Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas | Um passeio pela História | por João Luis Gomes

Filho de Simão Vaz de Camões, e Ana de Sá, da pequena nobreza, Luís Vaz de Camões nasceu em Lisboa por volta de 1524, e era descendente de Vasco Pires de Camões, um trovador galego, guerreiro e fidalgo, que se mudara para Portugal em 1370. Camões teve uma boa e sólida educação, e ainda jovem teria recebido um sólida educação nos moldes clássicos da época, dominando latim, literatura e história e tendo recebido grande parte da sua formação na Universidade de Coimbra.

Camões era um conhecido boémio frequentador da corte de D. João III, onde era reconhecido como poeta lírico, enquanto ao mesmo tempo se envolvia, segundo a tradição, em amores com damas da nobreza e, possivelmente, plebeias também, pois a sua vida boémia levava-o a frequentar frequentemente as tavernas de Lisboa. Reza a história que por conta de amor frustrado, autoexilou-se no Norte de África, alistando-se como soldado em Ceuta onde ficou dois anos e onde perdeu o olho direito numa batalha.

Posteriormente decide partir para a India, comprovado por um documento datado de 1550 em que o dá como alistado para viajar: “Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria; escudeiro, de 25 anos, barbirruivo, trouxe por fiador a seu pai; vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses… entre os homens de armas”.

Mas entretanto enquanto aguardava embarque, no Dia do Corpo de Deus Camões, que tinha regressado um ano antes de Ceuta, repara numa briga e reconhece que nela estava dois amigos seus, não hesitou em envolver-se na desordem, ferindo com um golpe de espada na nuca, um criado do Paço, de nome Gonçalo Borges. Camões foi preso e levado para a Cadeia Municipal do Tronco que se situava na rua das Portas de S. Antão em Lisboa, onde permanece largos meses e apesar de perdoado pelo ofendido apenas foi libertado em 24.03.1553, por Carta Régia do dia 07 desse mês que dizia “Mancebo pobre que me vai este ano servir à Índia”.

Camões esteve preso na Prisão do Tronco desde 16 de Junho de 1552 até 07 de Março de 1553 at é que finalmente embarcou na nau São Bento com destino à Indiauma nau da frota de Fernão Álvares Cabral filho de Pedro Alvares Cabral, e largou do Tejo em março de 1553.

Durante a viagem passou pelas regiões onde Vasco da Gama navegara, e enfrentou severas tempestades, nomeadamente na passagem no Cabo da Boa Esperança e durante a viagem perderam-se três das naus da frota, mas finalmente, aportou em Goa em 1554, era então o tempo de Afonso de Albuquerque, conhecido como o Leão dos Mares, que dominou o Indico e as rotas comerciais em favor de Portugal.

Camões como fidalgo oriundo da pequena nobreza e de posses limitadas, viveu modestamente em Goa, até que em 1555, D. Pedro Mascarenhas ordenou a D. Manuel de Vasconcelos que combatesse os mouros no Mar Vermelho, e Camões acompanhou-o na expedição, mas a esquadra não encontrou o inimigo e em consequência disso passou o inverno em Ormuz, no Golfo Pérsico.

Na viagem de regresso a Goa a nau onde Camões embarcara naufragou na foz do rio Mecom, mas este conseguiu salvar-se com o seu precioso manuscrito que iria ser a base para Os Lusíadas.

No regresso Camões foi nomeado para a função de Provedor-mor dos Defuntos e Ausentes para Macau em 1562, função que desempenhou até 1566 e onde se recolhia numa gruta para se dedicar à sua grande obra poética, a escrita dos Lusíadas. Mas com saudades da Pátria e aproveitando uma oportunidade, em dezembro de 1567 Camões embarcou na nau de Pedro Barreto para Sofala, Moçambique, para onde este havia sido designado governador e desse modo, ali poderia aguardar por outra nau que o levasse de volta a Lisboa.

No entanto consta que Pedro Barreto era um homem traiçoeiro, fazendo promessas vãs a Camões, de tal modo que, passados dois anos, Diogo do Couto o encontrou em Moçambique em precárias condições, conforme atesta no registo que deixou:

“Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer”.

Mas ao tentar seguir viagem para Lisboa com Diogo de Couto, Camões foi embargado em duzentos cruzados por Pedro Barreto, por conta dos gastos que tivera com o poeta, os seus amigos, estes contudo reuniram a quantia e Camões foi libertado, chegando a Cascais a bordo da nau Santa Clara a 7 de abril de 1570.

Depois de tantas peripécias, Camões finalizou finalmente Os Lusíadas, tendo-os apresentado em récita para o rei D. Sebastião e o rei, ainda um adolescente com a cabeça povoada de sonhos heróicos, gostou tanto deste relato épico que determinou que o trabalho fosse publicado, o que aconteceu em 1572, e concedendo também uma pequena pensão a “Luís de Camões, cavaleiro fidalgo de minha Casa”, em paga pelos serviços prestados na Índia e Macau.

