Num Café

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Sento num Café. Sozinho. Preciso pensar. Peço um com-leite. A garçonete é competente. Rápido me traz o que pedi. Divago. A vida está quieta. Um anúncio esotérico sem telefone de contato. Um jornal velho sem data de impressão.
Algum tempo se passa sem que eu toque no café. Ouço os burburinhos. Há um casal à minha direita. Também não toca no café. Ele gesticula tímido, agasalha a mão dela, dizendo palavras que não posso decifrar. Tem o olhar angustiado. Ela está triste; sombria. Nota-se que ele deseja esperançá-la com novos argumentos. Ela se incomoda; meneia a cabeça; se irrita. Crê que não a entende; que não a escuta. Ele a vê. Sabe que é inútil prosseguir. É agora uma boca sem rosto no meio de um Café.
Olha para ela: o olhar em funda agonia. De repente deixa que seus lábios coroem a sua mão. Infinitamente. A ternura lhe invade o olhar. Vê-se que a ama. Diz: “Tudo ficará bem”. Ela então o olha pela primeira vez. Dá em paga da ternura outra ternura. Depois, dorme o rosto em sua mão. Não há mais nada a dizer. Mais nada a pedir. Só o meu café permanece intacto.

Fechado para almoço

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Todos se espantam quando digo que aqui em Fartura as farmácias fazem plantão até às 22h. Perguntam-me e depois, como é que faz. Não faz. Pode-se bater à porta do farmacêutico. Pode-se também ir ao Pronto-Socorro, que está pronto a socorrer qualquer um. Só não garante cura. Sequer alívio. Mas a crônica é outra.

Em Apucarana há um restaurante que fecha pra almoço. O leitor não está a enxergar mal. Se se vai ao tal restaurante para almoçar, não almoça-se. Uma plaquinha atenta para o fechamento temporário.

Mas a gerência já providencia melhoras: especificando hora de retorno, construindo uma área de espera com uma recepcionista especialmente contratada para o serviço de recepcionar quaisquer famélicos clientes, estacionamento mais amplo dividido por categorias: 1ª) “Clientes da manhã” (que abarca os que querem frutas ao acordar); 2ª) “Clientes da espera” (àqueles que chegam ao restaurante entre meio-dia e duas da tarde); 3ª) “Clientes noturnos” (que podem ser tanto os que chegam para o almoço quanto os que vão jantar); e 4ª) “Clientes esporádicos” (àqueles que surgem de quando em vez apenas a petiscar), além de reformas para maior conforto da clientela.

Com toda essa preocupação, é de se considerar justificável a ausência da equipe do restaurante, pois, como ensinam os pais, para tudo tem hora.

Filomena, a famosa Leontina

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Em homenagem a Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli

Leontina ― eis o verdadeiro nome da empregada Filomena. Pobre Leontina… Infeliz a hora em que foste franca! Infeliz, Leontina, é o mundo em que vivemos.

Pobre Leontina… Que é feito de ti? Imagino-te noutra casa: novo emprego, nova família. Imagino-te quieta, soturna talvez, sabendo a rotina de teus novos patrões, entreouvindo a conversa de tua nova patroa. Mas calada. Sem dar um pio.

Pobre Leontina… Teu destino não é mais triste que o de Perséfone, nem mais inesperado que o de Eva.

Leontina, teu destino é o de todos nós.

Não é, mas parece…

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Para Fabi, Renata, Desireé, Bianca, Camila e Sueli

Filomena ― eis o nome da empregada. É certo que não fosse Filomena. Mas, na busca de um intróito, Filomena surgiu. Pois que seja Filomena um nome abençoado!

Filomena trabalhava na casa de minha esposa (Fabiana) na época em que esta era apenas a filha do seo Eduardo e da dona Sueli e mãe das pequenas Desireé e Bianca, hoje uma contradição da essência do pitagorismo. Mas enfim.

Filomena tinha pouco tempo de casa e por essa razão não viu perigo algum em falar da genealogia da família.Teria dito que Renata (irmã mais nova que minha esposa) tinha sorte em ter três lindas filhas (Fabiana, Desireé e Bianca). O mesmo para a dona Sueli ― avó das três.

O leitor deve imaginar um touro, bufando, preparando a investida e terá a imagem de Renata ao ouvir aquilo. Fabiana voara, como uma borboleta azul passeando pelo céu garbosa e despreocupada.

Reparado o equívoco, Filomena se desculpara, enrubescida, alegando que, pela aparência, não se percebia a inversão das idades. Talvez o cigarro fosse o culpado, tentou ainda.

Mas, fora a gota d’água.

Fabiana protestou contra a demissão da pobre Filomena: ela não sabia, pouco tempo de casa, boa empregada, não era, dona Sueli? Mas a ira de Renata foi mais forte.

