
Monthly Archives: Abril 2018
Citação | Manuel Bandeira
“Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.”
Manuel Bandeira
Retirado do Facebook | Mural de Francisco Belard
Histórias da História | Paulo Fonseca
Histórias de luta e de afecto 
e de vidas em directo.
Longa lista leva já,
a história da humanidade …
mártires,
guerreiros,
heróis,
ternos da liberdade …
voz dos simples,
batutas de luz
contra as pautas da injustiça …
também ingenuidade
de criança,
de noviça …
Poetas do sonho
que fez mudar o mundo
enfadonho.
imundo …
Jesus Cristo,
Madre Teresa,
Mandela,
Che Guevara,
Luther King,
Xanana,
Mandala,
Gandhi,
Pepe Mujica,
Salgueiro Maia,
Gorbatchov e
agora Lula …
lavradores do afecto,
verbo e complemento directo,
todos mal tratados
na horta que semearam …
suor bento
que corre de emoção
hino triunfal da devoção
aos outros,
ao mundo,
ao coração …
Paulo Fonseca
Ergo Uma Rosa | José Saramago
Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
Como a lua não faz nem o sol pode:
Cobra de luz ardente e enroscada
Ou ventos de cabelos que sacode.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
O céu pontua de ninhos e de cantos,
Bato no chão a ordem que decide
A união dos demos e dos santos.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
Contra o frio da noite que se atreve,
E da seiva da rosa e do meu sangue
Construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
Quanto me doi de mágoas e assombros.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
Neste cantar das aves nos meus ombros.
José Saramago
Mulher sentada

DiEM25 | Estás a inspirar vários elementos progressivos no mundo – literalmente.
Algumas semanas atrás pedimos a tua ajuda para lançar o MeRA25, a nossa ala eleitoral na Grécia. É preciso dizer que respondeste à nossa iniciativa de forma abosultamente espetacular.
Não só ajudaste a lançar uma alternativa política para a Grécia, inspiraste também milhares a juntarem-se ao nosso movimento – Na Grécia e em todo o lado.
Inspiraste os nossos membros na Grécia e eles agora sabem que não estão sozinhos.
Insiraste os cidadãos gregos a rejeitar o status quo que foi imposto em 2015.
E inspiraste Zack Exley e Saikat Chakrabarti – dois conselheiros da campanha de Bernie Sanders, a assisitir ao lançamento do MeRA25 – e a juntarem-se à nossa luta e à revolução democrática do DiEM25.
Temos ainda muito que fazer e muitos desafios a superar.
O DiEM25 já é uma fonte de esperança para a Europa – e um pilar de resistência contra os interesses instalados do sistema financeiro e político.
Com o teu apoio vamos tornar-nos mais fortes e vamos recuperar a nossa democracia.
Obrigado e carpe DiEM!
Luis Martín
>>Coordenador de comunicações do DiEM25
Silhueta

Danseuse classique

young beautiful dancer posing on a studio background
Soprano / Tenor – Andrea Bocelli & Anna Netrebko – Brindisi
Mulher de preto e gato preto

Jeanine De Bique | BBC Proms | Handel’s Messiah – ‘Rejoice greatly’
Jeanine De Bique in rehearsal having fun
Poema | Pablo Neruda
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
…Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.
Pablo Neruda
Camões e as Tágides | Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929)

