A Concepção de Cérebro e Realidade em David Bohm. | “Uma Defesa da Ordem Implicada e do Holomovimento”, por Horácio Dutra Mello

Introdução

A compreensão da realidade e da consciência tem sido um dos pilares da investigação filosófica e científica ao longo da história. No século XX, a física quântica, com suas implicações profundas sobre a natureza da matéria e da energia, desafiou as concepções clássicas e mecanicistas do universo. Nesse contexto, o físico David Bohm (1917-1992) emergiu como uma figura proeminente, propondo uma visão radicalmente nova que transcende as dicotomias tradicionais e oferece uma perspectiva unificada da realidade. Este artigo de opinião visa defender a concepção de David Bohm sobre o cérebro e a realidade, com foco em seus conceitos de ordem implicada, ordem explícita e holomovimento, e sua ressonância com o modelo holográfico do cérebro, conforme desenvolvido por Karl Pribram.

Bohm, em sua trajetória intelectual, buscou romper com a rigidez do pensamento reducionista que dominou grande parte da ciência moderna. Sua experiência no Brasil, como professor na Universidade de São Paulo entre 1951 e 1955, e sua posterior perseguição política nos Estados Unidos, moldaram sua visão crítica sobre as limitações das abordagens científicas convencionais [1]. Ele propôs que a realidade não pode ser adequadamente compreendida através da fragmentação e da análise de partes isoladas, mas sim como um todo indivisível e em constante fluxo. Essa perspectiva holística é central para sua teoria da ordem implicada, que postula uma realidade subjacente, mais fundamental e coerente, da qual a realidade que percebemos (a ordem explícita) se desdobra.

A Teoria do Plasma e a Gênese da Ordem Implicada

A gênese do pensamento de Bohm, que culminaria na formulação da ordem implicada, pode ser rastreada até suas pesquisas sobre a teoria do plasma. Conforme Rodrigo França Carvalho [1], Bohm se interessou profundamente pela forma como os elétrons em um plasma, apesar de serem partículas livres, coordenavam seus movimentos para formar um comportamento coletivo e organizado. Essa combinação de liberdade individual e coerência coletiva exerceu um forte apelo sobre ele, apontando para um aspecto criativo e livre da natureza que, no entanto, não impedia um movimento ordenado. Carvalho [1] destaca que Bohm via no plasma uma analogia para o problema individual e social, onde o comportamento coletivo e determinado se relaciona intrinsecamente com o aleatório e indeterminado.

Essa observação levou Bohm a questionar as dicotomias rígidas entre determinismo e indeterminismo, que ele considerava insuficientes para descrever a complexidade da realidade. Para Bohm, a natureza efetiva-se de modo a mesclar esses dois polos, transcendendo-os. A teoria do plasma, ao revelar uma ordem sutil em um sistema aparentemente caótico, serviu como um prelúdio para a ideia de que existe uma ordem mais profunda subjacente à realidade observável. Essa intuição inicial foi crucial para o desenvolvimento de sua interpretação ontológica da teoria quântica e, posteriormente, para o programa científico da totalidade, da ordem implícita e da ordem explícita [1].

Ordem Implicada, Ordem Explícita e Holomovimento

O conceito central da cosmologia de Bohm é a distinção entre a ordem implicada (ou ordem implícita) e a ordem explícita (ou ordem manifesta). A ordem explícita é a realidade que experimentamos diariamente, caracterizada pela separação e pela fragmentação. É o mundo dos objetos distintos, das localizações espaciais e temporais bem definidas. Em contraste, a ordem implicada é uma realidade mais profunda e fundamental, onde tudo está interconectado e “dobrado” em um todo indivisível. É uma ordem de totalidade ininterrupta, onde as distinções que percebemos na ordem explícita estão, na verdade, “envolvidas” ou “implicadas” [2].

Bohm utilizou a analogia do holograma para ilustrar essa ideia. Em um holograma, cada parte contém a informação do todo. Se um holograma for quebrado, cada fragmento ainda pode projetar a imagem completa, embora com menos detalhes. Da mesma forma, na ordem implicada, cada “parte” do universo contém a informação do todo. A realidade explícita que percebemos é como uma projeção ou “desdobramento” da ordem implicada. O processo contínuo de desdobramento e envolvimento entre essas duas ordens é o que Bohm chamou de holomovimento. O holomovimento é o fluxo fundamental e indivisível que constitui a totalidade da realidade, sendo a fonte tanto da ordem implicada quanto da ordem explícita [2].

Essa visão holística e dinâmica da realidade desafia a noção cartesiana de um universo composto por partes separadas e independentes. Para Bohm, a fragmentação é uma ilusão decorrente de nossa forma de perceber e conceituar o mundo. A verdadeira natureza da realidade é um fluxo ininterrupto e uma totalidade indivisível, onde mente e matéria não são entidades separadas, mas diferentes aspectos do mesmo holomovimento. Essa perspectiva tem profundas implicações para a compreensão da consciência e do cérebro.

O Cérebro Holográfico e a Consciência

A concepção de Bohm sobre a ordem implicada encontrou um paralelo notável no trabalho do neurofisiologista Karl Pribram, que propôs o modelo holográfico do cérebro. Pribram, em suas pesquisas sobre a memória e a percepção, sugeriu que o cérebro armazena informações de uma maneira análoga a um holograma. Em vez de memórias serem localizadas em áreas específicas do cérebro, elas estariam distribuídas por todo o córtex, de modo que cada parte do cérebro conteria a informação do todo [3].

