Ecumenismo na visão grega de cultura aberta | Jorge Alves

“Le Portugal, pour des raisons historiques et géographiques, ne peut et ne doit pas ignorer l’héritage historique qu’il détient du Maghreb et du Mashrek. Nous devons au moins le respecter. Pour une raison simple – il fait partie de notre ADN. Et, mes chers amis, que ce serait bien si nous ne gaspillions pas le capital de sympathie que nous avons dans le monde arabe! Comme je me souviens des regards brillants et pleins d’affection de ceux qui m’ont demandé d’où je venais, dans n’importe quel coin de la Syrie ou de la Palestine, quand j’ai répondu: Portugal. “

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“Portugal, por razões históricas e geográficas, não pode e não deve ignorar a herança histórica que detém do Magreb e do Mashreq. Devemos no mínimo respeitá-la. Por uma simples razão – faz parte do nosso ADN. E, meus caros amigos, que bom seria se não desperdiçássemos o capital de simpatia que temos no mundo árabe! Como me recordo dos olhares brilhantes, plenos de afecto, de quem me perguntava de onde eu era, em qualquer recanto da Síria ou da Palestina, quando eu respondia: de Portugal.”

Bom dia, amigos.

Sempre me senti atraído pelas palavras. Há uma, entre outras, de que gosto particularmente: ecumenismo. Não numa perspectiva cristã, espiritual, mas na visão grega de cultura aberta. Postura que se for percepcionada com o intelecto e com o coração só poderá conduzir-nos a uma direcção – ao conhecimento do Outro. Aqueles que apenas se preocupam consigo e com os seus, numa perspectiva egoísta, poderão apenas ter uma visão parcial do mundo que os rodeia. Por isso quando me perguntam se hoje ainda faz sentido ser de esquerda ou de direita, não hesito na resposta: faz. E se porventura insistem e me dizem para definir o que é então ser de direita, eu respondo: de direita são todos aqueles que se preocupam apenas com o seu código postal, com o seu umbigo. E então o que é ser de esquerda? É aceitar o Outro, aceitar o mundo, estejamos a falar de um indivíduo, de uma cultura ou de uma religião.

Numa altura em que Portugal alberga tanta gente vinda dos mais diversos domínios, falemos hoje um pouco sobre esse Outro, mais exactamente sobre o Islão, tantas e tantas vezes injustamente distorcido. Existe fanatismo entre os muçulmanos? Existe. Mas isso não pode nem deve ser confundido com o todo, pois tal equivaleria a percepcionar o Cristianismo apenas através das fogueiras da Inquisição. No nosso caso concreto, por razões históricas conhecidas de todos, temos motivos mais do que suficientes para olhar para o mundo islâmico com o intelecto e o coração. Pois não foi dele, desse Outro, que herdámos o violino, a guitarra, a poesia trovadoresca, um sem-fim de novos pratos à nossa mesa, os alfaiates, novas técnicas de construção militares e urbanas, novas espécies horto-frutícolas, o artesanato da olaria e da cestaria, enfim, múltiplos avanços nos mais diversos ramos da Ciência? Pois foi.

Pessoalmente, deliciam-me as histórias de mouras encantadas. Quem nunca se entusiasmou com as Mil e uma Noites, as maravilhosas histórias de Xerazade, com as quais para não ser executada entretinha o seu marido, o rei Xariar, que se acuse. Menos conhecida, mas porventura não menos interessante, será a Lenda dos Aventureiros, que nos narra a história dos oito primos omíadas que descobriram as Canárias no século IX. Curiosamente, depois dessa descoberta, surgiu uma rua em Lisboa que dava para o mar, saída de Alfama, que foi baptizada como Darb al-Magrurin, ou seja, a Rua dos Aventureiros.

Não podemos nem devemos voltar as costas ao passado. Já aqui o disse várias vezes e repito: quem não respeita o passado não tem direito ao futuro. Da mesma forma que me apaixona a Lusitânia de Viriato, os reinos suevo e visigótico, não dou menos valor ao Andalus, que no seu auge (século X) era de uma magnitude sem par em todo o mundo então conhecido. E houve tantas figuras de merecimento nesse Andalus! Vou falar-vos muito brevemente apenas de uma: Abu al-Kasim Ibn Qasi, emir de várias taifas, um homem erudito que controlava quase todo o actual Algarve no século XII e que percebeu que, lá no Norte, emergia um novo Estado: Portugal. E que fez Ibn Qasi? Declarou guerra aos cristãos? Pelo contrário, adepto do vive e deixa viver, fez um pacto de não-agressão com o próprio D. Afonso Henriques, consagrado mata-mouros pela nossa História, o que poderá ser considerado uma infâmia, pois fora dos campos de batalha o nosso primeiro rei, cavaleiro templário, sempre defendeu os direitos dos muçulmanos, chegando inclusive a salvar milhares deles de serem passados a fio de espada pelos cruzados após a conquista de Lisboa.