Três mulheres

CREDO, elas são perigosas | Francisco Louçã in Jornal “Expresso”
Não é o único dos maiores escritores do nosso tempo que se comporta como um pateta, mas talvez Vargas Llosa seja particularmente exibido e insistente. Autor de livros magníficos como a “Conversa na Catedral” ou “A Guerra do Fim do Mundo” e tantos outros, Vargas Llosa teve sempre uma intervenção pública ativa: foi castrista, foi amigo e inimigo de Gabriel Garcia Marquez, redescobriu-se conservador. Mas foi recentemente que escolheu tornar-se protagonista: foi o candidato da direita à presidência do seu Peru natal, foi feito marquês por Juan Carlos I e as suas aventuras não terminaram aí, ainda há pouco andou pela Catalunha em prol do rei. Prémio Nobel da literatura em 2010, continuou a publicar e, já com os seus 80 anos, deu à estampa “Cinco Esquinas”, que deve ser o seu pior livro. A um grande escritor perdoa-se toda a escrita.
Talvez Llosa escusasse, no entanto, de perseguir fantasmas e ódios de estimação. Há duas semanas, levou para a sua coluna no El Pais um desses ódios, desta vez contra o feminismo. A acusação é tremenda: são as “Novas Inquisições”. Sentencia: “o feminismo é o inimigo mais feroz da literatura”, pior do que Trump e Putin, pior do que as religiões e ditaduras. Por causa do feminismo e nada menos do que o feminismo, a “literatura pode desaparecer”. Desaparecer? A literatura? O homem perdeu a cabeça, perguntará a leitora mais moderada? O feminismo vai terminar com a literatura? Acabam os livros, os poemas, o teatro, as conversas, a comunicação, a vida? Por força do feminismo, esse monstro tremendo cujas garras rasgam a Terra?
Sim, responde Vargas Llosa. Querem um exemplo? Ele tem um. É que a Gallimard tinha previsto publicar a obra completa de Céline e desistiu, porque incluiria textos antissemitas de um escritor monumental que foi partidário dos nazis. Só que esta recusa nada tem que ver o feminismo ou com as feministas, mas unicamente com o medo daquela editora de aparecer associada a um discurso de ódio. De passagem, Llosa cita outro caso, o de uma escritora que criticou o Lolita de Nabokov. Também é fraco exemplo pois, mesmo sendo uma narrativa sobre a pedofilia, pouco sentido fará sugerir-se a sua ocultação. A literatura, como toda a arte, deve ser livre de se exprimir em todas as facetas da vida e das opiniões humanas, porque não deveria estar sujeita a um critério de gosto, ou de preferência moral, ou de ensinamento público. A literatura é simplesmente o que os autores escrevem.
Só que nunca foi assim. O livro As Vinhas da Ira, de Steinbeck, foi proibido em alguns dos estados dos EUA ao mesmo tempo que John Ford fazia dele o filme que ganhou vários Óscares. Livros de Darwin e Sartre foram apreendidos sob Salazar, bem como Cardoso Pires, Ary dos Santos, Jorge de Sena ou Jorge Amado. Harry Potter foi proibido mais recentemente nos Emirados Árabes Unidos e Alice no País das Maravilhas já foi proibido na China. Lembra-se do CDS a manifestar-se na rua pela proibição do Je Vous Salue, Marie, de Godard? Culpa das mulheres e do feminismo? Olhe que não.
O que o feminismo tem questionado é a violência e a discriminação. Esse seu pulsar universalista contra a exclusão e o desprezo tem sido um dos contributos mais fecundos para a democratização dos tempos modernos. Por isso mesmo, a literatura que regista todas essas razões e emoções, as dos sequestradores da liberdade, as dos abusadores, as das vítimas, as da dignidade, todo esse caldo de vida humana é uma voz essencial para nos conhecermos. Vargas Llosa, cada vez mais perdido nos seus pequenos ódios e no medo pela outra, dá-nos aqui um magnífico exemplo de como podemos aprender com a fronteira escorregadia entre a arte e a vida. Ele, que gosta pouco da liberdade para os outros (e outras), tem um medo do feminismo e da voz das mulheres que é uma esplêndida homenagem do vício à virtude.
(no Expresso)
Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

Poema | neorrealismo | Manuel da Fonseca
A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
p’ra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel…
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir…
A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz…
E os namorados cansados de namorar…
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.
Manuel da Fonseca
O abraço dos fora de série | Gianluigi Buffon e Cristiano Ronaldo
Quando o jogo acabou Buffon despediu-se de todos, dos companheiros, dos jogadores do Real Madrid e dos adeptos, mas houve um abraço que ficou para o fim. Foi a Cristiano Ronaldo, o homem que marcou na sua baliza um golo que ficará para a história, mas que o guarda-redes reconhece ser “um campeão de nível extraordinário”. E ficou com a camisola do português.

