nada de dramático: depois de se alterar o significado de “esquerda”, adaptar também o verbo “governar” é apenas uma questão de consistência.

Resta António Costa, presidente do Conselho Europeu desde Dezembro de 2024, frequentemente apresentado como mais uma prova do domínio socialista sobre Bruxelas. Há apenas um pormenor institucional desagradável: o presidente do Conselho Europeu não governa os 27 Estados-membros. Preside às reuniões dos respectivos chefes de Estado ou de Governo, procura construir consensos e representa politicamente o Conselho. Antes de Costa, o cargo foi ocupado por Herman Van Rompuy e Donald Tusk, ambos ligados ao PPE, e por Charles Michel, liberal. Transformar a presidência de António Costa numa demonstração de que a Europa é governada pela esquerda exige, portanto, atribuir-lhe um poder que o próprio cargo não tem: o de transformar, pela simples ocupação da presidência, os governos sentados à sua volta em governos de outra família política. Seria uma capacidade notável. Aparentemente, vem incluída no cargo, embora os tratados se tenham esquecido de a mencionar.

Nada disto significa, evidentemente, que a esquerda nunca tenha governado na Europa, presidido a instituições europeias ou influenciado profundamente as suas políticas. Jacques Delors, socialista francês, presidiu à Comissão entre 1985 e 1995, os socialistas foram durante vários períodos a maior força no Parlamento Europeu e numerosos governos nacionais foram liderados por partidos socialistas ou sociais-democratas. Mas também aqui convém evitar uma pequena fraude histórica: um partido continuar a chamar-se socialista ou social-democrata não significa que as suas políticas tenham permanecido imóveis desde os anos 70. A social-democracia europeia do pós-guerra, associada à expansão do Estado social, ao reforço do poder sindical, à tributação progressiva, à propriedade pública de sectores estratégicos e a uma intervenção económica robusta do Estado, não é a mesma social-democracia que, décadas depois, privatizou empresas, liberalizou mercados, flexibilizou relações laborais e aceitou grande parte do enquadramento económico anteriormente defendido pelos liberais e pela direita moderada. A diferença não é exactamente um detalhe de rodapé.

A persistência desta ideia torna-se mais compreensível quando se percebe que, para muita gente, “esquerda” deixou entretanto de designar uma posição política com limites minimamente reconhecíveis e passou a funcionar como uma gaveta onde cabe praticamente tudo aquilo de que se discorda. Regulação ambiental tornou-se esquerda, direitos laborais são esquerda, protecção do consumidor é esquerda, políticas de acolhimento de refugiados são esquerda e direitos LGBT são esquerda. Com o entusiasmo necessário, até uma directiva que obrigue uma empresa a explicar correctamente aquilo que vende pode acabar promovida a manifestação de marxismo cultural. É um método intelectualmente muito cómodo porque dispensa a maçadora tarefa de distinguir socialistas, sociais-democratas, liberais, democratas-cristãos e conservadores. Empurra-se todo o espectro político alguns metros numa direcção e, a certa altura, Angela Merkel começa a parecer Rosa Luxemburgo. A partir daí, demonstrar que a Europa foi governada pela esquerda torna-se uma tarefa francamente simples: basta decidir previamente que quase toda a gente é de esquerda.

É assim que se chega ao prodígio de uma União Europeia em que o centro-direita preside à Comissão há mais de vinte anos, o PPE é o maior grupo do Parlamento Europeu desde 1999 e, em 2026, tem quatro vezes mais representantes no Conselho Europeu do que a família socialista, mas que continua a ser apresentada por tanta gente como uma Europa governada pela esquerda. E isto depois de termos oferecido à tese todas as vantagens possíveis, incluindo contar automaticamente como esquerda partidos social-democratas que passaram décadas a privatizar, liberalizar, flexibilizar mercados e adoptar uma parte considerável das ideias económicas que a esquerda histórica combatia. A vantagem desta construção é quase perfeita: permite olhar para quem ganhou eleições, ocupou cargos e liderou instituições durante décadas e concluir, com absoluta serenidade, que quem verdadeiramente mandava eram os outros. É uma maneira particularmente confortável de interpretar a política europeia: os lugares são perfeitamente visíveis, os votos também, mas o poder, por algum mistério, está sempre nas mãos de quem aparece menos vezes em ambos.

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