Pobre Filomena… Maldize a franqueza que te veio à boca! O mundo é cheio de injustiças, Filomena, há muito privado da Razão e da Lealdade.

Pobre Filomena… Que teu caminho te seja leve, como o de João, o Felizardo.

Vai, Filomena… e adeus.

Os crimes de Jorge Marco Bonfim

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Pouco sei da infância de Jorge Marco Bonfim; sua família, seus amigos, se foi futebolista, se foi cientista, se teve sonhos para quando crescesse, se era apegado à mãe, se admirava ao pai. Pouco sei também de sua juventude; suas namoradas, se as teve, suas rebeldias, seus estudos. Sei apenas que, já adulto, descobriu o motivo de sua existência: matar.

Muitos descobrem em si a vocação para a poesia, o teatro, a dança, os negócios, o esporte, e a sentem com o íntimo de sua alma; tratam-na como o desígnio de Deus para a sua existência superior ou ao menos, para os mais humildes, significante. A de Jorge era matar; e ele a tratava da mesma maneira que o fazem os poetas e os artistas.

Ele não gostava de planejar nada: escolher a vítima, estudar sua rotina e executar o crime o mais discreto possível, o mais perfeito que pudesse. Não dava importância a isso: seu único desejo era matar a vítima rápida e friamente, o mais que conseguisse, como se quisesse vazar algo que se guardasse em si. Não era necessário bancar o durão ou surrá-la quase até a morte; bastava apenas, por exemplo, estourar-lhe os miolos, sem cerimônia.

Já havia cometido dois crimes neste momento da história. E nunca tinha sido pego. Em verdade, não havia matado ninguém importante ou que fizesse falta a alguém importante.

Certa noite, quando aguardava do lado de fora de um teatro às pessoas saírem, viu um homem solitário, alto, magro, tentando acender seu cigarro, destacar-se. Acompanhou-o até a praça da cidade, erma naquele horário (uma coincidência para Jorge), e, chamando-o, tirou o revólver do bolso do casaco e deu-lhe um tiro bem no meio da testa.

No dia seguinte, o assassínio estava na tevê. Por um momento, Jorge sentiu-se orgulhoso de sua obra. A foto da vítima ocupava a tela toda e, com ela, o âncora do jornal resumia a vida e a personalidade do homem. Um homem bom, honesto, vendedor numa loja de materiais de construção e também voluntário num orfanato.

Ao ouvir isso, Jorge sentiu um aperto no coração, contraiu o rosto e sentiu uma intensa dor de barriga. O que doía era a sua consciência. Decidiu então que passaria a selecionar suas vítimas: elas não poderiam ser benévolas, nem crianças. Teriam de ser más, egoístas, frias, inescrupulosas.

Passou a matar trombadinhas, traficantes, alguns viciados, cafetões, homens violentos, mulheres adúlteras, motoqueiros abusados, atendentes desrespeitosos, vendedores desonestos, donos de padaria, postos de gasolina, vídeos-locadoras, livrarias, servidores de telefonia, tevê a cabo, internet, policiais corruptos, alguns políticos… E isso o satisfazia imensamente. Muito mais do que antes. Para tanto, usava de seus artifícios habituais: um tiro na testa, uma ou mais facadas no peito, um corte no pescoço, uma paulada na cabeça, um empurrão do topo de um edifício.

Enquanto os corpos que apareciam eram de cafetões, bandidos, vagabundas, motoqueiros, ninguém ligava. Deixava mesmo que esse “justiceiro”, ou “gari”, como passou a ser chamado entre o povo, fizesse o seu “trabalho”, se era um. Fazia era um favor à sociedade. Mas, quando começaram a surgir policiais mortos e mesmo senadores e deputados, aí o governo mandou que se prendesse esse “assassino frio e calculista”.

Como não se havia feito nenhuma investigação mais séria até então do caso, não se sabia os seus padrões, sua seleção de vítimas, os locais escolhidos para os crimes, já que isso dependia da vítima escolhida; não se conhecia seu rosto, não se tinha mesmo sequer uma única pista por onde começar a investigação, já que as que poderiam ter sido deixadas por ele agora já deveriam ter sido alteradas pelo vagar impiedoso do tempo. Havia apenas os corpos. Pensara-se ter encontrado um padrão no estilo do assassino, uma vez que cinco das sete mulheres haviam sido mortas a facadas. Mas logo descartaram essa ideia, concebendo acertadamente que o modo que o assassino usava para matar suas vítimas era aleatório, decidido na hora. E isso era alguma coisa.

