A Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés (7º piso), em Lisboa, acolhe dia 14 (terça-feira) às 18:30, o lançamento do mais recente livro do Pedro Almeida Vieira. A apresentação desta obra estará a cargo do advogado Francisco Teixeira da Mota.
O livro, editado pela Planeta Manuscrito, constitui a continuação de narrativas sobre crimes históricos (depois de «Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes», publicado em 2011), desta feita abordando crimes económicos, rebeliões, motim e assassinatos (ou tentativas) de figuras de Estado. Ou seja, o povo português afinal nunca foi sereno…
O tema do Repórter do Kiribati é a verdade, o que tratando-se de uma obra sobre um jornalista (John Slide) deixa logo antever um fino sentido de humor.
Desde o início que o autor considera ser este um “excepcional romance!”, uma “obra-prima”, crença que a meio do livro já vai em “tendencial obra-prima” ou mesmo “romance de grande fôlego”, para, na página 189, já ser referido apenas como um “romance”. Este tipo de considerações, em que o livro é muito rico, oferece-nos a possibilidade de uma leitura alternativa.
Com efeito, vivemos tempos em que todos os escritores dão cursos de escrita criativa. Este Repórter de Kiribati é um fabuloso manancial de técnicas para a escrita de um romance que seja uma obra-prima ou, no mínimo, um romance de grande fôlego ou até, apenas, um romance. O livro está dividido em capítulos temáticos: As personagens, Os locais, Namoro casamento e uniões de fato, etc…
O leitor encontrará neste Repórter do Kiribati a feliz coincidência de ler um romance muito bem conseguido, repleto de sentido de humor e, simultaneamente, dispor de um manual de escrita criativa. Depois de o ler qualquer um estará preparado para escrever um bom romance ou, em alternativa, assassinar uma boa história que poderia dar um bom romance, quiçá uma obra-prima. Atreva-se.
O professor Fernando Rosas apresentou o seu último livro “Salazar e o Poder – A arte de saber durar”, na Casa da Cultura de Setúbal.
Segundo o autor, o livro divide-se em três partes: o que pensava Salazar sobre a política (caindo o mito que Salazar vivia acima das questões políticas), como chegou ao poder e finalmente como conseguiu manter-se no poder durante tantos anos.
O paralelismo com a situação actual era inevitável. Fernando Rosas citou o “Eu não fui eleito para coisíssima nenhuma” de Vítor Gaspar para ilustrar o primeiro degrau de entendimento da política por parte do Estado Novo. Para Salazar o primeiro nível político era o da governança que era técnico e devia ser confiado aos técnicos, dispensando-se a participação dos cidadãos (que não tinham de ser ouvidos) ou dos seus representantes (o parlamento não se devia preocupar com este tipo de assuntos).
Também Vítor Gaspar se considera um “técnico em exercício” fazendo o que é preciso para o bem da nação, mesmo que esta nação não o entenda e, até mesmo, rejeite em uníssono essas políticas – esquecendo-se que, em democracia, o governo é uma emanação da vontade popular expressa nas urnas.
Foi uma lição de história, estruturada, bem fundamentada e com sentido de humor que assistimos ontem na Casa da Cultura de Setúbal.
Ele diz:
-Vou magoar-te.
Ela diz que sabe.
Ele diz também que às vezes as mulheres gritam. Que as Chinesas gritam. Mas que só magoa uma vez na vida, e para sempre.
Neste livro existe uma palavra a partir da qual se ergue toda a história. Essa palavra é «criança», a criança. A paixão de um adulto por uma menina. A palavra criança enche este relato de inocência.
Um chinês adulto apaixona-se por uma menina. É rico e ocioso. Dedica-se às mulheres, ao jogo e a fumar ópio. “Não fazer nada é uma profissão. Muito difícil.” Um ambiente dócil e intencionalmente indolente, sem julgamentos. Era comum os chineses gostarem “das meninas pequenas”.
