Numa democracia, a maioria não pode tudo, por Bernardo Ivo Cruz

Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump e uma das vozes mais influentes da direita americana, afirmou recentemente que Trump voltará a ser presidente em 2028. A Constituição americana impede que alguém seja eleito presidente mais de duas vezes, mas Bannon respondeu que há um plano.

O mais interessante não é a ideia de um terceiro mandato, mas a pergunta que fica em aberto: se os americanos quiserem devolver Trump à Casa Branca, deve uma regra constitucional poder impedi-los?

Portugal vive hoje uma versão desta mesma discussão. Em maio, o Chega apresentou uma proposta de revisão constitucional que prevê a revogação do artigo 288º, onde estão os limites materiais que nenhuma revisão pode ultrapassar, entre eles os direitos, liberdades e garantias, o sufrágio universal, a separação dos órgãos de soberania, a fiscalização da constitucionalidade ou a independência dos tribunais.

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Pensamento | Hannah Arendt

“Mentir constantemente não tem como objetivo fazer com que as pessoas acreditem em uma mentira, mas garantir que ninguém mais acredite em nada. Um povo que já não consegue distinguir entre verdade e mentira não consegue distinguir o bem do mal.

E um povo assim, privado do poder de pensar e julgar, está, sem saber nem querer, completamente submetido ao império da mentira. Com pessoas assim, você pode fazer o que quiser. “

Hannah Arendt

Lisboa com menos turismo, Açores em crise, Algarve sem filas. O país que pilha os turistas perde-os. Por Raquel Varela

O país a saque. Lisboa com menos turismo, Açores em crise, Algarve sem filas. O país que pilha os turistas perde-os. Em 2016, com várias críticas publicas, defendi na SIC que o turismo era uma bolha auto destrutiva que só servia como testa de ferro da especulação imobiliária (venda de propriedade). 

Estive no sul de França de férias, em vários hotéis em aldeias lindas, quartos com vista para o rio, pequeno almoço biológico, 100 euros para duas pessoas – sim, basta sair do centro da cidade, 50 por pessoa (ovos caseiros, fiambre divinal, queijos locais), silêncio, camas com colchões de topo, lençóis macios, ouvimos os pássaros e não música tecno, festas populares (não sintetizadores a tocar pimba) com teatro, jazz e ostras a 1 ou 2 euros, petingas a 5 euros; restaurantes vários onde os vinhos, na sua generalidade também bio, custavam entre 21 e 26 euros – quantos restaurantes em Portugal vendem Borba e Monte Velho a 18 euros? -; comboio para todo o lado, entre 3, 7 e 30 euros e mesmo 50 euros TGV. Cafés em esplanadas lindas nos centros históricos, 1  a 2 euros, limonada a 3 euros, tábua de queijos e enchidos farta com tomate dos Deuses 16 euros. Notem que ir daqui ao sul de França em avião são 50 euros e 1 hora e meia…Porque alguém há-de vir para Portugal pagar 200 euros num hotel com fiambre que não se dá a um cão, um colchão velho que afunda, e beber Borba a 20 euros e limonadas a 7 euros, e ser servido sem qualquer carinho, formação e atenção, e ainda ver o gerente passar pelos empregados e os molestar à nossa frente? 

Portugal está a saque, os governos, este em particular mas os anteriores, todos, fizeram, do país o ALLgarve – roubar tudo, do vinho às pensões, o mais rápido possível. 

Pode haver solução? Há solução. Precisamos de partidos políticos novos, sem nos organizarmos colectivamente nada feito, que coloquem em cima da mesa não a agenda que nos querem impor (assuntos laterais) ou defesa de instituições moribundas mas a:  subida radical dos salários com emprego público (que arrasta a subida no sector privado), serviços públicos com chefes eleitos democraticamente, fora com gestores nomeados em qualquer serviço! e cuja função é por norma roubar-nos – subsídios aos pequenos agricultores e artesões -sem eles não há nada de “típico” -; fim aos subsídios a painéis solares e minas e apoios à agricultura local; e claro, com isto há um aumento geral do consumo interno. 

Se continuarmos neste rumo ninguém aqui consegue ou quer sair de casa, sequer a um restaurante, onde come mal, paga muito e é mal tratado (sim, fomos tratados na Occitância com simpatia genuína, não por favor ciníco mas com a verdade de quem tem o que é seu, com delicadeza, humor, ninguém nos serve sem parar para conversar, oferecem-nos várias coisas, são pessoas e serviços reais, que existem todo o ano e para os locais, não são vendedores de verão. Portugal está a destruir os salários públicos, com isso os serviços públicos, com isso o mercado interno, os impostos financiam a guerra, e as casas estão à venda a quem quer refugio das bolhas bancárias.  O saque das pensões, com um “estudo” que falha, falhou e falhará, a transição digital do médico e do professor e o colapso do mercado habitacional transformado em poupança de fundos bancários, ao lado de famílias a explodir de violência e pobreza, eis o programa do PS-PSD-IL e Chega. E uma esquerda apagada a defender as instituições, ou seja, o mesmo.

Eis o ALLgarve. Non, merci.

Descalça vai para a fonte, Luís Vaz de Camões

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;

Vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,

O texto nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata.

Sainho de chamalote;

Traz a vasquinha de cote.

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,

Cabelos de ouro o trançado,

Fita de cõr de encarnado,

Tão linda que o mundo
espanta;

Chove nela graça tanta

Que dá graça a formesura;

Vai formosa e não segura.