Afinal a diaba sempre chegou em setembro | Francisco Louçã in “Público”

mariana mortáguaNa falta do Diabo, venha a diaba.

Passos Coelho bem avisou: é em setembro que chega o demo. E, se não chegou, então mais vale apregoá-lo, alguém acreditará. Ou, como mandam os spin doctors, se há um incêndio em minha casa é melhor atear fogo à cidade porque assim ninguém nota – ninguém nota nem as sondagens tristes, nem a sordidez do apadrinhamento por Passos Coelho do livro do Saraiva, nem a dificuldade de ter candidatos autárquicos, nem o desgosto de não ter havido sanções até agora.

Mariana Mortágua tem então mais uma medalha ao peito: conseguiu juntar de novo o PSD e o CDS, o que não estava nada fácil. Conferência de imprensa conjunta, vociferação, ataque pessoal, tudo como seria de esperar. Afinal, uma pequena taxa sobre os patrimónios imobiliários de mais de um milhão de euros é “ilegal, imoral e inconstitucional”, isto dito pelos ex-governantes que impuseram sem eficácia um imposto de selo de 1% sobre os patrimónios imobiliários de mais de um milhão de euros. Vê-los portanto rasgarem as vestes, porque o investimento vai morrer, porque os franceses se vão embora, porque os Vistos Gold já ninguém os quer, porque os poupadinhos vão ficar prejudicados, porque as heranças serão devastadas, tudo seria comovente se tivesse sentido. Pois que não, como é que se viu, uma deputada discutir soluções fiscais, então não é que ela tomou de assalto o Terreiro do Paço, oh da guarda?

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Citação | Mariana Mortágua

“A primeira coisa que acho que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro. Quando estamos a apresentar taxas sobre grandes patrimónios ou grandes rendimentos estamos a fazê-lo porque queremos diminuir as desigualdades mas também porque dizemos que uma sociedade estável não é uma sociedade que permite uma acumulação brutal de capital nos 1% do topo”. [Mariana Mortágua]

É mesmo, Schäuble? | Mariana Mortágua

marianamortagua1 - 150Verão de 2007. Portugal estava a banhos e descansava sobre um crescimento económico de quase 2,5%, a que se juntava o défice abaixo das exigências de Bruxelas e uma dívida de 68% do PIB.

Do lado de lá do mar, o sentimento era outro. O Lehman Brothers mostrava os primeiros sinais de instabilidade. Ainda assim, ninguém fez grande caso, até o banco apresentar perdas de 3900 milhões, deixando os mercados em estado de sítio. O resto da história já sabemos. O fim da bolha do imobiliário norte-americana deixou o sistema europeu em apuros, secou o financiamento à atividade económica e obrigou a gigantescos resgates com dinheiro dos contribuintes. As economias periféricas, mais frágeis, foram as primeiras a cair, assim que a loucura dos especuladores chegou às dívidas públicas. Sob a pressão das agências de rating, o financiamento dos estados ficou insuportavelmente caro, precisamente no momento em que era mais necessário. E, tudo isto, sob o olhar parado e indiferente do todo-poderoso BCE.

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A longa história de uma mentira | Mariana Mortágua in “Expresso Online”

mariana mortáguaMariana Mortágua |
7:00 Sexta feira, 17 de outubro de 2014

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A anatomia do estrondoso declínio da PT é, também, a reconstituição de uma das mais longas e perniciosas mentiras que condicionaram o debate público em Portugal. A ideia que um pequeno país, sem liquidez e músculo financeiro, conseguiria manter os centros estratégicos sem o papel do Estado. Foi isso que nos “venderam” desde a primeira vaga das privatizações. O Estado é ineficaz a gerir empresas e, como tal, devia afastar-se da economia como o diabo foge da cruz.

O que importava, diziam-nos, era que os centros estratégicos ficassem em mãos portuguesas. Foi assim que o Estado vendeu por tuta e meia sectores inteiros da economia nacional, apenas para os vermos escassas semanas depois a serem transacionados a capitais estrangeiros com avultadíssimos lucros. O Totta e Açores, vendido a Champalimaud que logo se encarregou de o despachar para um dos maiores bancos do país vizinho, é apenas o exemplo mais falado, mas está longe de esgotar a lista.

As “golden share”, ou ações preferenciais que mantinham o poder de veto e de influência do Estado nas opções estratégicas das empresas, foram o passo seguinte. Mas até isso era demasiado, veio dizer-nos Pedro Passos Coelho e o seu liberalismo de pacotilha. O resultado está à vista.

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