Neste livro, como uma página em branco, confiou-se uma cidade a cada escritor. Trinta escritores para trinta contos, para trinta capitais, um mundo de Contos Capitais.
São histórias que crescem dentro de nós, espreitando o momento em que se soltam e ganham vida própria.
Tantos e tantos outros contos a reinventar outras tantas capitais, a atrever-se na sua escrita e na forma de ilustrar essas narrativas. A experiência capital de cada escritor. Com este livro a Parsifal estreou-se como editora. Está de parabéns.
O lado interdito e incómodo do nosso corpo liberta-se pela palavra. Maria Teresa Horta resgata-o num banquete de partilha onde o amor assume o seu lado carnal. As palavras são esse corpo desvendado sem falsos pudores. Onde o poema se despe e se deita ao nosso lado. Poesia maior e de maioridade que resgata para todo o sempre a mulher (poeta) de qualquer laivo de menoridade; morreram as poetizas, nasceu a poesia completa, com o seu lado homem e o seu lado mulher.
Revolução Paraíso foi oficialmente apresentado na FNAC Chiado.
Mário de Carvalho referiu-se aos três planos em que esta obra se desenvolve, o histórico, o da acção dos personagens e o onírico (que está para além do sonho de um Portugal melhor, aportado pelo 25 de Abril). Encontrou características picaras nos personagens e lançou perguntas em jeito de desafio ao autor.
O autor respondeu com humor, embora não tenha corrido o risco de se afastar do que tinha preparado como sua apresentação, e deixou-nos uma visão, não da sua obra, mas de como esta nasceu e cresceu com ele. Paulo M. Morais tinha dois anos no 25 de Abril e, claro está, não soube responder à pergunta vinda da assistência: “Onde estavas tu no 25 de Abril?”.
Como se constrói um livro sobre um período histórico tão recente e do qual não se têm uma memória? O autor teve a sorte de receber um álbum de recortes das mãos da sua avó. Construiu assim, sobre o relato dos outros, as suas próprias memórias. Será esse o plano onírico de que falava o Mário de Carvalho? Não sei, mas talvez seja bom ler o livro primeiro antes de me sentir tentado a chegar a alguma conclusão.
No Muito cá de casa, na Casa da Cultura de Setúbal, foi noite de Casanova.
António Mega Ferreira encontrou seis cartas que Casanova escreveu – em francês – a partir de Lisboa, no ano de 1757 (dois anos após o terramoto) e acrescentou-lhes umas brevíssimas notas de rodapé, dando-lhes corpo de livro.
Foi disso e muito mais o que se falou ontem; ou o convidado não fosse o AMF.
A sessão abriu com um interlúdio musical a que se seguiu a leitura parcial de uma dessas cartas, num momento de extrema elegância – digno dos mais nobres salões da corte – abrilhantado pelo ator José Nobre.
Em 1998, afogueado com a insistente pergunta sobre os seus projetos a seguir à Expo 98 (que liderou), AMF respondeu ter como propósito traduzir a “Histoire de ma vie” de Giacomo Casanova. Não o chegou a fazer, mas acrescentou-lhe estas seis cartas.
O romance “Cartas de Casanova, Lisboa 1757”, a que o AMF deu uma forma epistolar (tão ao gosto do séc. XVIII), preenche um hiato de três meses, em que nada é referido na “Histoire de ma vie”.
Casanova só podia ter estado em Lisboa e ter escrito aquelas seis cartas (em francês) que, agora, com brio e desenvoltura de homem de filosofia, AMF, deu ao prelo.
Como sempre, no Muito cá de casa, o José Teófilo brindou-nos com uma noite animada, digna de um renascimento português, onde se falou de literatura e do seu processo criativo, se evocou Bocage…
CASANOVA EM LISBOA | António Mega Ferreira imaginou uma visita de Casanova a Lisboa. Conta-a neste livro que agora vai apresentar na Casa da Cultura, em Setúbal. A sessão abrirá com a audição de uma faixa musical escolhida pelo autor. O actor José Nobre participa com a leitura encenada de um texto do livro.
