Motel 29 com Pedro Almeida Vieira

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PEDRO ALMEIDA VIEIRA convida ANA PEREIRINHA; VÍTOR QUELHAS e JORGE SILVA.

Participação especial de PAULA CANDEIAS e ISAC MINERVAS (um de cada vez e a seu tempo, no devido contexto).

Pedro Almeida Vieira nasceu em Coimbra em 1969 e já fez muito e eventualmente há-de fazer mais. Tendo feito muito significa então que já tem no seu currículo alguns «ex»: ex-investigador universitário (ISA e ICS), ex-ambientalista (LPN e Quercus), ex-jornalista (Grande Reportagem e Expresso, entre outros) e só não é ex-engenheiro porque o título é vitalício por concessão de universidade pública (Évora), pese embora o dito curso (Engenharia Biofísica) já nem seja ministrado. É ainda ex-fumador (desde Agosto do ano passado). Não é, porém, aficionado de ex-votos.

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Citando Pedro Almeida Vieira

Pedro_PAVJamais compreendi como um povo tão sagaz, tão valoroso e tão engenhoso nunca, até então, conseguira matar a sua sede, sobrevivendo à míngua, em imutável crise. Enquanto vivi, defendi que uma Nação para almejar a glória, em lutas e conquistas pelos quatro cantos do Mundo, deveria também vencer a carestia da água para a sua própria capital.

Francisco d’Ollanda, personagem de Nove Mil Passos, de Pedro Almeida Vieira.

O romance histórico, quando estruturado com rigor factual e histórico, tem este efeito desmistificador sobre a nossa memória coletiva. Aqui cai o mito de que já fomos grandes. A grandeza do nosso império ficou-se pela sua extensão e a riqueza nos bolsos de muitos poucos. O povo, esse, sempre entregue à sua sede.

Sobre esta edição da Planeta, comemorativa do décimo aniversário do lançamento deste romance, leia mais aqui.

Nove Mil Passos, de Pedro Almeida Vieira

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Um livro narrado por Francisco d’Ollanda, ou melhor pelo seu espírito, já que o narrador está morto, num tom cheio de humor, que nos relata as peripécias que o seu ser imaterial vai acompanhando.
Francisco d’Ollanda foi o primeiro arquitecto e visionário a quem D. João III pediu estudos para a construção de um aqueduto que abastecesse de água a cidade de Lisboa e aqui conta, quase dois séculos depois, como se processou todo o estudo, adjudicação e construção do Aqueduto das Águas Livres, já no reinado de D. João V.
Ficamos a saber tudo sobre os seus construtores e as tramóias, as intrigas, as traições, os golpes de génio que vão fazendo andar de um para outro dos arquitectos e engenheiros que ficaram com o seu nome ligado ao fabuloso monumento.

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Crime e Castigo na Casa da Cultura de Setúbal

Muito cá de casa, do José Teófilo Duarte, recebeu o Pedro Almeida Vieira, para a apresentação do seu livro Crime e Castigo, o povo não é sereno, seguido de um debate sobre a pena de morte.

O moderador António Ganhão (colaborador literário do PNet Literatura), realçou a importância do romance histórico num país cuja história (sobretudo durante o Estado Novo) foi responsável por gerar toda uma série de mitos. O romance histórico ao contextualizar os factos na sua época e, dentro de uma lógica temporal, não os submetendo à moral dos dias de hoje, transforma-se num grande desfazedor de mitos.

A jurista e escritora Alice Brito falou-nos da violência do estado que deve ser sempre balizada, sendo a Constituição o mais forte instrumento da limitação desse poder. Falou-nos de justiça e de como a pena de morte, sendo irreversível, não é solução para o combate ao crime.

Pedro Almeida Vieira deixou-nos a sua reflexão sobre a maldade humana e como, cedendo nós a um Estado que nos garante mais segurança à custa dos nossos direitos, estamos a caminhar para um retrocesso civilizacional.

Foi uma sessão participada não tendo havido lugar a castigos finais. Para os que faltaram, o maior castigo foi mesmo o de terem perdido o debate.