O valor da pensão atribuída a Camões não excedia os quinze mil réis anuais, o que se não era grande coisa para a época, mas para um soldado veterano, a soma deve ter sido considerada suficiente e honrosa na época. Contudo a pensão só deveria manter-se por três anos, e como resultado, o poeta viveu os seus anos finais num quarto de uma casa próxima da Igreja de Santa Ana em estado da mais indigna pobreza, tendo mesmo o seu criado Jau, que trouxera do oriente consigo, mendigado nas ruas da cidade para poder prover o sustente do seu amo.

Camões enquanto viveu sempre se queixou das injustiças, e da pouca atenção dada à sua obra, pois tinha consciência do seu mérito como homem, soldado e poeta. Por fim, depois de amargurar-se pela derrota portuguesa na Batalha de Alcácer-Quibir onde desapareceu o rei D. Sebastião, o que levou Portugal a perder a sua independência para Espanha, adoeceu gravemente e transportado para um hospital, veio a falecer em 10 de junho de 1580.

A sua obra Os Lusíadas

A escrita de Os Lusíadas crê-se que foi provavelmente iniciada em 1554 e concluída em 1571, esta obra, fruto do génio de Camões é um poema épico que narra a descoberta por Vasco da Gama (1469-1524) da rota para a Índia, que consolidou Portugal como um dos responsáveis pela criação de rotas comerciais e exploratórias durante o século XV, um feito que mudou a geopolítica do mundo à época.

O poema épico foi narrado pela primeira vez ao rei D. Sebastião , e evoca episódios da história de Portugal numa forma épica, pois Camões optou por um género narrativo envolvendo grandiosidade ao cantar a história do seu povo, analogamente ao mesmo tom usado por Homero na Ilíada e na Odisseia, quando conta os factos que abrangem a Guerra de Troia e o retorno de Ulisses.

Os Lusíadas foram escritos numa época em que a língua portuguesa ainda dava os seus primeiros passos, o poema é constituído por 1.102 estrofes de oito versos cada uma, o que resulta em um total de 8.816 versos pois Camões utilizou na sua obra somente versos decassílabos, ou seja, de dez sílabas métricas.

Esse tipo de verso era conhecido como “medida nova” e foi levado da Itália para Portugal por Sá de Miranda, em 1527, facto que marca o início do classicismo português. Parece estranho pensar que nem sempre o idioma escolhido por autores portugueses tenha sido a língua portuguesa, porém, no período em que Camões viveu, além do português, era comum a circulação de textos em castelhano e latim, o latim, em especial, era considerado a língua da cultura e as obras literárias eram normalmente escritas utilizando-o.

Nos Lusiadas o objetivo de Camões é cantar a pátria e a história de Portugal, os seus versos camonianos celebram os “feitos da famosa gente” portuguesa (canto I) e enaltecem “o peito ilustre lusitano” (canto I), e a viagem de expansão marítima torna-se o pretexto para que a história de Portugal seja cantada. Os Lusíadas também ilustram uma época e Camões evidencia a todo o momento uma preocupação em dizer a “verdade” no seu poema épico, ele frisa em diversas passagens o desejo de cantar os acontecimentos que julga verdadeiros com total transparência: “A verdade que eu conto, nua e crua,/ Vence toda a grandíloca escritura” (Canto V)

Os Lusíadas anunciam o percurso das grandes navegações e os versos dedicam-se a homenagear o povo português, que superaram perigos e guerras para fazer avançar o Império e a Fé. A viagem à Índia é usada como representação de todas as navegações portuguesas, e a construção do poema é extremamente bem feita e repetitiva, o herói guerreiro é protegido por determinados deuses e perseguido por outros até que, por conta de sua valentia, coragem e persistência, supera as armadilhas e consegue chegar à terra distante, onde funda novo reino.

Assim como a Odisseia, de Homero, o poema de Camões é composto de cinco partes: Proposição, Invocação, Dedicatória, Narração e Epílogo.

  1. Na Proposição — que aparece no Canto I, da primeira à terceira estrofe —, o autor apresenta-nos o tema central de seu poema: a viagem de Vasco da Gama às Índias e as glórias do povo português.
  2. Na Invocação – também no Canto I, quarta e quinta estrofes – consiste na invocação das musas do rio Tejo, as Tágides, e essa é mais uma indicação de que Camões retirou seu modelo da cultura greco-latina.
  3. Na Dedicatória — Canto I, da estrofe 6 à 17 —, o poeta, após inúmeros elogios, dedica a obra ao rei dom Sebastião, a quem confia a continuação das glórias e conquistas do povo Português.
  4. Na Narração, o poema propriamente desenvolve-se — do Canto I, estrofe 18, ao Canto X, estrofe 144 onde é narrada a navegação de Vasco da Gama às Índias e a história heróica de Portugal.
  5. No Epílogo – Canto X, estrofes 145 a 156 – consiste num lamento do poeta, que, ao deparar com a dura realidade do reino português, já não vê muitas glórias no futuro de seu povo e se ressente de que a sua “voz enrouquecida” não seja escutada com mais atenção.