Numa aldeia de velhos, no interior de Angola, onde se observa um estranho ritual de adoração dos burros, chegam dois personagens vindos de fora. O caixeiro-viajante e o assobiador.
O primeiro espreita a aldeia com a consciência de alguém “treinado nos campos da vida”, “vendedor de bugigangas, de objectos para distrair ou encantar”, e o segundo assobia um choro como se tivesse por missão exultar a aldeia a um ritual pagão, catalisador de todas as forças, ele, o assobiador, “ o distribuidor enganoso e exclusivo que a tristeza arranjara para mostrar à Humanidade apenas a sua face bela”.
A literatura é algo que, usando palavras, não se pode definir nem soletrar. É uma expressão artística ambiciosa, que usa sangue e corpo, que tem de ser livre – como todas as expressões de arte ou como a própria vida –
Deverá ser simples e compreensível como uma correnteza de água, como um estremecer de folhas de árvore.
Quanto a mim, o papel da literatura não é explicar o mundo. A literatura é o próprio mundo. Porque são sentimentos, ideais, histórias experimentadas, visitas, efabulações, desenhos de memórias, conquistas, alegria e desespero. As palavras escritas devem formar um todo compreensível, – um romance, um conto, um poema. As palavras que servem as ideias, têm de ser dádiva. As palavras não podem viver subterraneamente de modo incompreensível ou navegar ao sabor da moda; as letras não devem agrupar-se em palavras que não tenham significado. Isso não é bom. Não é essa a interrogação que a literatura precisa. Não é isso que perdura. Não é isso que prende. E está à vista de todos.
Ana María Matute enche-me de orgulho como mulher, como escritora, como exemplo de conhecimento, de experiência, de sabedoria, de humanidade e celebro-a em todas as suas vertentes e capacidades. Exalto-a e elevo-a. Desejo-lhe, com toda a admiração e a par desta complexa e temporária passagem pelo planeta Terra, muita saúde e as maiores felicidades em tudo, na sua condição humana e na sua literatura.
Esta não é uma biografia escrita de uma forma convencional, um conjunto de eventos enumerados por ordem cronológica ou alinhados pela sua relevância. Um objecto de estudo. Esta é uma biografia escrita por quem arrisca, quem arrisca tudo e muito, sem perder a noção do lado simples da vida: “Eu percebo-o. Não porque tenha o mesmo pensamento, mas porque o percebo. Apenas.”
É esse entendimento que Cristina Carvalho nos transmite neste livro sobre Rómulo de Carvalho, também seu pai. Usando todos os seus recursos de ficcionista ousa, de forma destemida, construir a imagem do homem que muito admirou e muito amou. Fá-lo, por vezes, em registo de miniconto, como se um ritmo próprio (e misterioso) lhe ditasse a ordem pela qual esses eventos lhe surgem na memória.
Para quem vive num apartamento e sonha com uma pequena horta ou mesmo um jardim.
Pode sempre optar por uma solução vertical. Uma parede e algum sol é quanto basta, depois é só soltar a imaginação. De flores a plantas aromáticas, do chá aos morangos… cor e vida.
O meu primeiro livro de poesia. Não o primeiro que li, mas o primeiro que comento neste espaço.
Habituei-me à poesia da blogosfera, que é diferente da poesia em papel. Todos os poemas deviam ser lidos em papel, e de preferência em livro. Não é possível ler-se poesia sobre um vidro que nos pode reflectir. A poesia precisa de papel, de uma página que se vira, do cheiro a tinta impressa, do peso de um livro que nos ocupa as mãos.
