A Censura no Estado Novo de 1926 a 1974 | Jorge Alves

Todos sabemos, talvez alguns mais novos desconheçam, que o Estado Novo dos infelizes tempos da outra senhora amordaçava a Comunicação Social então existente com a Censura. Ou seja, não existia de todo liberdade de imprensa. Salazar e o seu seguidor, Marcelo Caetano, montaram uma imensa teia por todo o País e pelas colónias que visava não deixar passar nos jornais, na Rádio e na Televisão tudo o que pudesse ser em desfavor do regime. Essa teia, que actuava em estreita colaboração com a famigerada PIDE/DGS, era tecida por militares e civis afectos aos fascistas, que então controlavam tudo e todos neste nosso Portugal.

Vamos então ver como actuava a Censura, por quem era formada e o ridículo de boa parte das suas actuações?

Vamos então por partes. Nada ia para o prelo ou para o ar sem primeiro passar pelo crivo da Censura. Os senhores militares designados para o efeito, refastelados nos seus cadeirões, tudo viam e analisavam. E não só artigos, mas também peças de teatro ou argumentos de cinema. Tudo tinha de estar conforme aos desígnios do senhor professor Salazar, que Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria o abençoassem. Pelo menos era o que dizia sua eminência o senhor cardeal Cerejeira. À cintura não traziam arma, mas sim um lápis azul com que riscavam isto e aquilo. Por vezes riscavam simplesmente tudo. E quem eram esses homens? Geralmente oficiais superiores do Exército, na reserva ou no activo, que encontravam assim, as mais das vezes, um excelente pretexto para não serem destacados para a Guerra Colonial. E além disso ganhavam mais do que os seus pares. Raros foram os civis que integraram esse triste serviço. E quando isso sucedeu claro que eram reputados fascistas que geralmente integravam a Legião Portuguesa, guarda pretoriana do regime, e, na sua componente política, afectos à União Nacional, o partido único do regime.

Conforme já disse, os serviços da Censura estavam espalhados por todo o País, embora centralizados nas grandes cidades e nas capitais de distrito. Em Lisboa, por exemplo, a sede situava-se na Rua da Misericórdia, onde os senhores oficiais tinham os seus gabinetes. Ali aguardavam pela chegada dos estafetas dos diversos órgãos, que lhes levavam provas a granel a fim de serem analisadas antes de serem publicadas. Não obstante os censores serem, na maioria dos casos, oficiais superiores, não se julgue que isso lhes conferia uma inteligência especial. Pelo contrário, alguns davam mais do que provas de serem especialmente burros, para não dizer debilóides de todo, pois não raras vezes eram ludibriados por este ou por aquele jornalista, por este ou por aquele dramaturgo, que diziam por outras palavras o que não estava explícito no que tinham escrito.

A tendência dos censores, está bom de ver, era para o exagero, de forma a agradar ao regime. Por exemplo, neste País ninguém se suicidava. Se um qualquer desgraçado se atirava de uma ponte abaixo, os lacaios do lápis azul rapidamente modificavam a coisa para “fulano de tal tropeçou e caiu da ponte tal e tal”. E ai de quem ousasse pisar o risco! Veja-se o sucedido em 1965, quando a Sociedade Portuguesa de Escritores decidiu atribuir o prémio de novelística ao escritor angolano Luandino Vieira pela obra “Luanda”, crítica do regime. O “Jornal do Fundão” decidiu publicar a notícia e uma foto de Luandino Vieira. O resultado? Todos os exemplares foram apreendidos pela PIDE, o jornal foi suspenso por meio ano e o próprio chefe dos Serviços de Censura de Castelo Branco, o tenente Manuel Catana, foi demitido de imediato!
Mas a Censura, não raras vezes, também caía no ridículo. Veja-se o que sucedeu em 1952, quando esses serviços, então dirigidos pelo coronel Armando Larcher, decidiram proibir a importação de revistas de banda desenhada com o Rato Mickey por considerar os desenhos de Walt Disney “prejudiciais à formação intelectual da criança”. Comentários para quê?… Já para não falar do que sucedeu ao capitão Mário Lopo do Carmo, chefe da Censura em Faro, que permitiu que o “Jornal do Algarve” publicasse, ó heresia!, uma foto de uma senhora em fato de banho. Claro que o capitão foi demitido por manifesta incompetência e todas as provas do “Jornal do Algarve” passaram a ser submetidas a exame prévio em Lisboa.

Salazar tudo controlava. Numa conversa com o ministro Franco Nogueira, relatada por este e que teve lugar em Fevereiro de 1966, dizia-lhe o senhor professor, que Deus Nosso Senhor o tenha ao seu lado direito: “Neste País, apenas o chefe do Governo (ou seja, ele) está dispensado da Censura. Todos os demais, ministros incluídos, estão sob a sua alçada”. Com o advento marcelista, sonharam os mais ingénuos que se iam verificar mudanças. Contudo, estas resultaram numa mera operação de cosmética e tudo ficou na mesma. A PIDE passou a DGS e a Censura, por exemplo, passou a chamar-se Exame Prévio, o que ia dar ao mesmo.

Com o 25 de Abril, pensava-se que os tenebrosos dias da Censura tinham chegado finalmente ao fim. Que tinha acabado a glorificação de Deus, Pátria, Família. Puro engano. Os órgãos de Comunicação Social passaram a estar concentrados e depressa conhecemos os dias da voz do dono. Os dias de Fado, Fátima e Futebol. E ai de quem ousar trilhar outros caminhos, pois porta da rua é serventia. Pergunto: até quando? Um bom domingo para todos.

Jorge Alves

Retirado do Facebook | Mural de Jorge Alves

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