Como era comum na época, a narrativa parte do meio da acção para então inserir todos os acontecimentos, no caso de Os Lusíadas esta narração inicia-se no meio da viagem de Vasco da Gama quando este narra cronológicamente ao rei de Melinde a história de Portugal, em que se inserem as figuras de grandes heróis da história portuguesa

No conteudo mitológico desta narra ção explorado por Camões, os deuses fazem uma primeira reunião para decidir o destino dos navegantes portugueses, Baco opõe-se ao feito, que diminuirá a sua glória como senhor do Oriente, enquanto Vénus, a deusa do amor, e Marte, o deus da guerra, se colocam a favor dos portugueses. Júpiter por seu lado concorda com os dois e Mercúrio, o mensageiro, é enviado para garantir que o povo de Melinde seja hospitaleiro com os portugueses.

A caravela continua sua viagem, atravessando o oceano Índico, e nessa parte da trajetória, um dos tripulantes, o marinheiro Veloso, narra aos seus companheiros o episódio dos Doze de Inglaterra, espécie de novela de cavalaria em que 12 cavaleiros portugueses vão a Inglaterra para defender a honra de damas que haviam sido ofendidas por 12 cavaleiros ingleses, e após uma luta sangrenta, os heróis lusitanos vencem os ingleses, aos quais sobra a morte ou a vergonha da derrota.

De regresso aos temas mitológicos, o deus dos oceanos, Neptuno, recebe a visita de Baco, que o convence a aliar-se contra os portugueses, argumentando que depois daquela viagem os homens iriam perder o temor dos mares. e Neptuno invoca toda a força dos ventos que atingem a embarcação de Vasco da Gama. Mas sob a proteção de Vênus e das Nereidas, as ninfas marinhas, os portugueses sobrevivem, mas o seu navio sofre inúmeras avarias, e chega a Calecute, na Índia, graças às correntes marítimas invocadas em seu auxílio, uma vez que o mastro da embarcação se encontrava quebrado.

Em Calecute, os portugueses são envolvidos em mais uma trama de Baco, que havia induzido o Samorim (líder local) a separar Vasco da Gama dos seus companheiros e prendê-lo, mas este consegue escapar mediante o pagamento de um suborno, o que vale uma crítica mordaz de Camões à corrupção dos homens pelo dinheiro.

Uma contradição na obra de Camões é a presença da Ilha dos Amores, pois no canto IX, um lugar místico surge no meio da rota, onde os guerreiros vão repousar e onde Vénus prepara maravilhosas surpresas para os visitantes, pois na ilha, estão as ninfas que ao avistarem os navegadores começam uma aventura, erótica, em que são exaltadas as qualidades do amante português.

Ora num poema que louva o império da Fé é de surpreender a presença dum trecho como este, e embora fizessem alusão ao amor carnal e ao culto pagão numa época em que os Jesuítas governavam, a obra caiu na mão de um censor dominicano, Frei Bartolomeu Ferreira que não só não solicitou grandes cortes e alterações como elogiou publicamente o autor.

Existem três episódios fulcrais em Os Lusíadas que merecem destaque pela sua importância: o de Inês de Castro, o do Velho do Restelo e o do Gigante Adamastor.

O episódio de Inês de Castro aparece no Canto III, durante o relato de Vasco da Gama ao governante de Melinde, trata-se da história do amor proibido de Inês, dama de companhia da rainha, pelo príncipe dom Pedro, e ao saber do envolvimento do príncipe com ela e preocupado com a ameaça política oferecida por Inês, que tinha parentesco com a nobreza de Castela, o rei dom Afonso manda executar a jovem. Dom Pedro, ausente do reino na ocasião do assassinato, inicia depois uma vingança sangrenta contra os executores e coroa o cadáver de Inês, aquela “que depois de ser morta foi rainha”.

O relato sobre o Velho do Restelo encontra-se no Canto IV. Na praia lisboeta de Restelo, um velho profere um discurso poderoso contra as empresas marítimas de Portugal, que ele considera uma ofensa aos princípios cristãos, uma vez que a busca de fama e glória em terras distantes contraria a vida de privações pregada pela doutrina católica, e deixa para trás milhares de orfãos e viuvas.

O episódio do Gigante Adamastor figura no Canto V, e ele aparece quando Vasco da Gama e a sua tripulação se dirigem ao Cabo das Tormentas, mais tarde renomeado como Cabo da Boa Esperança, personificado pela figura do Adamastor, um gigante da mitologia grega que se apaixonara pela ninfa Tétis, que o rejeitara e Peleu, o marido de Tétis, transformou então o gigante em pedra e que assustava todos os marinheiros que por ele tentavam passar.

Quatrocentos e cinquenta anos depois de ter sido publicado pela primeira vez, em 1572., a obra épica e poética dos Lusíadas continua a ser considerado o maior clássico da língua portuguesa, isso por si só já é um motivo para lê-lo.

Fontes:

Wikipédia – Luiz Vaz de Camões

MegaCurioso – Os Lusíadas e a transformação da lingua Portuguesa

ValeOnNoticias – Os Lusíadas você conhece, mas, e Luís Vaz de Camões?

InfoCultura – Os Lusíadas de Luís de Camões

Guia Da História – Luis de Camões e os Lusiadas

Joao Luis Gomes

Um passeio pela História

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