A colaboração e a ressonância entre as ideias de Bohm e Pribram deram origem à hipótese holofluxo, que postula que o cérebro opera como um decodificador da ordem implicada. Ou seja, o cérebro não apenas processa informações sensoriais de forma linear, mas também acessa e interpreta a totalidade de informações contidas na ordem implicada, desdobrando-as na ordem explícita que experimentamos como realidade consciente. Essa perspectiva oferece uma explicação para fenômenos como a não-localidade na consciência, a capacidade de reconhecimento de padrões e a natureza fluida da percepção [3].

O modelo holográfico do cérebro, em consonância com a ordem implicada de Bohm, sugere que a consciência não é meramente um produto do cérebro físico, mas uma manifestação do holomovimento. A mente e o cérebro seriam, portanto, aspectos interligados de um processo mais fundamental, onde a consciência emerge da interação entre a ordem implicada e a ordem explícita. Essa visão desafia as abordagens materialistas reducionistas da consciência, que tentam explicá-la exclusivamente em termos de processos neuronais localizados, e abre caminho para uma compreensão mais profunda da natureza da experiência subjetiva e da interconexão entre o indivíduo e o universo.

Conclusão

A concepção de David Bohm sobre o cérebro e a realidade, centrada nos conceitos de ordem implicada, ordem explícita e holomovimento, oferece uma alternativa robusta e coerente às visões fragmentadas e mecanicistas predominantes. Ao defender uma realidade subjacente de totalidade indivisível e em fluxo constante, Bohm nos convida a transcender as dicotomias tradicionais e a reconhecer a interconexão fundamental de todas as coisas. A ressonância de suas ideias com o modelo holográfico do cérebro de Karl Pribram fortalece ainda mais essa perspectiva, sugerindo que a consciência é um desdobramento da ordem implicada e que o cérebro atua como um decodificador dessa realidade mais profunda.

Essa abordagem holística não apenas oferece um arcabouço teórico para compreender fenômenos complexos da física quântica e da neurociência, mas também tem implicações profundas para nossa visão de mundo e para a própria natureza da existência humana. Ao reconhecer que somos parte integrante de um holomovimento universal, somos incentivados a cultivar uma percepção mais integrada e a agir de forma mais consciente em relação ao todo. A obra de David Bohm, portanto, não é apenas uma contribuição significativa para a física e a filosofia, mas um convite à reavaliação de nossa própria relação com a realidade e com o universo em sua totalidade.

Referências

[1] CARVALHO, Rodrigo França. Além das nuvens e dos relógios: a percepção da realidade em David Bohm. Scientiae Studia, São Paulo, v. 14, n. 2, p. 409-433, 2016. Disponível em: https://revistas.usp.br/ss/it/article/download/125941/122812/239640. Acesso em: 30 jun. 2026.

[2] O aparente e o oculto: entrevista com David Bohm. Estudos Avançados, São Paulo, v. 4, n. 8, p. 195-208, abr. 1990. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/WKj7rykPXWvQrXN8TtTKZwj/?lang=pt. Acesso em: 30 jun. 2026.

[3] Karl Pribram’s Holonomic Brain Theory and David Bohm’s Implicate Order. Cosmos and History: The Journal of Natural and Social Philosophy, v. 13, n. 1, p. 1-26, Mar. 2017. Disponível em: https://cosmosandhistory.org/index.php/journal/article/view/601. Acesso em: 30 jun. 2026.

Manifesto dos 50+. Rui Rio afirma que o país precisa de uma “transformação profunda”, in RTP

Para o ex-presidente do PSD, Rui Rio, o país necessita de uma “transformação profunda” e frisa que “estamos a perder a democracia”.

Os autores do Manifesto dos 50+ “Por uma Reforma na Justiça” exigiram esta terça-feira conhecer o resultado de investigações e de processos “de grande envergadura” que se arrastam há anos sem chegar a julgamento. Rui Rio, um dos subscritores, defendeu na RTP Notícias que é necessário uma “transformação profunda” e considerou que “estamos a perder a Democracia”. Os subscritores da iniciativa lançada em 2024, por ocasião dos 50 anos do 25 de Abril, pretendem que sejam fixados prazos obrigatórios para procuradores e juízes na condução e apreciação dos processos.

De acordo com os responsáveis pelo Manifesto, dois anos após o lançamento deste repto “nada melhorou” e entrou-se mesmo numa fase de “normalização dos abusos”.

Rui Rio, um dos subscritores do Manifesto esteve na RTP Notícias onde explicou o que piorou com as alterações aprovadas a 12 de junho aos Códigos Penal e de Processo Penal e ao Regulamento das Custas Processuais propostas pelo Governo no início do ano. “O que piora, no geral, eu poderia dizer que estamos a caminhar para a normalização do abuso. Desde que fizemos o Manifesto, há dois anos, nem piorou, nem melhorou, Normalizou-se o abuso. O Ministério Público vai fazendo como quer e lhe apetece. E quase já não há reação“, afirmou o ex-presidente do PSD.

Rui Rio frisa que apesar da “alteraçãozita” ao Código do Processo Penal, “mais-valia terem ficado quietos”. “Esta gente, como não faz reformas, quando faz qualquer coisa chama-lhe reforma”.

Questionado sobre a quem apelida de esta gente, Rui Rio esclarece que se trata “da política de modo geral”.“A justiça está pior hoje do que estava no 25 de Abril. Os cidadãos que recorrem à justiça para a sua vida quotidiana têm mais dificuldade do que tinham naquela altura. E chamam a isto uma democracia”, afirmou.

Para o ex-presidente do PSD, o país necessita de uma “transformação profunda” e frisa que “estamos a perder a democracia”.

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