Hoje, a poesia da bloga saltou para o papel. Ganhou força. Num livro em que a capa se reflecte na contracapa, sendo espelho de si mesmo, fechado sobre si mesmo. Não espreitamos o que está do outro lado do espelho, simplesmente o folheamos e lemos o seu interior. E descobrimos silêncios, partilhas e a imensidão que sendo humana nos estranha. Interroga-nos com a força do verbo e encanta-nos com a sua melodia.
sabendo-me…
simples poça de água
berço das gotas de chuva.
Seja eu esse silêncio em partilha que encontro na poesia da Maria João. odagirbO.
“Quanto ao professor, estava manifestamente a mais nesta fase da expedição e todos pareciam concordes com isso.”
A trama parece, desde o início, revelar o seu desfecho final, como se no plot traçado não tivesse implícito um volt face. Uma mestria que faz destes contos uma verdadeira aventura para o leitor. São vários os ambientes percorridos por estas narrativas, desde os mais exóticos, ao conturbado período de sobrevivência à ditadura portuguesa. Em todos, um tema comum, uma certa crueldade que parece contida na mente e atitudes dos homens, que se liberta ao sabor do acaso ou do destino. Um mal sem objectivo aparente ou moral assertiva.
A escrita destas narrativas curtas é cuidada e clara, dotada de apontamentos fora do léxico comum que reforçam o ritmo da acção. “Num instante, a multidão oscilou, dividiu-se, sombras correram, a vaia modelou-se em vozeios diferenciados, crepitaram ruídos corridos de passos, desaustinaram tropeios de botas.” E tudo ficou dito sobre a multidão em fuga sujeita a uma carga policial. Toda a emoção e toda a tensão num ritmo desaustinado, num relato perfeito. Dispensam-se mais palavras.
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. É a rua onde mora. Desce os dez degraus de pedra entre a porta do seu prédio e o empedrado do passeio. “Não ia com pressa.” Tal como este relato.
Numa paisagem urbana que lhe é familiar, a de todos os dias, a que conhece daquele percurso, demora-se a menina atenta a todos os pormenores, as ervas entre o empedrado, ali uma bolinha, umas folhas, é o seu olhar introduzindo mistérios na monotonia do seu dia.
No percurso do seu olhar uma mancha negra, uma mancha negra que se estende, que se prende à sua atenção. É então que, como num flashback, a menina inicia o processo inverso, o caminho de regresso a casa. Sobe os dez degraus de pedra entre o empedrado do passeio e a porta do seu prédio. Apanha um saco de plástico. Faz o percurso até à sua descoberta, apanha algo e volta novamente a casa. O ritmo acelera, sobe a escada, entra em casa, vai ao quarto. Momentos soletrados, sendo cada um deles uma fotografia, uma rápida sucessão de fotografias.
As nossas memórias são assim. Momentos de emoção, momentos guardados em fotografias. Podemos passá-las mais depressa ou mais lentamente. O seu mistério dita-nos o ritmo.
Uma miúda desce à rua para se dirigir à estação de metro. Não ia com pressa. Tal como eu, ainda nas primeiras páginas deste Marginal da Cristina Carvalho; desço sobre as suas páginas, leio-as sem pressa, prendo-me aos pormenores, uma erva aqui, uma bola ali, encho de mistério a minha vida.
Este livro, segundo o seu autor, tem origem numa revolta: “a revolta moral contra o estado de vida degradado, autenticamente terceiro-mundista, de mais de 2 milhões de habitantes de Portugal; Não podia encarar grande parte da classe política que nos governa desde meados da década de 1980 sem encontrar nos seus olhos, na sobranceria das suas atitudes, na prepotência das suas leis (extorquindo dinheiro à população, favorecendo os que mais o têm), no ar enfastiado e enfatuado com que no estrangeiro se referem ao povo português, culpando-o de um atraso cuja responsabilidade só às elites pertence, sem detectar neste conjunto de atitudes uma visível tendência para o mal, um genuíno prazer no mal que iam cometendo lei a lei.” (pág. 13)
Tal como a vida “não nasceu contra o caos, mas sobre o caos” (pág. 109), é natural que esta revolta também nasça sobre a desagregação da nossa sociedade, sobre este amortecimento português sem um aparente desígnio de maldade.