Setúbal, 31 de Maio de 2013
Na foto, da esquerda para a direita, Pedro Almeida Vieira, António Ganhão e Alice Brito.

Pedro Almeida Vieira na Casa da Cultura de Setúbal

Nós Cá por Casa PAV

A história de Portugal, na versão do Estado Novo, estava reduzida a uma versão muito simplificada, ao nível da ladainha popular, apropriada à sua divulgação por um povo analfabeto.

Dos reis, já muito se sabia se conhecêssemos os seus cognomes: D. Afonso Henriques, o conquistador; D. Dinis, o lavrador; D. João II, o príncipe perfeito.

Uma história de fácil apreensão e que contribuía de forma eficaz para a construção da identidade do homem novo português.

Salazar, em entrevista a António Ferro, defende como prioridade sobre o ensinar toda a gente a ler, a formação das elites que enquadradas pelas massas atacariam os verdadeiros problemas do país.

Para o povo, o ensino da história numa versão infantilizada era mais do que suficiente. As elites formavam-se nas universidades, aí se cuidaria da nossa história.

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Apresentação do “Crime e Castigo”

Hoje, no Âmbito Cultural do El Corte Inglés foi dia de Crime e Castigo. O último livro de Pedro Almeida Vieira foi apresentado por Francisco Teixeira da Mota.
O jurista alertou-nos para o facto de no século XVIII, no Ancien Régime, não existir na justiça uma ideia de socialização, de ação preventiva ou punição proporcional ao crime praticado.

O castigo refletia o estatuto de quem era atingido, sendo assumido como uma celebração do poder instituído, arbitrário, com confissões arrancadas à base da tortura e sendo aplicado de forma quase ritual. A ideia da reparação do mal causado ou da reintegração do condenado eram inexistentes à época.

Pedro Almeida Vieira reconheceu que o seu livro aborda a maldade humana e de como, pontualmente, podemos incorrer em retrocessos civilizacionais. Apesar da brutalidade de alguns castigos, o autor confessa o imenso prazer que lhe deu escrever este livro. Um livro sobre crimes e castigos num país onde o povo não é tão sereno como parece.

Crime e Castigo – O povo não é sereno

Crime e castigoA Sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés (7º piso), em Lisboa, acolhe dia 14 (terça-feira) às 18:30, o lançamento do mais recente livro do Pedro Almeida Vieira. A apresentação desta obra estará a cargo do advogado Francisco Teixeira da Mota.
O livro, editado pela Planeta Manuscrito, constitui a continuação de narrativas sobre crimes históricos (depois de «Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes», publicado em 2011), desta feita abordando crimes económicos, rebeliões, motim e assassinatos (ou tentativas) de figuras de Estado. Ou seja, o povo português afinal nunca foi sereno…

Apareça, o convite está feito..

GUILHERME CENTAZZI: O PRIMEIRO ROMANCE MODERNO PORTUGUÊS | por Miguel Real in “inComunidade”

1. – Introdução
Uma recente descoberta de Pedro Almeida Vieira, conhecido autor de romances históricos, teorizada por Maria de Fátima Marinho, professora da Faculdade de Letras do Porto, veio revolucionar a historiografia da literatura portuguesa. Referimo-nos à publicação de O Estudante de Coimbra. Relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838, de Guilherme Centazzi, apresentado como “o primeiro romance moderno português”, editado em 1840 – 41 (3 volumes), anterior, portanto, à publicação dos dois textos considerados até hoje como os pais do romance português moderno, Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, publicado em 1845, e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, publicado em 1846 (cf. “Nota Prévia” de Pedro Almeida Vieira” e “Posfácio” de Maria de Fátima Marinho). Chama-se, assim, a atenção dos professores de Português e dos diretores de bibliotecas municipais para a necessidade de um novo enquadramento cronológico das origens do romance moderno português, com evidente futura alteração dos manuais e das histórias de literatura.

