Sombras da infância na poesia de Moura Campos | por Adelto Gonçalves

 I

O poeta e crítico espanhol Carlos Bousoño (1923-2015), em Teoría de la Expresión Poética (Madri, Gredos, 1970), observa que a poesia deve passar ao leitor, por meio de palavras, um conhecimento de índole muito especial, ou seja, um conteúdo psíquico que na vida real se oferece como individual, como um todo particular, síntese intuitiva, única, daquilo que passa pela alma do autor. Isso não significa que a poesia deve ter rimas, ritmo, melopeia ou versos, pois nada disso a caracteriza. Caso contrário, sempre que estivéssemos diante de um texto em verso teríamos poesia, como observa o professor Massaud Moisés (1928-2018) em Dicionário de Termos Literários (São Paulo, Cultrix, 2005). E não é assim.

Lembra-se isto a propósito do livro do poeta Francisco Moura Campos (1942-2017), Refúgios do Tempo (Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2016), que reúne reminiscências do autor, ou seja, lembranças de sua vida em duas cidades do Interior do Estado de São Paulo (Botucatu e São Carlos) e na capital paulista, que marcam as três partes em que está dividido o volume. O lançamento deste livro ocorreu em novembro de 2016 e, a 14 de outubro de 2017, Moura Campos faleceu, vitimado por leucemia.

Nos 40 poemas que compõem a primeira parte do livro estão presentes reminiscências da infância e adolescência do autor em sua cidade natal, Botucatu, como as ruas, a casa da avó, os bares, as pescarias, os footings aos domingos à noite, especialmente aqueles que se passavam na Rua Amando, os jogos de futebol, em especial os da Ferroviária, o armazém de secos e molhados, uma viagem a São Paulo a fim de ver um São Paulo x Corinthians no estádio do Pacaembu e até uma homenagem ao professor que lhe ensinou a escrever e despertou sua vocação para a literatura.

Nesse sentido, não se pode discordar da dramaturga, ensaísta, poetisa e tradutora Renata Pallottini, quando diz, na contracapa do livro, que a  poesia de Francisco Moura Campos “consegue arrancar do mais profundo das sombras da infância a pureza e o sabor da terra, que o tempo havia tentado sepultar”, definindo-a como “uma poesia nítida e dedicada a reinventar o perdido e o nunca encontrado”.

Não são poemas que se exprimam por metáforas, mas que refletem o que se registrou na mente do poeta ao longo do anos, fazendo um resgate de “reminiscências que se aproximam do conto, da crônica”, como observa o poeta Caio Porfírio Carneiro, autor do texto das abas do livro, acrescentando, com percuciência, que os textos de Moura Campos passeiam, de maneira mágica, “entre diversos meios literários, sem fuga possível da pulsação poética, que vem imediatamente ao vivo em quaisquer destas criações, valendo-se de sua arma poderosa: simples sem ser fácil”.

Em outras palavras: trata-se de uma prosa poética, que sai do coração de quem se sente profundamente ligado a tudo o que compôs a sua vida: familiares e amigos, a casa e os objetos guardados, as recordações de infância e dos lugares por onde passou, os sonhos, os anseios, enfim, o tecido com que se faz a própria vida. Eis um exemplo (“Noturno da Rua Cesário Alvim”):

É o apito do trem no meio da noite:

            – Enternecimento…

            Diz-se que vai chover se o apito vem de perto.

            É o relógio da Igreja Nossa Senhora de Lourdes

            soando a cada quinze minutos

            numa espécie de badalar luminescente marcando

            o tempo… É muito bom.

            São os gatos chorando alto, feito crianças.

            São os pios dos morcegos.

            É o assovio dos fios quando venta forte.

            Nos silêncios da vida

            esses rumores vão comigo.

II

Na segunda parte, dedicada à cidade de São Carlos, as lembranças são menos variadas e os poemas em menor número (17). Trazem, porém, o viço da juventude: o aluno de Engenharia descobre os prazeres noturnos das conversas amenas com os amigos nos bares ou participa de serenatas debaixo das casas das musas inspiradoras dos estudantes. Eis um exemplo (“Serenata”):

(…) A serenata cortava o silêncio da madrugada

                        e o céu era um manto de estrelas aberto sobre nós.

Há ainda lembranças que se haviam grudado nos olhos, indiferentes à passagem do tempo, como se pode ver no poema “Trem”:

Da minha janela vejo o trem da Paulista

Que vai chegando, chegando, e para.

Os habitantes da cidade acertam seus relógios.

Depois o trem apita, sai devagarinho

E o silêncio da noite volta a se derramar

Pelas ruas de São Carlos.

Este trem partirá, todas as noites, do meu coração.

Ou ainda recordações dos bailinhos marcados pelo compasso dos primeiros tempos de um ritmo novo, a Bossa Nova, e de um de seus maiores precursores, Dick Farney (1921-1987), como se lê no poema “Baile com a orquestra de Dick Farney”:

(…) Havia grandes solos. Naipes exuberantes.

            O crooner era perfeito.

            Fim de baile, pedimos uma canja e Dick Farney

             concedeu duas.

III

A parte final, reservada à cidade de São Paulo, reúne apenas três poemas, que resumem a entrada do poeta na vida adulta, depois de sua formatura como engenheiro, passando por uma admiração incondicional pelo pianista norte-americano Bill Evans (1929-1980), até uma paixão não correspondida por uma moça que tinha o apelido de Caçula e que foi a diva de seu primeiro poema. Estes poucos versos aparecem integrados ao poema que leva o nome da amada e que se encerra assim:

(…) Caçula caminha comigo, mãos dadas

            numa estrada de ternura, de pedras cravadas no tempo,

            de nunca mais.

IV

Francisco Moura Campos, que era mais conhecido como Chico Moura, foi engenheiro de profissão, mas sempre esteve ligado à literatura. Foi editor de livros de poesia e lançou vários poetas pela Editora Metrópole, de São Paulo, da qual foi sócio-diretor em 1986. Sua estreia nas letras deu-se em 1980 com O sorriso do drama (Massao Ohno/Hoswitha Kempf).

Publicou também Ponteios da madrugada (Limiar, 2010), com o qual recebeu o Prêmio Programa de Ação Cultural (Proac) da Secretaria da Cultura de São Paulo. É autor ainda de Brejeiro (Scortecci, 1985);  Canção (Metrópolis, 1986); Museu de Mariana (Scortecci, 1990); Itinerário Enternecido (Scortecci, 1991); Arroz com Feijão (Scortecci, 1992); Outdoor (Scortecci, 1994); Antologia Poética (Iluminuras, 1998); Renascer (Escrituras, 2005); e Acalanto (Scortecci, 2011).

Durante anos, trocou experiências literárias com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Seu livro Antologia Poética traz na contracapa uma das cartas que Drummond lhe escreveu. Na contracapa de Refúgios do Tempo, há a reprodução de um trecho de uma dessas cartas em que Drummond diz que Moura Campos “constrói brinquedinhos que ajudam a viver, e isso é puro”.

Foi diretor da União Brasileira de Escritores (UBE) e participou ativamente por mais de 40 anos da vida cultural de São Paulo, ministrando oficinas de poesia, palestras, bem como performances e saraus lítero-musicais. Foi membro do júri do Prêmio Portugal Telecom de Literatura – Portugal.

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Refúgios do Tempo, de Francisco Moura Campos. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 88 páginas, 2016, R$ 20,00. E-mail da editora: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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