Migrações e refugiados | Carlos Matos Gomes

No futuro todos nós, europeus e americanos vamos vaguear em busca de uma terra prometida

Quanto a fechar fronteiras e erguer muros para impedir migrantes, em especial africanos, de entrar nos nossos espaços com casas climatizadas, água, eletricidade, hospitais, escolas, horários, salários, mercados, imagens de felicidade e abundância em cartazes de publicidade, quer a Europa quer os Estados Unidos têm razão: eles não são bem vindos. Nãos os queremos a pedir às nossas portas, a estragar a nossa paisagem, a ameaçar a nossa ideia de tranquilidade!

A partir da segunda metade do século XX, a Europa e a América construíram o mais parecido com uma Terra Prometida que existiu na História da humanidade. É certo que alcançaram esse feito universal em boa parte à custa das riquezas das terras que colonizaram e ocuparam no planeta desde o século XVI, mas esse foi — assumem — já um mérito seu, da sua capacidade de inovação e de determinação, da sua superioridade. Trataram de si.

Numa visão egoísta, mas realista (a política não é uma prática de bondade) é justificável que, segundo números do jornal The Guardian de 8 de Junho 2018, a União Europeia já tenha gasto 2 mil milhões de euros em muros, barreiras e sistema de controlo de fronteiras terrestres, aéreas e marítimas para evitar a entrada de migrantes e que apenas despendeu 700 milhões em políticas de acolhimento.

Nos Estados Unidos, o muro do México, iniciado em 1994, custará na versão Trump mais de 15 mil milhões de dólares, uma verba que, segundo Luis Almagro, secretário da Organização dos Estados Americanos, seria suficiente para resolver a médio prazo os problemas causados pela emigração mexicana. Mas o importante e o que dá votos é que eles não entrem.

Em resumo, os dirigentes mais radicais das terras prometidas da América e da União Europeia têm uma política clara e aplaudida pelos seus eleitores: Vamos fechar-nos dentro das nossas fronteiras — produzir e consumir — e impedir os miseráveis de nos ameaçarem nem que seja por os vermos. Mais, para ficarmos de bem com a nossa consciência diremos: “Nós não somos racistas”, justificar-nos-emos garantindo aos nossos seguidores que possuam algum resquício de moral, que os miseráveis que nos batem à porta são assim e estão na condição de migrantes e pedintes porque não são como nós e porque querem ser assim, pobres, e são pobres, como afirma o insigne economista português Beato das Neves, porque não querem trabalhar. Eles não inventaram a fábrica, nem o relógio de ponto, nem o pedal de uma bicicleta, nem uma hélice, nem uma metralhadora, nem sequer um arado!

No presente imediato, até o americano Trump e o húngaro Orban têm aparente razão. O argumento fulcral dos dirigentes populistas adeptos da política da ostra na América e na Europa é a de que os migrantes, sejam por motivos políticos, ideológicos ou económicos invadem o nosso castelo e ameaçam a nossa civilização, o nosso modo de viver.

Este argumento é falacioso a vários títulos. Mesmo que o objetivo dos desgraçados subsarianos fosse impor-nos a fuba, o vinho de palma ou voltar à fogueira para cozinhar fogo de madeira ou que os de religião islâmica nos pretendessem impor a sharia, eles não o conseguiriam por escassez de meios e efetivos. Alguns números retirados da Wikipédia para desmontar a falácia do “ai vêm eles”. Percentagem de islamizados em vários países:

Estados Unidos (de Trump): 1%

Hungria (de Órban): 0,1

Itália (de Giuseppe Conte ): 2%

Polónia: 0,01%

Rep Checa: 0,1%

Sérvia: 3,2%

Reino Unido: 2,7%

Portugal: 0,33%

Parece evidente que a rejeição dos migrantes não se deve ao medo que estas minorias nos convertam às 5 rezas diárias, nos proíbam o vinho, ou as febras, obriguem as mulheres a cobrir a cara e o corpo, a queimar crucifixos e a derreter sinos! A utilização do medo é uma clara manobra de propaganda política. Criar um sentimento de medo para gerar ondas de adesão. É um truque velho e está a resultar.

A questão, no entanto, não é o sucesso das aldrabices dos populistas. A questão não é sequer a que eles possam ter um pouco de razão no medo que difundem. A questão é que os populistas nos desviam da raiz do problema. Há razões fundadas para o medo que a nossa civilização, o nosso modo de viver na Europa e na América, esteja em perigo.

nosso way of life está de facto não só em perigo, está não só ameaçado: Está a dar as últimas e não tem cura!

E não tem cura não por causa dos migrantes africanos ou islamizados. Está condenado porque sofre de um mal congénito. Atingiu um limite a partir do qual deixa de ser possível funcionar. O sistema que suporta o nosso modo de vida entrou em entropia. A energia que esse sistema — o capitalismo como chegou até nós — gera já não pode ser aproveitada como trabalho e daí ser endémico o desemprego dos habitantes desses espaços de capitalismo desenvolvido, cada vez pior remunerado, e fechado às novas gerações. Não há solução e a tendência é para aumentar até ao pleno desemprego.

Os políticos populistas mentem quando apresentam como a causa da rejeição dos migrantes o medo de que eles destruam o “nosso” modo de vida, que roubem trabalho. Não, não são eles que o vão destruir. O nosso modo de vida vai ser destruído por ele próprio, pelas bases em que assenta e que os populistas prometem defender. Quem destrói o nosso modo de vida são os populistas!

Os migrantes não vêm retirar postos de trabalho aos americanos e aos europeus, nem sequer os de baixa qualificação. A civilização baseada no trabalho dos seus elementos — excepto no de uma minoria criativa — é que vai morrer às mãos da tecnologia e da disputa por recursos cada vez mais escassos (guerras a partir do espaço, p.ex).

Em resumo, terminou, ou está em vias disso, a civilização que é a nossa, assente em grandes massas de trabalhadores que durante um ciclo de tempo acumulavam riqueza e que no ciclo seguinte, como soldados, matavam os outros antigos trabalhadores, agora armados, tal como eles em soldados, e lhes destruíam o produto do trabalho acumulado.

Não são os fugidos das guerras no Médio Oriente, ou das “primaveras árabes”,que os jornais ocidentais já não classificam como primaveras mas como uprisings (levantamentos/rebeliões), nem os sem nada da África negra que sobrevivem à travessia do Sara e do Mediterrâneo que colocam em causa a nossa civilização. Somos nós. É Trump com a promessa de ressuscitar a metalurgia pesada, é Giuseppe Conte com a nova industrialização do Norte de Itália, é o Órban que prometem missas aos domingos e vivendas com relvados às classes médias iludidas e crentes na salvação como perdizes que julgam escapar ao destino mantendo-se imóveis, ou enterrando a cabeça na areia como as avestruzes.

Carlos Matos Gomes

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Matos Gomes

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