Depois de mais ou menos uma semana, a policial que trabalhava no caso pensou ter encontrado um padrão. Todas as vítimas eram pessoas más. Mas nem seu parceiro nem seu chefe lhe deram ouvidos, argumentando que os assassinos não escolhiam suas vítimas assim. Além do mais, a última, descoberta no dia anterior, não era má. Era uma professora de escola infantil, muito atenciosa e dedicada ao trabalho. Descobriu-se mais tarde que suas primeiras vítimas não haviam sido malévolas. Mas isso não trouxe luz alguma ao caso.

Acontece que Jorge estava se perdendo. Matar essas pessoas não mais o satisfazia; e por essa razão ele se confundia e acreditava ver num acesso de raiva uma personalidade violenta e perigosa. A coitada da professora, numa reprimenda, energicamente pegou seu aluno pelo braço e o colocou de cara para a parede, machucando-o sem querer.

Não obstante, sua fama crescia, tanto que ganhou seguidores que fundaram uma igreja onde pregavam a verdade pura acima da hipocrisia e da falsa benevolência da sociedade; e isso, esse inesperado reconhecimento, lhe trouxe conforto, paz de espírito e até um leve regozijo. Era a imortalidade que lhe batia à porta; era a sua obra que alcançava o mundo.

Por um certo período, Jorge passou a deixar assinaturas em suas vítimas. Se ele as matava com uma bala na cabeça, com o cano da arma escrevia suas iniciais na testa delas; se o fazia a facadas, deixava escoar o sangue para no chão desenhar suas letras; se a pauladas, usava os miolos como podia. Queria dizer a seus fãs que aquela vítima encontrada ali era obra sua e com isso alimentar sua fama, conquistar sua imortalidade.

Estava exultante. Sentia em seu corpo aquela sensação divina de magnificência que faz a Morte invejar a humanidade.

Mas tal postura estava deixando a polícia no seu encalço.

Junto à atual vítima, um operário que tinha a fama de bater nos filhos, foi encontrado um fio de cabelo. A policial encarregada do caso comparou-o com o do morto e descobriu o nome de Jorge Marco Bonfim. Sem avisar a seu parceiro ou mesmo a seu chefe, os quais já tinham deixado de lado o caso para cuidar de assuntos prioritários, partiu para a casa dele, decidida a ser-lhe implacável.

Jorge acabara de chegar a casa. Fizera mais uma vítima. Degolara um estuprador. E estava triste. Há dias que já não sentia nenhuma satisfação em matar ninguém. Parara de assinar em suas vítimas e isso causava aturdimento nos seus fãs, que enchiam as páginas da internet dedicada a ele com perguntas, suspeitas e teorias mirabolantes sobre sua “ausência”.

Estava sentado em sua poltrona lendo um romance de Sir Arthur Conan Doyle: “O cão dos Baskervilles”. Lia aquela parte em que Watson descobre quem é na verdade o segundo homem escondido no pântano, quando sentiu uma dor de cabeça terrível seguida de uma pontada no estômago excruciante, mais ou menos como deveriam sentir suas vítimas. Marcou a página do livro com o indicador e rememorou todas as mortes, recordou-se do prazer que sentia ao esfaquear alguém, ao senti-lo, depois de muito suplicar-lhe pela vida, tremer de medo ante a morte iminente, ao voltar para a casa mais leve, como se, qual Camões ao terminar “Os Lusíadas”, toda a sua alma soubesse do feito que realizava, da importância de sua existência. Lembrou-se da satisfação inda maior que sentia ao matar homens e mulheres desprezíveis e perguntou-se por que não se sentia mais assim, por que não conseguia sequer um fiozinho só de regozijo. Será que tinha perdido seu talento, seu motivo de existir?

Foi quando sentiu em seu íntimo a resposta. Depositou o livro na mesinha do lado e levantou-se. Rumou à sua modesta biblioteca e retirou de debaixo da estante uma caixa de sapato. Abriu-a, pegou sua arma e, sem cerimônia, antes sereno e esperançoso, estourou seus miolos.

A policial incumbida do caso chegou à casa de Jorge e bateu à porta, mas não obteve resposta. Decidiu então arrombá-la; e quando o fez deu de cara com o braço morto de Jorge extrapolando os limites daquele cômodo.

O caso foi encerrado e arquivado. Nunca chegaram a descobrir o motivo dos assassinatos, muito menos o de seu próprio. Ainda lembraram dele por algum tempo, graças aos seus seguidores, que lotavam a internet com discursos eloquentes. Mas logo o esqueceram. Outros, mais jovens, nem mesmo souberam de sua existência. Sua obra tornara-se vítima da indiferença.

Mas para Jorge aqueles segundos que antecederam sua morte foram de um prazer inigualável. Ele sentia que naquele momento construía ao mundo sua obra-prima.