O que nos separa…

Pat_Leya

Desculpa, é a primeira palavra desta novela, atitude de quem timidamente inicia uma conversa que sabe intrusiva, de quem receia incomodar. Não espera respostas, nem pretende ser entendido, a barreira da língua assegura-lhe essa reserva de intimidade. Um ser escutado sem ser ouvido. Pouco mais lhe pede, adormecido em expectativas ausentes que não afectam ninguém. Só ali, em Macau, com um copo de whisky na mão isso é possível, ali ou em outro local qualquer onde fosse mais um homem com um copo de whisky na mão.

Este é o mais recente livro de Patrícia Reis, cujo lançamento é daqui a bocado.

Leia mais em Acrítico, leituras dispersas.

 

O Que Nos Separa dos Outros Por Causa de Um Copo de Whisky

O Que Nos Separa Dos Outros Por Causa de Um Copo de Whisky

Um homem está sozinho num bar, em Macau. Longe da pátria, mas afogado no whisky e nas memórias – pequenos momentos, frases, acontecimentos que vão derretendo como o gelo no fundo do copo. A sua interlocutora imaginária é a mulher estranha que está do outro lado do balcão. Uma mulher que lhe parece ser uma potencial salvação, mas que se torna apenas o eco do seu monólogo interior. Ela não sabe quem ele é e tão-pouco falam o mesmo idioma. Raramente o encara. Ele continua a contar-lhe a sua história de vida. Por pedaços. De forma não-linear. Ao mesmo tempo, inventa-lhe diversos cenários. Será ela alguém que, como o personagem principal, é um acumular de histórias ou de banalidades?

Esta novela, vencedora do Prémio Nacional de Literatura Lions Portugal 2013-2014, é uma nova forma de trabalhar o discurso interno, as memórias, sempre com a indicação de uma certa polifonia, já habitual nos livros de Patrícia Reis.

são dois para lá, dois para cá | Patrícia Reis

Foto de Helmut Newton

Foto de Helmut Newton

O bar podia estar vazio, para ela pouco fazia.

Era um bar de hotel e não tinha história. Era internacional e não asiático, podia ser mais interessante. Não era. A mulher pediu um martini.

Depois desistiu.

Pediu um vodka preto e, na casa-de-banho, verificou que tinha a boca preta, a língua de fora, mesmo perto do espelho, riu-se de si e depois chorou.

Chorou pela língua preta.

Deveria ter bebido o martini e fingir que era uma bond girl nas arábias.

Há dias assim.

http://vaocombate.blogs.sapo.pt/470802.html … (FONTE)

Portugal – Patrícia Reis

Patrícia Reis nasceu em Lisboa em 1970. Começou a sua carreira jornalística no semanário O Independente em 1988. Passou pela revista Sábdo, fez um estágio na revista norte-americana Time, trabalhou no Expresso, na Marie Claire, na Elle e nos projectos especiais do jornal Público. Fez produção para o programa televisivo “Sexualidades” (RTP) e para “Vida de Casal” (SIC). Começou a editar a revista Egoísta há 10 anos, em 2000. Desde 1997 que é sócia-gerente do atelier 004, um atelier especializado em contéudos e design no âmbito do qual produz projectos variados, de exposições a contéudos para sites ou eventos, além de livros, revistas, ferramentas corporativas. Tem cinco romances publicados (D. Quixote), quatro livros infanto-juvenis (Quidnov) que formam uma colecção que integra o Plano Nacional de Leitura, dois livros infantis cujas receitas revertem para a Fundação do Gil (Quidnov). Mantém diariamente o blogue vaocombate.blogs.sapo.pt. É casada e tem dois filhos rapazes.

FONTE:  http://pnetliteratura.pt

Crédito/foto: Jorge Nogueira

Crédito/foto: Jorge Nogueira