Corja Maldita de Pedro Almeida Vieira por Miguel Real

O classicismo e a transgressão
Miguel Real, in Jornal de Letras – 28-07-2010

corjamaldita

A recente publicação de dois bons romances históricos, «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», de Ana Cristina Silva (ACS), e Corja Maldita, de Pedro Almeida Vieira (PAV), vieram revelar quanto este género literário, não perdendo qualidades estéticas, se adapta e convive com diferentíssimas estruturas narrativas, sejam clássicas, sejam modernas (ou pós-modernas).

Com efeito, se a forma em que é vazado aduz um suplemento de interesse literário ao romance histórico, provocando no leitor, porventura, uma superior comoção estética, também é verdade que este tipo de romance, como o policial, vive sobretudo do seu conteúdo, isto é, da qualidade da história factual narrada. Neste sentido, os romances acima referidos são alimentados por um vivo manancial investigativo de fontes históricas e uma selecção de acontecimentos que lhe garantem uma qualidade acima da habitual no romance histórico português recente, que pulula (e polui) as estantes das livrarias.

Outra coisa não seria de esperar face à qualidade dos anteriores romances dos dois autores, de que destacamos, de ACS, «As Fogueiras da Inquisição» (2008) e «A Dama Negra da Ilha dos Escravos» (2009), e, de PAV, «Nove Mil Passos» (2004), «O Profeta do Castigo Divino» (2005) e «A Mão Esquerda de Deus» (2009).

Assim, se ambos os romances se assemelham quanto ao escrúpulo documental de verdade e ao rigor analítico dos acontecimentos, diferem fortemente, no entanto, quanto ao seu estatuto formal. «Crónica do Rei-Poeta, Al-Mu’tamid», sem se subordinar em absoluto à cronologia, é dotado de uma estrutura clássica, desenvolve a intriga em círculos concêntricos e opera uma ligação harmónica e umbilical entre o plano da história das taifas árabes no sul da Península Ibérica ao longo do século X e XI e o plano da fabulação sobre a vida de Al-Mu’tamid, de tal modo os entrelaçando e fundindo que se tornam indistinguíveis no corpo do texto.

ACS relança neste livro o seu habitual estilo reflexivo e explicativo, de evidente cariz psicológico, no qual, mais do que a descrição de costumes físicos e sociais pertinentes aos reinos árabes inimigos dos cristãos, sobrelevam características psicológicas, como a angústia e a autenticidade da existência.

Um evidente psicologismo é explicitado na relação de Al-Mu’tamid com o pai, com a memória do filho morto, na relação com os poderes organizativos das cidades (Sevilha, Silves, Córdova), na relação com o próprio Islão e com a necessidade de desbloqueamento dos radicalismos políticos, na relação com a poesia e com a morte.

Romance filosófico, nele preside a interrogação individual sobre o sentido da vida. Vocacionado para a espiritualidade poética, Al-Mu’tamid vê-se forçado a obedecer à força da hereditariedade, assumindo a realeza no tempo da investida para Sul de D. Afonso VI (avô de D. Afonso Henriques).

ACS integra com mestria este conflito psicológico, fulcro central e raiz da totalidade do romance, no conflito histórico da luta entre emires muçulmanos e os reis cristãos após o desmembramento do califado de Córdova em inúmeras taifas. De relevar que pela primeira vez ACS trabalha – e bem – com narradores masculinos, Al-Mu’tamid e o seu escravo, já que tanto nos dois romances acima referidos quanto em «Mariana, todas as cartas» (sobre Mariana Alcoforado, 2003), «A Mulher Transparente» (sobre violência doméstica, 2004) e «Bela» (sobre Florbela Espanca, 2005) os narradores são femininos e em «À Meia-Luz» (2006) o narrador é neutro quanto ao género.

Face ao romance de ACS, Pedro Almeida Vieira evidencia uma absoluta transgressão estética, uma verdadeira ousadia literária, intercalando a história factual da expulsão dos jesuítas de Portugal, Espanha, França e a extinção da Ordem de Jesus, relatada com o máximo rigor histórico, com capítulos fantasiosos intitulados «Interludium», descrevendo diálogos entre padre Gabriel Malagrida e o Diabo.

Acentuando a estranheza de «Corja Maldita», contesta-se nestes capítulos a versão histórica «oficial» da expulsão e extinção da Companhia de Jesus, não raro desmontando e desmascarando o que nos capítulos ordinários se acabara de afirmar.

Metaficção historiográfica que enuncia ficcionalmente as diversas interpretações possíveis sobre a extinção dos jesuítas, «Corja Maldita» intenta, assim, não se submeter à univocidade da ciência histórica. Digamos ser esta a primeira (mas não original) heterodoxia do romance.

A segunda inovação face à obra anterior do autor – uma verdadeira transgressão -, reside na abolição total da categoria de tempo por via da introdução, na página 159, do autor, ele mesmo, em carne e osso ficcionais (em conjunto com a alusão do verdadeiro narrador, o Diabo, «a um jovem e promissor escriba, aquele português nortenho de frases bombásticas contra as reticências» – valter hugo mãe, como é evidente), enviado especial a Madrid para relatar os motins acontecidos entre os dias 24 e 26 de março de 1766, seguidos do comentário jornalístico de Mário Ladeira Pevide e da reportagem de Valério Piedade Mira de 25 de março de 1767.

O que nuns capítulos se constitui como relato histórico torna-se, noutros, uma narrativa transhistórica, o narrador omnipotente de uns capítulos é contestado noutros, o autor é chamado a intervir, garantindo a veracidade dos factos, relatando-os em forma de reportagem e comentário jornalísticos, a integridade do tempo cronológico é violentada e, no final, lido o romance, tudo se conjuga e harmoniza, não ao modo transparente da leitura de um romance histórico clássico, subjugado à veracidade dos factos e à continuidade do tempo, mas segundo o prazer simultâneo da compreensão racional e da sensibilidade emotiva do leitor, que aceita integrar-se no jogo ficcional criado por PAV, isto é, penetrar no seio de uma arte lúdica que nada intenta provar senão manifestar-se como jogo. Eis o campo da estética.

Miguel Real

FONTE:  http://pedroalmeidavieira.com/?p/333//3121/683/

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