“A leitura feita sobre os gilets jaunes” | Sofia Amaro

Constato que a leitura feita sobre os gilets jaunes, nestes dias, é de tal forma enviesada que até o establishment avança amiúde com acusações excessivas, como sendo a extrema-direita ou o Steve Bannon que estão por detrás dos últimos tumultos protagonizados pelo movimento. E ninguém omite o facto de existir um aproveitamento político por parte da oposição, inclusive do FN, ou por parte de grupúsculos da ultradireita, no caso de Yvan Benedetti, ex-presidente do grupo ultranacionalista “L’œuvre française”. Seria simples se fosse apenas assim, mas basta andar nas ruas e estradas e constatar in loco o mar de descontentamento que se organiza horizontalmente e avançaria, com o que me foi dito, por vários quadrantes partidários e abstencionistas. Se por um lado, Macron esticou a corda liberal, a forja da espada de Dâmocles que pesa sobretudo sobre a classe média, é o resultado de uma política levada a cabo pelos sucessivos governantes, desde Chirac a Hollande, e não posso deixar de fazer aqui uma alusão às consecutivas políticas europeias. Todos encontraram fundamento e escola no TINA, na convergência dos tratados que reduziram implacavelmente o poder económico e social das pessoas nestes últimos anos, essas mesmas que se viram com as vidas esvaziadas de sentido, empurradas para a periferia, não só territorial, mas também longe dos centros de decisão, como meros joguetes para alimentar estratégias orçamentais. Os gilets jaunes representam o descontentamento de uma população que tem sido constantemente espoliada e esmagada por estados cada vez mais repressivos, impondo garrotes fiscais que se têm revelado iníquos e asfixiantes, sendo acompanhados de forma dolosa pela depauperação dos serviços públicos. As desigualdades têm sido ao longo da história o rastilho de insurreições, e aqui vislumbramos o presságio de “sous les pavés, la plage”, com a quase idêntica ordem dos soixante-huitards ou a violência entre os manifestantes GJ e os CRS. Palavras subversivas para uma população que se encontra melindrada e sob a premissa até agora da alienação, no início utilizada para embrandecer o espírito, basta analisar o papel dos OCS na marginalização educativa nos últimos decénios, como referiu Todd, acabando por ser descartada e descartável no injusto ascensor social.

Falando agora nas taxas sobre os combustíveis, é de facto uma medida punitiva pois parte do princípio que só o consumidor final será penalizado, excluindo os principais actores como a indústria automóvel, a indústria da aviação ou do transporte marítimo. E se mencionamos as medidas ecológicas, e aqui até a demissão de Hulot nos deu uma achega, não basta taxar novamente com medidas avulsas, remediar com o saco de plástico, mas por outro lado liberalizar ainda mais a caça ou avançar com moratórias sobre o glifosato. São estas as incongruências que entram em casa de cada francês, já agora de cada um de nós. Porque, vamos lá, temos o diesel, mas depois temos por exemplo a aviação civil ou a marítima. O avião emite entre 134 e 148 gramas de CO2 por passageiro ao quilómetro, contra 2,6 gramas para o comboio, segundo a consoglobe, e cada quilómetro adicional de voo resulta em querosene adicional queimado na atmosfera. Para cada quilo de querosene usado, 3 quilos de CO2 são emitidos. Segundo dados da ACNUSA, o avião é a principal fonte de emissões locais em plataformas para a maioria dos poluentes com níveis de emissão significativos como os óxidos de nitrogénio NOx, dióxido de carbono CO2, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO. Segundo a FNE, a ONG alemã NABU, e outras instituições, a proliferação de cargueiros e indústria marítima, que usam principalmente um subproduto do petróleo e combustível pesado, é responsável pela emissão de grandes quantidades de partículas finas, óxidos de enxofre e óxidos de nitrogénio. Este poluente é uma das principais causas do problema de acidificação das chuvas, sendo extremamente tóxica para a saúde. Depois temos o consumo excessivo de carne, responsável pela duplicação das emissões de dióxido de carbono, quando sabemos que as grandes explorações agropecuárias​ são responsáveis não só pela deflorestação mas também pela emissão de gás metano; o consumo desmedido de peixe, que fez com que os oceanos tenham entrado em falência, sendo que a pesca massiva altera o equilíbrio dos fundos marinhos, e para além do processo de acidificação, algumas espécies já pouco proliferam, nomeadamente o bacalhau no Mar do Norte.

Os alertas avançados pelas várias instâncias internacionais são vários, os estudos são públicos, mas continua o frenesi que serve apenas o expurgar da dívida, quando se legitimam as sucessivas artimanhas financeiras, deslocalizando o tesouro público amealhado para fins pouco legítimos, deixando impunes os sucessivos culposos, e desfalcando a nossa única salvaguarda social.

Quem aponta o dedo aos homens e mulheres que se têm erguido nas ruas, não compreendeu ainda o desafio com que nos deparamos, sendo que a violência tem-nos sido revelada pela epidemiologia do suicídio, que vai para além dessas figuras antitéticas de Catão e Ofélia, e das divagações plumitivas, conduzindo à abertura de associações que resguardam a pouca dignidade que resta às pessoas. E elas não são contra a mudança de paradigma, mas não à custa dos últimos euros que lhes sobram a meio do mês, esses poucos euros que não lhes permite comer bio, local… Os que os acusam de “beaufs” são os mesmos que escrevem no telemóvel último modelo, com o coltan selvaticamente explorado e responsável pela disputa do “ouro azul”, ou fazem a lista de viagens turísticas com destinos intercontinentais, lendo artigos no Le Monde sobre esse fascinante mundo do lúmpen. Somos todos muito moralistas e pífios quando se trata de apontar o dedo ao mais fraco, já quanto ao nosso comportamento somos cinicamente indulgentes. Se é para mudar, teremos de mudar radicalmente começando pelas instâncias de poder, não só as políticas mas também as económicas, e mudarmos implica um esforço que terá de se ser exponencial ou nem sequer valerá o saco de amido de milho biodegradável ou mesmo a pedalada nessa ciclovia cosmopolita, que se pode transformar neste aparato mundial, e como todas as medidas avulsas, num estafado calcanhar de Aquiles.

Sofia Amaro 

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