2. – Morrer na praia
Lido o romance ora ressuscitado de Guilherme Centazzi, um médico de origem italiana nascido em Faro, político tão entusiasmadamente liberal quando estudante quanto cético na maturidade, à imagem de Herculano e Garrett, de prática literária polivalente, inventor dos rebuçados medicinais “Centazzi”, emerge o sentimento paradoxal de incompletude, tanto no sentido de anunciação ou de precursão de correntes literárias posteriormente dominantes, quanto no sentido da ausência de um trabalho estético mais apurado por parte do autor. De facto, O Estudante de Coimbra estatui-se como um texto em bruto, redigido intuitivamente, sob o ardor político e literário da juventude, necessitado, porém, de ser laminado, sintetizado e, sobretudo, de sofrer o efeito de uma profunda revisão estética. Porém, o seu alto valor para a história da literatura portuguesa reside, independentemente das qualidades específicas da obra em si, no modo “amalgamado” como cruza três correntes estéticas que se tornarão, posteriormente, dominantes em Portugal até ao advento do naturalismo-realismo, no último quartel do século XIX. Referimo-nos ao romantismo, como é evidente, mas também à inspiração do romance de “capa e espada” (o folhetim jornalístico e o livro) e ao romance gótico. Com efeito, Centazzi possui o poder intuitivo de cruzar estas três correntes europeias, ainda virgens em Portugal no campo da narrativa, escrevendo um romance que, de certo modo, se singulariza por as evidenciar a todas e a nenhuma em particular.

De facto, o sentimento literário de Centazzi é idêntico ao da escrita de Garrett em Viagens na Minha Terra, que, desprezando o convencionalismo retórico clássico (os protocolos da escrita arcádica) declara, “isto tinha na alma, isto vai no papel”, abrindo caminho a uma escrita revelada pelo sentimento individual do autor (o “eu) e a um léxico burguês de caráter jornalístico, duas das premissas do romantismo presentes em O Estudante de Coimbra. Por outro lado, como Fátima Marinho salienta, Centazzi une, ao modo de Walpone, do romance gótico do século XVIII, aspetos aterrorizantes da realidade humana (guerra, grutas, fome, “fantasmas”, posteriormente desmascarados, criaturas grotescas e perversas como frei Barnabé) com a expressão de sentimentos de inocência e ternura (Maria) e de honestidade enganada (Rodolfo). Nesta vertente estética se enquadrará, porventura, a dedicatória de Centazzi a António Feliciano de Castilho, que acabara de publicar A Noite do Castelo (1836). Detetam-se igualmente em O Estudante de Coimbra traços pertinentes ao romance de capa e espada, do século XVII, que tão grande ventura popular terá ao longo do século XIX com Ponson du Terrail (Rocambole) e Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, O Homem da Máscara de Ferro), praticado em Portugal por Carlos Pinto de Almeida (O Corsário Português, 1875) e Pinheiro Chagas (As Duas Flores de Sangue, 1875). O romance de Centazzi pratica com abundância algumas das características deste género narrativo, sobretudo a transformação involuntária de uma vida normal (o estudante) numa vida aventurosa, repleta de mil e uma peripécias (prisões, raptos, duelos, viagens por mar, por carruagem, assaltos, até uma tentativa de suicídio…), auxiliada por criados ou companheiros (Careo, criados de Rodolfo, amigas de Maria), desenvolvendo um enredo complicadíssimo, sempre com um final inesperado, como justamente acontece neste romance.

Existe, assim, uma tripla inspiração em O Estudante de Coimbra, o primeiro romance moderno, no dizer de Pedro Almeida Vieira. Em primeiro lugar, a inspiração na vida própria, o que confere um fortíssimo grau de romantismo ao romance, e, neste sentido, é correto designar-se como um texto integrado no movimento romântico português; em segundo lugar, porventura efeito das leituras do autor em Coimbra, existe uma nítida inspiração do romance gótico, aliando o jogo sentimental a cenas e situações macabras e aterrorizantes e/ou a personagens grotescas; em terceiro lugar, a inspiração no romance de capa e espada, repleto de peripécias e aventuras, de obstáculos à realização do amor, de ajudas e impedimentos por parte de criados ou de inferiores.