Mulher um pouco triste

“La Reine de Saba” | Malika Mellal | toile de Hocine Ziani
Amour de Reine
Mon voyage vers toi , mon roi
Moi la grande reine de Saba
Simple femme devant toi
Mon cœur loin du tiens est aux abois
Je te porte myrrhe , encens et élixirs
Pour parfumer tes nuits de mille désirs
Caravanes pleines d’or et de trésors
Dignes d’un roi au palais d’or.
Oiseaux de paradis et génies
Offrandes au roi au bel esprit
Contes et légendes pour t’éblouir
J’aime éveiller les sens de mon Sire.
Étoffes précieuses des plus belles soies
Pour accueillir nos beaux émois
Des huiles rares et précieuses
Sercrets de caresses délicieuses.
Ma beauté digne des houris
Sera tienne toutes les nuits
Tes bras dont je me languis
Me font traverser tous ces pays.
Amour Royal et majestueux
Plaisirs infinis et savoureux
Lien fabuleux et mystérieux
Amour légendaire béni des cieux.
Deuxième version (Le roi Salomon)
Ma reine arrive
Elle arrive ma belle et sa caravelle
Bel ange descendu du ciel
Je ferai taire les langues infidèles
Qui doutent de sa beauté éternelle
Sur ce sol façonné tel un miroir
J’ai fondé tout mes espoirs
Démontrer à jamais , graver l’histoire
D’un reflet divin à ma gloire
Je les ferai tous choir.
Ma belle reine attendrie
Pardonne mon acte de duperie
N’y vois aucunes fourberies
Seul une preuve d’amour, un démenti
Ma reine d’amour aux feux ardents
Ils t’imaginent velues aux sabots d’argent
Ta crainte de tremper tes beaux habits
Te fera lever le bas de tes soies serties
Apparaîtra tes chevilles d’une peau éblouie.
Moi qui sait ton corps d’une beauté innouie
Je serai roi d’amour d’un cœur embelli
Pour ma maîtresse reine aux charmes de vie
Tu ensorceles mon âme et mon esprit
Je suis glorieux par ton corps soumis
À mes rêves d’amour infini.
Malika Mellal 03/04/2018
malika mellal@copyright
D’après la toile de Hocine Ziani ” La reine de Saba ”

Natalia Osipova

25 de Abril de 1974 | Fernando Salgueiro Maia
“Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!”
Discurso de Salgueiro Maia aos seus militares na madrugada de 25 de Abril

Natalia Osipova and Steven McRae | Rhapsody
An Introduction to Rhapsody (The Royal Ballet) | Natalia Osipova and Steven McRae
Flower power | relax it’s only art

