Intolerância | Carlos Matos Gomes

Uma das definições de tolerância é a qualidade de aceitar opiniões opostas às suas. A intolerância será, então, o oposto disso.

Aceitar aquilo que não se quer, ou ouvir com paciência opiniões diferentes das suas, são consideradas habitualmente virtudes necessárias para a convivência numa sociedade democrática. Mas são mais do que isso, são condições necessárias para viver em sociedade.

A intolerância radica no conceito da superioridade, e é habitualmente embrulhada em argumentos de ordem moral. Os intolerantes consideram-se superiores por serem portadores ou fomentadores do Bem. A falácia dos intolerantes é a de eles não tolerarem o Mal que são os outros.

A colonização e o colonialismo, com as suas componentes clássicas de “civilizacionar “ e cristianizar , são exemplos clássicos da intolerância. Os colonizadores não toleravam as ideias dos outros, nem os comportamentos dos outros, nem a cor da pele dos outros, a tal ponto não os toleravam que nem os consideravam seus semelhantes, seres humanos. Os colonialistas — que são uma espécie distinta dos colonizadores — entendiam os habitantes das colónias como um produto a ser explorado como qualquer outra, uma matéria-prima. Nada mais. Por isso os colonialistas belgas cortavam os braços aos negros do Congo que não produziam o que fora determinado, por isso os colonialistas da Diamang, em Angola, substituíam anualmente os “contratados” que sofriam acidentes com as vagonetas do cascalho por outros arrebanhados pelos agentes das administrações coloniais.

A intolerância religiosa é outra das manifestações mais sangrentas da intolerância, e também das mais estúpidas e contraditórias. No limite da irracionalidade, a intolerância religiosa assenta no facto de o portador da verdade, o guerreiro do Deus verdadeiro, não tolera que o “outro”, o herege, o infiel, o pagão tenha um Deus que para ele é tão verdadeiro quanto o do missionário cristão, do imã muçulmano, mais, que não queira ir para o seu paraíso, por isso o decapita, o tortura, o escraviza.

A intolerância dita política é uma variante da intolerância religiosa em que a promessa do paraíso na vida eterna é substituída por um paraíso terreno. A intolerância política é uma proposta radical de corte no contrato social, nas regras que permitem que nos oiçamos e convivamos.

Somos confrontados diariamente com repetições da frase do padre católico francês Jean Meslier (1664–1729) retirada de um “testamento” aos seus paroquianos e a toda humanidade, a denunciar a falsidade de todas as divindades e de todas as religiões do mundo: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”, encontrada no livro Extrait des sentiments, editado por Voltaire, a quem muitas vezes a frase é atribuída.

Quando se lê, a propósito da Festa do Avante, “estou de acordo com a entrada dos 100 mil, mas não que os deixem sair”, estamos, embora numa escala mais ligeira, no mesmo mundo de intolerância dos falangistas que desencadearam a guerra civil espanhola de “rojos ni amnistia ni perdon, al paredon”. E a frase sobre a Festa do Avante pode originar outra de quem estiver de acordo em deixar ir 100 mil peregrinos católicos a Fátima, mas não a que os deixem sair. Ou, se estivéssemos na Índia, a desejar a morte por afogamento aos milhões de hindus que vão tomar um banho ritual ao rio Ganges. E por aí adiante (já agora é falsa a afirmação atribuída a Otelo Saraiva de Carvalho sobre meter os fascistas no Campo Pequeno — ele não a proferiu) até chegarmos ao mundo inabitável descrito na famosa carta que o Cacique de Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou em 1855 ao presidente dos Estados Unidos, Francis Pierce, depois de o governo americano haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Diz, em resumo, que quando a última árvore tiver sido derrubada, o último rio tiver secado, o último peixe tiver sido pescado então os brancos veriam a inutilidade do dinheiro. Já esteve mais longe esse resultado da intolerância.

A intolerância, isto é a recusa à convivência com os outros (o que implica com a cultura e os valores dos outros) e com a natureza, conduz ao mundo inabitável. O resultado da intolerância é este mundo que está a ser promovido quando abdicamos da nossa racionalidade e aceitamos como normal colaborar no suicídio coletivo a que nos conduzem loucos e criminosos como Trump, Bolsonaro, e outros sicários menores que promovem a intolerância como um Bem e uma marca identitária.

Quanto a marcas identitárias de intolerância, as mais conhecidas são as dos ferros incandescentes que os donos colocavam nos escravos. Há quem, entre nós, continue a defender essas marcas. E há quem se entenda civilizado e admita essa intolerância civilizacional que propõe os seres humanos distinguidos pelo ferro do proprietário, o ser da raça superior.

WRITTEN BY

Born 1946; retired military, historian

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