Dito de outro modo, Centazzi, como autor, possuiu o instinto estético dos precursores, compondo um romance prenunciador da quase totalidade da literatura portuguesa do século XIX. Porem, como todos os pioneiros, venceu o mar mas acabou por morrer na praia, à vista da terra salvadora, desenhadora do futuro.

Parabéns ao trabalho incansável de Pedro Almeida Vieira, que ressuscitou o romance de Centazzi, o introduziu e lhe fixou o texto.

Romance de leitura absolutamente indispensável a professores de Português, diretores de bibliotecas e estudiosos de literatura portuguesa contemporânea.

O Estudante de Coimbra,
Fixação do texto e notas de Pedro Almeida Vieira,
Posfácio de Maria de Fátima Marinho
Editora Planeta, 317 pp.

biblio-História um projeto a manter.

A biblioHistória constitui uma base de dados, iniciada em meados de 2010 pelo escritor Pedro Almeida Vieira, que integra obras de literatura do género histórico – ou com incursões históricas – publicadas por escritores portugueses desde o século XIX até à actualidade. Foi na pesquisa de informação que foi (re)descoberta a obra do primeiro escritor do romance moderno português, Guilherme Centazzi, que publicou «O Estudante de Coimbra», em 1840 e 1841, entretanto reeditada no ano passado pela Planeta.

Actualmente, a biblioHistória tem já inventariados 645 autores (incluindo pseudónimos) e 1.770 títulos, entre romances, novelas, contos e narrativas ficcionadas. Estão também incluídas 59 obras de autores anónimos, grande parte das quais em periódicos. No entanto, ainda se continua a realizar pesquisas para a inclusão de mais obras e obtenção de mais informação.

Veja como pode apoiar este projeto e receber um dos livros do autor.

Corja Maldita de Pedro Almeida Vieira por Miguel Real

O classicismo e a transgressão
Miguel Real, in Jornal de Letras – 28-07-2010

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A recente publicação de dois bons romances históricos, «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», de Ana Cristina Silva (ACS), e Corja Maldita, de Pedro Almeida Vieira (PAV), vieram revelar quanto este género literário, não perdendo qualidades estéticas, se adapta e convive com diferentíssimas estruturas narrativas, sejam clássicas, sejam modernas (ou pós-modernas).

Com efeito, se a forma em que é vazado aduz um suplemento de interesse literário ao romance histórico, provocando no leitor, porventura, uma superior comoção estética, também é verdade que este tipo de romance, como o policial, vive sobretudo do seu conteúdo, isto é, da qualidade da história factual narrada. Neste sentido, os romances acima referidos são alimentados por um vivo manancial investigativo de fontes históricas e uma selecção de acontecimentos que lhe garantem uma qualidade acima da habitual no romance histórico português recente, que pulula (e polui) as estantes das livrarias.

Outra coisa não seria de esperar face à qualidade dos anteriores romances dos dois autores, de que destacamos, de ACS, «As Fogueiras da Inquisição» (2008) e «A Dama Negra da Ilha dos Escravos» (2009), e, de PAV, «Nove Mil Passos» (2004), «O Profeta do Castigo Divino» (2005) e «A Mão Esquerda de Deus» (2009).

Assim, se ambos os romances se assemelham quanto ao escrúpulo documental de verdade e ao rigor analítico dos acontecimentos, diferem fortemente, no entanto, quanto ao seu estatuto formal. «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», sem se subordinar em absoluto à cronologia, é dotado de uma estrutura clássica, desenvolve a intriga em círculos concêntricos e opera uma ligação harmónica e umbilical entre o plano da história das taifas árabes no sul da Península Ibérica ao longo do século X e XI e o plano da fabulação sobre a vida de Al-Mu’tamid, de tal modo os entrelaçando e fundindo que se tornam indistinguíveis no corpo do texto.