Homens normais, sem aleijões psíquicos, entorses sociais de infância ou traumas psicanalíticos, subscrevem políticas que lançam populações inteiras na miséria ou limitam o tratamento a doentes que se podiam salvar e dessa forma vão morrer porque o país está em dificuldades económicas. Como entender esta “banalidade do mal”?
Começa assim o livro de Licínia Quitério, um livro de sítios, de todo os sítios, dos que se alcançam pelo trabalho da palavra. Em cada poema existe uma “paisagem absurda” e nessa paisagem se inscrevem palavras; não nomeiam, não descrevem, são palavras obreiras de outras realidades. E a realidade de hoje corresponde aos “dias do cerco”, à “pele atormentada do pântano”, onde a voz do poeta se destaca como construtor da nova metrópole, a que se avizinha, procurando ir sempre “Mais alto, que a terra é pouca e o céu é vasto”.
Os poemas nascem, “Pedra a pedra, homem a homem, dor a dor, chicote a chicote…”, porque os sítios permanecem para além da memória do nome que lhe demos.
“Ia agora à missa, ao domingo. Não que tivesse um chamamento místico. Nada de apelos eucarísticos. Percebia que a ida à igreja, missa do meio-dia em São Julião, era fundamental para se mostrar em novos espaços, entre outra gente, e bem vestida, com a melhor roupa que ia arranjando, lá estava ela, sozinha e arrebicada, a picar o ponto da subida social.
Na rua começou-se logo a murmurar a conversão. Porque não vai ela à missa da Anunciada, perguntavam retoricamente, grande cabra, o marido é que tinha razão quando a zurzia.”
As Mulheres do Fonte Nova, Alice Brito
Neste livro existe um personagem que é da dimensão de uma cidade, sendo ele próprio essa cidade. Uma cidade montada na garupa da miséria, alcoviteira e má mãe. Não se lhe conhece a culpa, está só contaminada de gente. A mão segura da PIDE sabe dos que não são da situação, já lhes sentiu a pele. Espanta-se de gente esta cidade.
A biblioHistória constitui uma base de dados, iniciada em meados de 2010 pelo escritor Pedro Almeida Vieira, que integra obras de literatura do género histórico – ou com incursões históricas – publicadas por escritores portugueses desde o século XIX até à actualidade. Foi na pesquisa de informação que foi (re)descoberta a obra do primeiro escritor do romance moderno português, Guilherme Centazzi, que publicou «O Estudante de Coimbra», em 1840 e 1841, entretanto reeditada no ano passado pela Planeta.
Actualmente, a biblioHistória tem já inventariados 645 autores (incluindo pseudónimos) e 1.770 títulos, entre romances, novelas, contos e narrativas ficcionadas. Estão também incluídas 59 obras de autores anónimos, grande parte das quais em periódicos. No entanto, ainda se continua a realizar pesquisas para a inclusão de mais obras e obtenção de mais informação.
Não conhecemos outro romance publicado nos anos mais recentes que descreva ficcionalmente de um modo tão perfeito a radicalidade e banalidade do mal como A Desilusão de Judas, primeiro livro de António Ganhão.”
Miguel Real, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Janeiro de 2012
Este livro começa com uma noite mágica, um reencontro de mulheres que atuaram num grupo musical dos anos 80, as mulheres cantoras. Nessa noite mágica, surge o momento perfeit
o com o voo de João Lucena em direção a Solange, “lembras-te de mim?”. O livro nasce aqui. Toda a narrativa serve este único propósito, o de explicar a magia desse encontro, todas as emoções, o segredo que começa por se insinuar e termina em traição, a descoberta do amor. O império minuto.
Em cada um de nós existe uma noite especial que não faz parte do dia, que nasce da evocação da nossa vida. É aí que vamos buscar todo o seu sentido, tal como sair dos sonhos significa encontrar tudo no seu lugar.
