De homem mais rico da China a condenado a prisão perpétua: eis o fim de uma das figuras da grande crise da China, Agência EFE e CNN Portugal

O percurso de Xu Jiayin resume a ascensão e queda da Evergrande: de magnata imobiliário e homem mais rico da China a condenado a prisão perpétua no caso do grupo que se tornou um símbolo da crise imobiliária chinesa.

Na imagem divulgada esta quinta-feira por um tribunal de Shenzhen (sudeste da China) após a sentença, Xu surge envelhecido, de cabelo branco, expressão séria e ladeado por dois polícias em frente ao banco dos réus — uma imagem bem diferente do retrato de 2017, no qual a revista Hurun o apresentou como o novo homem mais rico do país.

Nessa altura, a chamada “Forbes chinesa” descreveu-o como um empresário que tinha completado a transformação “perfeita” de empreendedor para “criador de super-riqueza”, além de fundador de um grupo em rápida expansão, promotor de futebol, filantropo e membro de importantes órgãos políticos.

Da fábrica ao Olimpo

Xu, também conhecido por Hui Ka Yan, nasceu em 1958 na província central de Henan e perdeu a mãe ainda em criança. Após o retomar dos exames de admissão à universidade, que tinham sido suspensos durante a Revolução Cultural, matriculou-se no então Instituto de Ferro e Aço de Wuhan (China central), formou-se em 1982 e trabalhou durante uma década numa fábrica de aço estatal.

O próprio descreveu este período como uma ascensão típica na China reformista: estudar, trabalhar na linha da frente, deixar a estabilidade do emprego público e lançar-se na economia de mercado a partir do interior, mudando-se para as cidades de Shenzhen e, mais tarde, Cantão, no sudeste do país.

Em 1996, fundou a Evergrande. O seu primeiro grande sucesso surgiu com o Jinbi Garden, um empreendimento residencial em Cantão (sudeste da China) que, segundo a imprensa chinesa, teve a sua primeira fase totalmente vendida em questão de horas.

A fórmula combinava casas com preços competitivos, pré-venda, rápida rotação de capital e amplo financiamento.

Este modelo transformou a Evergrande numa das maiores promotoras imobiliárias do país e catapultou Xu para o topo da lista dos indivíduos mais ricos da China.

Em 2017, a revista Forbes estimou o seu património líquido em cerca de 36 mil milhões de euros, no auge da expansão do grupo.

Futebol, Política e Filantropia

O futebol era uma das suas montras públicas. A Evergrande comprou o Guangzhou Evergrande em 2010, renomeou-o em sua homenagem e transformou-o numa potência nacional e asiática durante essa década, com Marcello Lippi como treinador e contratações de alto nível como o colombiano Jackson Martínez, o argentino Darío Conca e o brasileiro Paulinho.

Xu cultivou também uma imagem de empresário próximo do governo: era membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, o principal órgão consultivo do país, e a Evergrande apresentava-se como um conglomerado com interesses na habitação, turismo, saúde, bens de consumo e veículos elétricos.

O fundador da Evergrande figurava também como filantropo em perfis publicados pela imprensa chinesa. Afirmava que o espírito empreendedor consistia em “assumir ativamente a responsabilidade social”.

“Sou um filho da terra amarela. O meu sonho é dar um lar a mais pessoas”, declarou na altura, destacando as suas origens humildes e apresentando-se como um benfeitor das classes que ambicionavam a casa própria durante a rápida urbanização da China.

Queda em desgraça

Mas a expansão que o impulsionou para o topo também expôs o seu modelo. Quando Pequim apertou os limites de endividamento para os promotores imobiliários e o mercado imobiliário estagnou, a Evergrande entrou em incumprimento em 2021, com um passivo total de aproximadamente 290 mil milhões de euros.

Xu ainda tentou demonstrar confiança em janeiro de 2023, numa carta aos seus funcionários. “Acredito que podemos cumprir a nossa missão de entregar projetos, liquidar várias dívidas, eliminar riscos e iniciar um novo capítulo de sobrevivência”, escreveu.

Este novo capítulo terminou com um processo-crime. Xu, que estava em prisão domiciliária desde 2023, declarou-se culpado em abril deste ano e manifestou “remorso”, segundo a sentença.

Esta quinta-feira, um tribunal considerou-o culpado de falsificação de informações financeiras, emissão fraudulenta de ações, suborno e peculato, entre outros crimes, e sustentou que, entre 2016 e 2021, a Evergrande e o seu fundador inflacionaram os seus ativos, ocultaram passivos e captaram fundos ilegalmente através de falsificação financeira “contínua e em grande escala”.

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