E com risco da própria vida! E quem era afinal Martim Afonso, um dos bastardos do rei, senão filho de uma moura por quem D. Afonso se apaixonara (aqui chegados, importa não confundir este Martim Afonso, que acompanhou o rei nas suas cavalgadas, com Martim Afonso Chichorro, meio-irmão de D. Dinis ? Mas voltemos a Ibn Qasi. Terá nascido em Silves, embora Mértola também reclame o seu berço. A sua família, que detinha considerável fortuna, seria de origem cristã visigótica, entretanto convertida ao Islão após a conquista da península pelos mouros. Desapontado com a imoralidade que via à sua volta, doou a sua fortuna aos pobres e passou a errar de terra em terra à procura de um chamamento divino. Depois de um longa peregrinação regressou à sua terra natal e reuniu em torno de si um grupo de seguidores em Arrifana, Aljezur. Ali foi proclamado mahdi, ou seja, o enviado de Deus. Era acima de tudo um místico, de inspiração sufista, que defendia um tratado de cavalaria que preconizava o desprendimento dos bens materiais e a defesa dos mais débeis, um pouco à maneira do que também eram as práticas templárias.

Ibn Qasi insurgiu-se contra os almorávidas, que detinham o poder em Córdova, aos quais acusou de serem dissolutos e de se interessarem apenas por bens materiais. Aqueles, contudo, não gostaram da ideia de se criar um reino de justiça na terra e perseguiram os seguidores do mahdi, aos quais chamam de muridinos. Mas a fama de Ibn Qasi cresceu e tinha já uma multidão em torno de si. Conquistou inclusive o castelo de Mértola aos seus adversários. Os emires de Beja, Évora e Silves, receosos, submeteram-se aos muridinos. Ibn Qasi pôde então governar como queria – distribuiu dinheiro aos mais necessitados, reduziu os impostos e fez os almorávidas ficar roxos de raiva, pois viram o seu poder esboroar-se como grãos de areia entre as suas mãos. A fama de santo do mahdi aumentou. Ibn Qasi tentou então submeter todo o Andalus. Os seus exércitos atacaram Huelva e avançaram sobre a própria capital do califado, Córdova. Ali foram travados. Face a essa derrota, os emires que apoiavam a nova filosofia mudaram entretanto de lado e passaram a perseguir os muridinos.

Ibn Qasi pediu então ajuda ao emir dos almóadas, sediados em terras marroquinas. Com a ajuda destes, consagrados rivais dos almorávidas, reconquistou as praças perdidas. Mas também os almóadas depressa se revelaram tiranos, o que desagradou ao mahdi e o fez lançar-se em rebelião aberta contra os seus aliados.
A Norte, entretanto, a ameaça dos cristãos era cada vez mais uma realidade. D. Afonso Henriques prosseguia imparáveis cavalgadas por todo o Alentejo e ameaçava o Algarve. O emir almóada convocou então todos os seus vassalos para travar o rei-templário, mas Ibn Qasi recusou pegar em armas. Persistia na independência dos muridinos e aliara-se secretamente a D. Afonso Henriques. O pacto consistia na não-agressão e no respeito da independência de cada um. O rei português ofereceu-lhe então, como sinal de amizade, um anel, uma lança e um cavalo.

Os almóadas não iam perdoar o que consideravam uma traição. Assassinos introduziram-se no castelo de Silves, mataram o mestre, decapitaram-no e espetaram a sua cabeça na lança que D. Afonso lhe tinha oferecido. Aqui está o vosso mahdi!, proclamaram então aos desalentados muridinos. Chegara ao fim o sonho. O Andalus não mais veria a cavalaria espiritual sufi, defensora dos fracos e dos oprimidos. Mas sem o saberem, os almóadas caminhavam também para o seu fim. Acabado o pacto de não-agressão com a morte de Ibn Qasi, não seriam capazes de travar os cristãos Portugueses por muito mais tempo.

Portugal, por razões históricas e geográficas, não pode e não deve ignorar a herança histórica que detém do Magreb e do Mashreq. Devemos no mínimo respeitá-la. Por uma simples razão – faz parte do nosso ADN. E, meus caros amigos, que bom seria se não desperdiçássemos o capital de simpatia que temos no mundo árabe! Como me recordo dos olhares brilhantes, plenos de afecto, de quem me perguntava de onde eu era, em qualquer recanto da Síria ou da Palestina, quando eu respondia: de Portugal.

Uma boa quinta-feira para todos.

Jorge Alves

Retirado do Facebook | Mural de Jorge Alves 

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