Mulher sobre soalho

Mulher em cores sépia

Yes Prime Minister | Official Secrets | Expelling the Russians
TRUMP, A RÚSSIA E A VELHA SENHORA | José Gabriel Pereira Bastos
Desde as negociações entre Woodrow Wilson e Churchil que não se sabe quem manda na “Aliança” deles – os Americanos no palco, tentando construir o Século Americano, os Ingleses, gerindo a herança do Século Britânico, por detrás dos panos. Quando tinham inimigo comum (Alemanha) ou o inventavam (a URSS), ainda disfarçavam que não se entendiam. Com a Queda do Muro de Berlim e a retirada da Rússia para a sua fronteira, tiveram que inventar à pressa um novo inimigo, o Islão, onde a América se enterrou mais uma vez numa Guerra perdida (a da Síria, a seguir à da Coreia e à do Vietname), ensaiando a retirada a custo (entraram no Afeganistão a pensar que era rápido e já lá estão enterrados há 17 anos, o pântano militar mais longo da sua história de desaires).
De cabeça perdida, e colocando-se por um momento aos comandos da NATO, a Inglaterra quis liderar uma manobra de diversão. Disfarçava o fracasso das negociações com a UE, acusava, sem provas, a Rússia da tentativa de assassinato de um espião duplo, com um gás que todos sabem fabricar, ameaçava bloquear os Mundiais de Futebol na Rússia, alimentava a fome de escândalos dos Media e a histeria popular com três novas telenovelas, e entretinha Corbyn e os Trabalhistas. Nada mal pensado.
Trump não é um político, é um comercial chantagista (um pleonasmo?), de tipo histérico (teatral) e vai a jogo em todas as direcções, mas a Inglaterra Brexitada, Israel e o Deep State têm estado a empurrá-lo para uma nova Guerra Fria (ou até para uma guerra invasiva, com a Coreia do Norte ou com o Irão), que não faz parte do seu projecto pessoal. Putin, um exímio jogador de xadrez, dá-se bem com Trump, que finge de palhaço mas é esperto que nem um alho..
Os Presidentes anteriores (nomeadamente os ‘democratas’, Clinton e Obama, e a srª Hillary ia pelo mesmo caminho) obedeceram ao Deep State no derrube das Torres Rockfeller e no ataque ao Islão Sunita (entrando pelo Afeganistão e pelo Iraque adentro, uma invasão preparada bastante antes de terem implementado o pretexto que sabiam necessitar, sempre foram especialistas nisso), e, já em perda, estão a virá-lo agora contra o Islão Xiita, mas já fracassaram na Síria, o que os obriga a mudar de plano. A tripartição do Iraque à custa da Síria saíu-lhes pela culatra. Perderam na Síria e, apoiando os Curdos, viraram Erdogan para a Rússia..
Trump parece ter uma política própria, diferente da do Deep State e da “Velha Aliança”. Ao convidar Putin para um encontro em Washington, rasteira e põe em cheque os Brexitistas, contorna as acusações ‘democratas’ de ter uma aliança com Moscovo e retoma o projecto do relançamento das áreas de influência, o que lhe permitiria retirar do Afeganistão, do Iraque e da Síria, deixando o confronto local entregue à liderança dos Sunitas (Turcos e Sauditas), se eles tiverem a coragem que lhes falta (armas já têm, Trump, o grande comerciante, foi vender-lhes 120 mil milhões de brinquedos desses, para Sheiks exibirem).
De fora, a UE, Estado-vassalo da Frente Anglo-Americana-Israelita parece uma barata tonta e tanto mais quanto a Fachada do Deep State se desentende, e é ultrapassada por Trump e por Putin, os novos Líderes políticos do início do Século XXI.
O governo português mantêm-se lúcido, no meio da confusão. Nenhum “Aliado” é confiável (por definição), os Interesses dos Portugueses não são binárizáveis, são extensamente diversos e mundiais, “eles é que são ‘brancos’, eles que se entendam”. Amamos a Paz e continuamos ‘neutrais’, sem dar nas vistas.
José Gabriel Pereira Bastos
Retirado do Facebook | Mural de José Gabriel Pereira Bastos
Adormecem mamilos gretados | Célia Moura
Adormecem mamilos gretados
De indignação
Em cada palavra
Que não ouso.
Gemem catadupas de papoilas
Entre o trigo
E por isso as digo
As escrevinho
Grito-as aqui
Neste papel de ninguém!
E que prazer é
Mordê-las!
Saborear-lhes o sangue
Expulso das artérias
Libertando-as de mim
Desta clausura
Onde tentam amordaçar-me
Todas elas
As mais insolentes
As deliciosas
As mordazes
E até as mais voluptuosas!
Que prazer,
Enamorá-las
Consenti-las
Dar-lhes permissão
Para logo a seguir
As arremessar certeiras
Fugidias ou sarcásticas
Como flores ou como dardos
Aguçando-lhes a destreza
Verbalizá-las todas,
Libertando-as do sémen