Neste livro Luís Carmelo fala-nos do design e da sua relação profunda e perene com a ilusão humana, com o sonho, mas com um sonho em que se pode tocar.
O design começou por ser a pele dos objectos a forma exterior visível e texturada para passar a ser ergonómico, uma pele que é o prolongamento da nossa pele. Tornando-se presente em todos os objectos, evidenciando-se para além da sua forma ou da sua função, acabou por integrar o nosso olhar sobre todas as coisas, como “uma hipnose com os pés na terra.”
“No tempo das narrativas orgânicas e axiais, tudo apontava para âncoras particularmente fixas (heróis mitológicos, o nome de Deus, os valores ideológicos, tanto faz). Agora, os signos apontam para os signos, os sinais para os sinais e os avisos para os avisos.”
Neste livro existe um percurso pela história do design, pelas suas propostas, por alguns objectos que marcaram o autor e até pelas redes sociais, por “esses instrumentos de inscrição expressiva como o Facebook e o Twitter que passaram a traduzir, como nenhuns outros, este renovado design baseado na fórmula vintage “Think small”.
No entanto alerta-nos para o facto de “apeado da eficácia, o design morre, mumifica…”
“Nem sempre o design se dirige para o casamento entre a estética e a eficácia. Muitas vezes reentra num jogo que apenas visa o próprio jogo.” Um ardil de sedução, uma astúcia que propõe a quem o use uma descoberta, um empenho, um entrar nesse jogo, “aspira sobretudo ao logro de quem o use.”
Este livro leva-nos a descobrir o design sobre uma perspectiva apaixonada, numa narrativa poética. “Um novo Deus em cena a escrever direito por linhas muito subtis.”
O poema nasce nas páginas deste livro como um ato de insubordinação. É a resposta a essa “fome de escrever”, a esses “caudais de lava que escorrem sobre as barrigas de textos prontos à desova” dando corpo ao sentido de mortalha com que o papel acolhe o texto.
-o funeral dos sonhos
a ambiguidade
adensa.se e nos rostos
avulsos
há um resfolegar
quebrado
que
se insinua
na memória das folhas
.se
ao menos fosse possível
reciclar a página
retocar a maquilhagem ou
avançar para dentro de um tempo novo?
O poema explora a esquadria improvável da página, roubando-lhe a pontuação, fugindo-lhe à sua forma clássica. O espaço de um parágrafo surge a meio de uma linha, servindo-lhe de quebra ao verso. As frases terminam num ponto final para que a frase seguinte comece a partir desse ponto, arrastando-o consigo para o seu início. O poema cola-se à página de uma forma plástica, como se fosse a obra artesanal de um pintor. Depositado em camadas, escrito com uma espátula, sofrendo um processo de desconstrução, de recorte e colagem. Uma impressão visual que não se dissocia da sua leitura, que nos provoca e desafia.
à revelia dos mortais
sangra o verbo
e um deus louco e quase cego
detém-se mastigando um resto de absoluto
Não ouso esquadrinhar em extensão o dizer do poeta, detenho-me à porta do seu indizível. Encontro neste livro o inconformismo e o convite à aprendizagem, à sua errância nas nossas vidas. Entre o zangado e o irónico, sempre provocadora, Gabriela Rocha Martins, deixa-nos uma reflexão, um olhar lento e penetrante sobre o significado das coisas insignificantes, sem nunca lhes conferir um registo definitivo, evitando assim o risco de se transformar numa lagartixa.
hoje acordei poeta
.coloquei entre as
minhas mãos milhares de caracteres e
misturei.os à revelia do verbo
.triturei
Vivemos tempos que não são mais do que um acrescento esconso aos sonhos que nos roubaram. Inventámos palavras novas para este tempo, palavras redutoras, sem métrica nem salvação. Palavras de claudicar e (no meu entender) obscenas.