ACS relança neste livro o seu habitual estilo reflexivo e explicativo, de evidente cariz psicológico, no qual, mais do que a descrição de costumes físicos e sociais pertinentes aos reinos árabes inimigos dos cristãos, sobrelevam características psicológicas, como a angústia e a autenticidade da existência.

Um evidente psicologismo é explicitado na relação de Al-Mu’tamid com o pai, com a memória do filho morto, na relação com os poderes organizativos das cidades (Sevilha, Silves, Córdova), na relação com o próprio Islão e com a necessidade de desbloqueamento dos radicalismos políticos, na relação com a poesia e com a morte.

Romance filosófico, nele preside a interrogação individual sobre o sentido da vida. Vocacionado para a espiritualidade poética, Al-Mu’tamid vê-se forçado a obedecer à força da hereditariedade, assumindo a realeza no tempo da investida para Sul de D. Afonso VI (avô de D. Afonso Henriques).

ACS integra com mestria este conflito psicológico, fulcro central e raiz da totalidade do romance, no conflito histórico da luta entre emires muçulmanos e os reis cristãos após o desmembramento do califado de Córdova em inúmeras taifas. De relevar que pela primeira vez ACS trabalha – e bem – com narradores masculinos, Al-Mu’tamid e o seu escravo, já que tanto nos dois romances acima referidos quanto em «Mariana, todas as cartas» (sobre Mariana Alcoforado, 2003), «A Mulher Transparente» (sobre violência doméstica, 2004) e «Bela» (sobre Florbela Espanca, 2005) os narradores são femininos e em «À Meia-Luz» (2006) o narrador é neutro quanto ao género.

Face ao romance de ACS, Pedro Almeida Vieira evidencia uma absoluta transgressão estética, uma verdadeira ousadia literária, intercalando a história factual da expulsão dos jesuítas de Portugal, Espanha, França e a extinção da Ordem de Jesus, relatada com o máximo rigor histórico, com capítulos fantasiosos intitulados «Interludium», descrevendo diálogos entre padre Gabriel Malagrida e o Diabo.

Acentuando a estranheza de «Corja Maldita», contesta-se nestes capítulos a versão histórica «oficial» da expulsão e extinção da Companhia de Jesus, não raro desmontando e desmascarando o que nos capítulos ordinários se acabara de afirmar.

Metaficção historiográfica que enuncia ficcionalmente as diversas interpretações possíveis sobre a extinção dos jesuítas, «Corja Maldita» intenta, assim, não se submeter à univocidade da ciência histórica. Digamos ser esta a primeira (mas não original) heterodoxia do romance.

A segunda inovação face à obra anterior do autor – uma verdadeira transgressão -, reside na abolição total da categoria de tempo por via da introdução, na página 159, do autor, ele mesmo, em carne e osso ficcionais (em conjunto com a alusão do verdadeiro narrador, o Diabo, «a um jovem e promissor escriba, aquele português nortenho de frases bombásticas contra as reticências» – valter hugo mãe, como é evidente), enviado especial a Madrid para relatar os motins acontecidos entre os dias 24 e 26 de março de 1766, seguidos do comentário jornalístico de Mário Ladeira Pevide e da reportagem de Valério Piedade Mira de 25 de março de 1767.

O que nuns capítulos se constitui como relato histórico torna-se, noutros, uma narrativa transhistórica, o narrador omnipotente de uns capítulos é contestado noutros, o autor é chamado a intervir, garantindo a veracidade dos factos, relatando-os em forma de reportagem e comentário jornalísticos, a integridade do tempo cronológico é violentada e, no final, lido o romance, tudo se conjuga e harmoniza, não ao modo transparente da leitura de um romance histórico clássico, subjugado à veracidade dos factos e à continuidade do tempo, mas segundo o prazer simultâneo da compreensão racional e da sensibilidade emotiva do leitor, que aceita integrar-se no jogo ficcional criado por PAV, isto é, penetrar no seio de uma arte lúdica que nada intenta provar senão manifestar-se como jogo. Eis o campo da estética.

Miguel Real

FONTE:  http://pedroalmeidavieira.com/?p/333//3121/683/