Que nos fecunda a seara
Do Bem e do Mal
Arrancando ervas daninhas
Pelos dentes.
© Célia Moura – A publicar “Terra de lavra” (2012)
(Imagem – Justin Grant Photography)
Les Almoravides | Alexandre Noble
“Par contre, les femmes almoravides ne portent pas de voile. Elles jouissent d’une liberté d’allure qui atteste la persistance des vieilles mœurs bédouines. Au surplus, elles paraissent jouer un rôle important dans les affaires publiques. La possession de la belle Zaynab al-Nafzawiyya, surnommé « la Magicienne », semble, au début de la secte almoravide, une condition nécessaire à l’exercice du commandement. Après la conquête du pouvoir, les Almoravides associent les femmes à la vie politique, voire militaire de l’ensemble de l’Empire et les laissent vivre comme avant dans les campements sahariens”
Les Almoravides
sont des tribus berbères du groupe des Sanhadjas, apparentés aux Touareg. Pasteurs nomades, ils se lancent au milieu du XIe s., à partir de leur désert, à la conquête de terres plus riches et parviennent à constituer un immense empire, englobant un double domaine africain et européen. Ce mouvement, qui traduit un épisode de lutte pour la vie que mènent constamment, au Maghreb, les nomades contre les sédentaires, s’expriment en termes religieux. En effet, les Almoravides sont en même temps qu’une confédération de tribus, une confrérie religieuse. Tout comme les Arabes au début de l’islam, ils se mettent en marche pour occuper des territoires et propager une doctrine.
Toutefois, cette doctrine n’a rien d’original et ne fait que reprendre les principes du rite malékite, hérités des grands docteurs de Kairouan. En 1035, des chefs de la tribu des Lamtunas, de retour de pèlerinage, s’arrêtent à Kairouan, où ils entendent Abu Imran, savant originaire de Fès. Pris d’admiration pour ce maître, ils lui demandent d’envoyer parmi eux, dans le désert, l’un de ses disciples. Ce sera Abd Allah ibn Yasin, fondateur du mouvement almoravide. Réformateur rigoureux, ibn Yasin invite les nomades à respecter scrupuleusement les prescriptions de l’islam et, par conséquent, à ne plus épouser plus de quatre femmes et à payer l’impôt rituel.
Trouvant ces obligations insupportables, les nomades ne répondent pas à son appel. Ibn Yasin les abandonne alors et se rend, en compagnie de l’un de leurs chefs, dans une île du cours inférieur du Sénégal. Très vite, quelques chefs de tribus les suivent, encourageant par leur exemple beaucoup de nomades à faire de même. C’est ainsi que le ribat fondé par ibn Yasin essaime et compte, en peu de temps, de nombreux fidèles.
Abdelaziz Bouteflika, fossoyeur madré de l’islam politique | Par Nicolas Beau
L’Algérie est l’un des rares pays du monde arabe où l’islamisme politique est en décomposition.
Les résultats des élections locales de 2017 ont confirmé cette nouvelle donne politique : l’islamisme est en perte de vitesse et ne séduit plus en Algérie. Le MSP, le TAJ et toutes les autres composantes de l’islamisme algérien ont reçu une véritable gifle en perdant de nombreux sièges dans les communes et les assemblées locales des wilayas. La descente en enfer n’est pas due au hasard mais à une stratégie redoutable du président algérien, Abdelaziz Bouteflika. Tout en douceur.
Des islamistes émasculés
L’islamisme algérien est tombé dans le piège tendu par Bouteflika depuis son arrivée au pouvoir en 1999. L’acte 1 a débuté lorsque Bouteflika a convaincu les frères musulmans du MSP, créé par feu Chekih Mahfoud Nahnah, de s’associer avec lui pour diriger l’Algérie. La posture affichée alors par la présidence était de fermer la parenthèse d’une décennie noire marquée par les violences sanglantes. Le MSP, à l’époque la deuxième force politique algérienne, vit certains des siens accéder aux responsabilités, perdant ainsi l’essentiel de sa combativité. Le piège se refermait sur ces notables pieux happés par un exercice très partiel du pouvoir..
En revanche, il ne fut jamais question à ce stade de laisser se recréer un succédané du Front Islamique du Salut (FIS) dont les principaux cadres avaient combattu dans les maquis durant la décennie noire. Sur ce point, le « deal » était parfaitement clair entre Bouteflika et les militaires, notamment le DRS (services secrets algériens) du général Toufik. Ce fut même la condition sine qua non posée par l’armée à l’intronisation de l’actuel chef de l’Etat en 1999.
Salvador Dalí, le Christ de San Juan de la Cruz (1951)

