GUILHERME CENTAZZI: O PRIMEIRO ROMANCE MODERNO PORTUGUÊS | por Miguel Real in “inComunidade”

1. – Introdução
Uma recente descoberta de Pedro Almeida Vieira, conhecido autor de romances históricos, teorizada por Maria de Fátima Marinho, professora da Faculdade de Letras do Porto, veio revolucionar a historiografia da literatura portuguesa. Referimo-nos à publicação de O Estudante de Coimbra. Relâmpago da História Portuguesa desde 1826 até 1838, de Guilherme Centazzi, apresentado como “o primeiro romance moderno português”, editado em 1840 – 41 (3 volumes), anterior, portanto, à publicação dos dois textos considerados até hoje como os pais do romance português moderno, Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano, publicado em 1845, e Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, publicado em 1846 (cf. “Nota Prévia” de Pedro Almeida Vieira” e “Posfácio” de Maria de Fátima Marinho). Chama-se, assim, a atenção dos professores de Português e dos diretores de bibliotecas municipais para a necessidade de um novo enquadramento cronológico das origens do romance moderno português, com evidente futura alteração dos manuais e das histórias de literatura.

2. – Morrer na praia
Lido o romance ora ressuscitado de Guilherme Centazzi, um médico de origem italiana nascido em Faro, político tão entusiasmadamente liberal quando estudante quanto cético na maturidade, à imagem de Herculano e Garrett, de prática literária polivalente, inventor dos rebuçados medicinais “Centazzi”, emerge o sentimento paradoxal de incompletude, tanto no sentido de anunciação ou de precursão de correntes literárias posteriormente dominantes, quanto no sentido da ausência de um trabalho estético mais apurado por parte do autor. De facto, O Estudante de Coimbra estatui-se como um texto em bruto, redigido intuitivamente, sob o ardor político e literário da juventude, necessitado, porém, de ser laminado, sintetizado e, sobretudo, de sofrer o efeito de uma profunda revisão estética. Porém, o seu alto valor para a história da literatura portuguesa reside, independentemente das qualidades específicas da obra em si, no modo “amalgamado” como cruza três correntes estéticas que se tornarão, posteriormente, dominantes em Portugal até ao advento do naturalismo-realismo, no último quartel do século XIX. Referimo-nos ao romantismo, como é evidente, mas também à inspiração do romance de “capa e espada” (o folhetim jornalístico e o livro) e ao romance gótico. Com efeito, Centazzi possui o poder intuitivo de cruzar estas três correntes europeias, ainda virgens em Portugal no campo da narrativa, escrevendo um romance que, de certo modo, se singulariza por as evidenciar a todas e a nenhuma em particular.

De facto, o sentimento literário de Centazzi é idêntico ao da escrita de Garrett em Viagens na Minha Terra, que, desprezando o convencionalismo retórico clássico (os protocolos da escrita arcádica) declara, “isto tinha na alma, isto vai no papel”, abrindo caminho a uma escrita revelada pelo sentimento individual do autor (o “eu) e a um léxico burguês de caráter jornalístico, duas das premissas do romantismo presentes em O Estudante de Coimbra. Por outro lado, como Fátima Marinho salienta, Centazzi une, ao modo de Walpone, do romance gótico do século XVIII, aspetos aterrorizantes da realidade humana (guerra, grutas, fome, “fantasmas”, posteriormente desmascarados, criaturas grotescas e perversas como frei Barnabé) com a expressão de sentimentos de inocência e ternura (Maria) e de honestidade enganada (Rodolfo). Nesta vertente estética se enquadrará, porventura, a dedicatória de Centazzi a António Feliciano de Castilho, que acabara de publicar A Noite do Castelo (1836). Detetam-se igualmente em O Estudante de Coimbra traços pertinentes ao romance de capa e espada, do século XVII, que tão grande ventura popular terá ao longo do século XIX com Ponson du Terrail (Rocambole) e Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, O Conde de Monte Cristo, O Homem da Máscara de Ferro), praticado em Portugal por Carlos Pinto de Almeida (O Corsário Português, 1875) e Pinheiro Chagas (As Duas Flores de Sangue, 1875). O romance de Centazzi pratica com abundância algumas das características deste género narrativo, sobretudo a transformação involuntária de uma vida normal (o estudante) numa vida aventurosa, repleta de mil e uma peripécias (prisões, raptos, duelos, viagens por mar, por carruagem, assaltos, até uma tentativa de suicídio…), auxiliada por criados ou companheiros (Careo, criados de Rodolfo, amigas de Maria), desenvolvendo um enredo complicadíssimo, sempre com um final inesperado, como justamente acontece neste romance.

Existe, assim, uma tripla inspiração em O Estudante de Coimbra, o primeiro romance moderno, no dizer de Pedro Almeida Vieira. Em primeiro lugar, a inspiração na vida própria, o que confere um fortíssimo grau de romantismo ao romance, e, neste sentido, é correto designar-se como um texto integrado no movimento romântico português; em segundo lugar, porventura efeito das leituras do autor em Coimbra, existe uma nítida inspiração do romance gótico, aliando o jogo sentimental a cenas e situações macabras e aterrorizantes e/ou a personagens grotescas; em terceiro lugar, a inspiração no romance de capa e espada, repleto de peripécias e aventuras, de obstáculos à realização do amor, de ajudas e impedimentos por parte de criados ou de inferiores.

Dito de outro modo, Centazzi, como autor, possuiu o instinto estético dos precursores, compondo um romance prenunciador da quase totalidade da literatura portuguesa do século XIX. Porem, como todos os pioneiros, venceu o mar mas acabou por morrer na praia, à vista da terra salvadora, desenhadora do futuro.

Parabéns ao trabalho incansável de Pedro Almeida Vieira, que ressuscitou o romance de Centazzi, o introduziu e lhe fixou o texto.

Romance de leitura absolutamente indispensável a professores de Português, diretores de bibliotecas e estudiosos de literatura portuguesa contemporânea.

O Estudante de Coimbra,
Fixação do texto e notas de Pedro Almeida Vieira,
Posfácio de Maria de Fátima Marinho
Editora Planeta, 317 pp.

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