Rosto de mulher de vermelho

Drawing by Gianfranco Fusari (Italian)

Domingo de Páscoa, ou o Túmulo Vazio | Frederico Lourenço
Há quase dois mil anos, numa madrugada de domingo em Jerusalém, três mulheres iam a caminho de um sepulcro recentemente talhado na rocha. Estavam muito preocupadas: como remover a enorme pedra que fora utilizada para fechar a sepultura? Já nascera o sol e elas levavam consigo perfumes que tinham comprado para embalsamar o morto. Esta etapa do rito fúnebre estava deslocada da ordem correta, pois o que teria sido normal era que tivessem embalsamado o morto antes de fecharem a sepultura com a pedra. Mas não aconteceu assim. O sepultado tinha morrido (e de morte bem cruel) quando estava para começar o sábado judaico. Não houvera tempo para tratar o seu corpo com perfumes.
Ao chegarem ao túmulo, as mulheres viram, com espanto, que alguém já removera a pedra. Entraram dentro do túmulo: e foi aí que ficaram apavoradas. O morto tinha desaparecido. Lá dentro, estava sentado um jovem, vestido de branco, que elas não conheciam. O jovem diz às três mulheres: “é Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui” (Marcos 16:6). O jovem recomenda às três mulheres que vão dizer a Pedro e aos outros discípulos que Jesus foi à frente, rumo à Galileia: na Galileia é que eles o verão. As mulheres fogem do sepulcro, dominadas por um misto de tremor e de tresloucamento (a palavra grega é “ékstasis”, donde vem a nossa palavra êxtase). Só que elas não obedeceram às instruções dadas pelo jovem. Na verdade, aquelas mulheres “nada disseram a ninguém. Tinham medo, pois” (Marcos 16:8).
É nestes termos que o mais antigo relato da ressurreição de Jesus nos descreve o momento arrepiante em que Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago) e Salomé depararam com o túmulo vazio. O Evangelho de Marcos termina assim, no ar, como que (musicalmente falando) em cadência interrompida. É sabido que, posteriormente, cristãos anónimos, insatisfeitos com este final abrupto, trataram de escrever mais umas frases em jeito de continuação, também para que o final do Evangelho de Marcos condissesse com o final dos outros três Evangelhos canónicos, em que os discípulos têm “experiências imediatas” de Jesus ressuscitado, nas quais Jesus conversa (e até come) com eles.
As palavras proferidas por Jesus ressuscitado e as circunstâncias em que essas palavras são ditas (que desmentem, no caso de Lucas, o que o jovem vestido de branco diz às mulheres no Evangelho de Marcos) apresentam diferenças significativas quando comparamos os Evangelhos. Diferenças que levantam obrigatoriamente perguntas e nos obrigam a pensar.
A pergunta mais imediata é imensamente sugestiva para todos aqueles agnósticos que, como eu, se interessam pela fascinante figura histórica que foi Jesus de Nazaré; e deveria ser basilar para crentes que veem n’Ele o Filho de Deus. E a pergunta é esta: qual é o grau de fidedignidade dos relatos que lemos nestes quatro Evangelhos a respeito da ressurreição de Jesus? Todos eles falam num túmulo vazio. Mas donde lhes veio essa informação? Já mencionámos que Marcos, que redigiu o mais antigo relato que conhecemos sobre o túmulo vazio, nos diz que as supostas testemunhas oculares (as três mulheres) ficaram tão apavoradas que não contaram nada a ninguém.
Ora em nenhum momento do seu Evangelho nos é dito por Marcos que ele, o evangelista, presenciou pessoalmente aquilo que nos está a narrar. O mesmo vale para Mateus e para Lucas. Também é facto que, se os três se arrogassem o estatuto de testemunhas oculares, ainda maiores seriam as nossas dificuldades com estes textos fundadores do Cristianismo. É que os relatos dos evangelistas não são coincidentes. E se há quatro versões distintas, a lógica mais básica impede-nos de aceitar que as quatro possam ser verídicas. Podem estar as quatro erradas. Mas não podem é estar todas certas.
Em Lucas, tal como em Marcos, temos como testemunhas Maria Madalena e Maria (mãe de Tiago); mas Lucas não as faz acompanhar por Salomé, como em Marcos, mas sim por uma tal de Joana. Além destas três mulheres, há outras (não nomeadas) que estão também com elas. Este “coro trágico” de mulheres é exclusivo do Evangelho de Lucas. Em vez de elas verem um jovem sentado dentro do túmulo, estas mulheres descritas por Lucas veem dois homens. Estão vestidos de trajes resplandecentes e dão às mulheres a notícia fulminante de que Jesus ressuscitou. Tal como as mulheres em Marcos, as do Evangelho de Lucas também ficam apavoradas. Mas ao contrário do que fazem as duas Marias e Salomé em Marcos, em Lucas as mesmas Marias e Joana contam tudo aos apóstolos.
No entanto, estes não lhes dão crédito e (de forma bastante machista) acham que elas estão a dizer uma “parvoíce” (Lucas 24:11). Pedro, porém, não deve ter achado as mulheres assim tão parvas: levanta-se e vai a correr até ao sepulcro, para ver o que se passa com os seus próprios olhos. Olha lá para dentro e não vê nada. Só vê, abandonadas, as ligaduras com que o corpo de Jesus tinha sido envolto aquando da sepultura.
Consideremos agora o relato de Mateus: no caso deste Evangelho, são só duas as mulheres que chegam ao túmulo no domingo de manhã. São as nossas já conhecidas Marias (a Madalena e a mãe de Tiago). Unicamente neste Evangelho, dá-se um sismo. As duas Marias veem então um anjo do Senhor “com aspeto de relâmpago” (Mateus 28:3). Os guardas que estão a guardar o túmulo ficam “como mortos” (estes guardas só existem no Evangelho de Mateus; mais nenhum evangelista os refere). O anjo informa as duas mulheres que Jesus ressuscitou. Elas saem depressa, eufóricas de alegria (e não apavoradas, como em Marcos e Lucas).
De repente, acontece uma coisa com que nem Marcos nem Lucas tinham sonhado: aparece-lhes Jesus em pessoa. Diz-lhes “não temais” (embora elas não estivessem com medo) e dá-lhes a incumbência de transmitir aos “irmãos” Dele a mensagem de que devem ir até à Galileia: será na Galileia que o contemplarão. E assim acontece em Mateus e em João (mas não em Lucas). Repare-se que, no Evangelho de Mateus, nenhum discípulo de Jesus (nem sequer Pedro) vai ao túmulo para ver, com os próprios olhos, o que se passou: mas isso sucede (como referimos) em Lucas. E acontece também em João.
É no Evangelho de João que encontramos o relato mais divergente sobre as circunstâncias relativas ao túmulo vazio. A diferença fulcral é que só neste Evangelho nos é dito que o autor do texto viu com os seus próprios olhos aquilo que está a descrever. João afirma categoricamente que viu o túmulo vazio: foi o primeiro a vê-lo, aliás (João 20:8), antes mesmo de Pedro. No Evangelho de João, as três mulheres (que vão ao túmulo em Marcos e Lucas) e as duas mulheres (de Mateus) estão agora reduzidas a uma só: Maria Madalena.
Madalena é o verdadeiro denominador comum dos quatro relatos sobre o túmulo vazio. É ela que chega sozinha ao túmulo no domingo de manhã: ainda estava escuro (contrariamente ao que nos diz Marcos, que afirma explicitamente que já nascera o sol). Ao ver a pedra removida da entrada, Madalena desata a correr. Vai dar logo a notícia a Pedro e ao discípulo “que Jesus amava” (João 20:2), que, por sua vez, se põem também a correr. Vão todos em alvoroço até ao túmulo, mas quem corre mais depressa é o próprio autor do Evangelho, o discípulo amado. É ele que chega primeiro ao túmulo. Espreita lá para dentro e vê os panos depostos. Pedro chega logo de seguida e entra no túmulo. O discípulo amado entra atrás dele. “Viu e acreditou”.
Quando, muitos anos mais tarde, o discípulo amado escreveu o seu Evangelho, comentou a propósito deste momento que nem ele nem Pedro tinham compreendido o que tinham diante dos olhos, pois “ainda não conheciam a passagem da Escritura, segundo a qual Ele tinha de ressuscitar dos mortos” (João 20:9). Nós, leitores modernos, podemos considerar perdoável este alegado desconhecimento da Escritura por parte dos dois discípulos, atendendo ao facto de em nenhuma passagem do Antigo Testamento se encontrar escrita noção semelhante.
Pedro e o evangelista voltam “para junto dos seus” e só Madalena fica sozinha a chorar no exterior do túmulo. Por entre as lágrimas, ela espreita lá para dentro e vê dois anjos sentados. Os anjos (que tinham acabado de descer do céu, ou então eram visíveis apenas para Madalena, já que Pedro e João não os tinham visto) dão-se conta do choro dela e perguntam-lhe porque está a chorar. Madalena responde “porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”. Madalena volta-se depois para trás e, nas palavras do evangelista, vê Jesus sem saber que era Jesus. Também Ele lhe pergunta a razão do choro. Julgando estar a falar com o jardineiro, Madalena pergunta-Lhe (num momento de subtil ironia poética digna da tragédia grega) se foi Ele que levou o corpo d’Ele. Jesus diz o nome dela: “Maria!”
É nesse momento (supremamente arrepiante mesmo para quem já leu o Evangelho de João centenas de vezes) que Madalena percebe.
A propósito das descrições divergentes do que se passou no túmulo vazio, dissemos acima que, quando temos quatro relatos que não coincidem sobre determinada realidade, somos impedidos pela lógica mais básica de aceitar que os quatro possam ser simultaneamente verídicos. Ou bem que estava um jovem sentado dentro do túmulo vazio (Marcos), ou dois homens (Lucas) ou um anjo (Mateus) ou dois anjos (João). Ou bem que foram três mulheres ao túmulo (Marcos e Lucas), duas mulheres (Mateus) ou só uma mulher (João). Estas personagens não cabem todas dentro e à porta do túmulo ao mesmo tempo. E mesmo que decantássemos a questão de modo a nos focarmos só na oscilação entre uma figura masculina (jovem ou anjo) e duas figuras masculinas (homens ou anjos), mesmo assim não faz sentido admitirmos que ambas as versões possam ter validade equivalente. Aceitando como realidade factual que Jesus foi crucificado numa sexta-feira da década de 30 do século I da nossa era e que, no domingo de manhã, o túmulo, onde tinha sido colocado o cadáver, estava vazio, temos de perguntar: o que aconteceu nessa sexta-feira? O que aconteceu nesse domingo de manhã? Qual será a verdade da ressurreição de Jesus? Qual será a verdade do túmulo vazio?
A resposta do crente é – claro está – a própria crença, território que não me compete pisar. O ateu encontrará talvez uma explicação racional no boato que Mateus pretende combater no final do capítulo 27 do seu Evangelho: os discípulos fizeram desaparecer o corpo de Jesus, de modo a dar a ilusão de que tinha ressuscitado. O túmulo estava vazio porque o corpo fora propositadamente removido.
Para aqueles que, como eu, não são crentes nem ateus, mas que leem de espírito aberto estes textos indispensáveis, constituirá porventura ressurreição suficiente o facto de, neste mundo onde Jesus de Nazaré morreu, podermos afirmar que, bem vistas as coisas, Ele afinal não morreu. Porque a verdade é esta: tanto crentes como não-crentes andaremos às voltas com Jesus nas nossas cabeças, enquanto houver seres humanos na Terra.
Frederico Lourenço
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