As TEVÊS e os PORQUÊS | Carlos Matos Gomes

Isto é a sério, apesar das gargalhadas e dos piscar de olho!

De repente as televisões caíram no centro da informação. Competem com as sociedades do futebol no toureio das opiniões públicas. Fabricam-se estrelas, dá-se lustro a velhos castiçais. Um setor que há um mês se apresentava falido, de barrete na mão, na sopa dos subsídios do Covid, surge, num estalar de dedos, na reabertura do mercado a fazer contratações milionárias para o entretenimento, o puro, o da alienação direta das classes mais fáceis de iludir, e o do entretenimento mais sofisticado, a do infoentretenimento, a falsa ou manipulada informação servida com aparência de seriedade e agradabilidade, com a papinha feita às classes médias. Um processo de infantilização!

Não há improvisos nem espontaneidade em movimentos desta envergadura. Alguém está por detrás desta ampla e velha manobra de pão e circo para adormecer o povo. E alguém está a investir nesta farandolada. A farandolada, a velha designação das atuações de saltimbancos e vagabundos, tem uma finalidade e antecipa o futuro. A Fox, americana e a Record, da IURD, a subida ao poder de Trump e de Bolsonaro são modelos inspiradores para a nova TVI.

A agitação no vespeiro das Têvês tem um motivo: o Poder! Veremos que resposta dará a SIC, porta-voz da velha ordem.

Na TVI está em desenvolvimento uma estratégia de controlo do poder por parte de um grupo de que não se conhece o rosto. Alguém acredita que será o do empresário dos barcos do Douro? É essa estratégia que se encontra no centro do processo de renovação de um star system à nossa medida e na mudança de paradigma da manipulação da opinião que vinha a ser seguido até aqui, e que já não serve aos novos grupos de interesses que foram emergindo e se prepararam para impor sem contemplações. Portugal está na rota dos populismos.

Os novos grupos de interesses assumem designações diversas, mas tendo sempre como base a demagogia e o populismo, fazem uma leitura do futuro que pode ser resumida no aumento dos fatores de incerteza resultantes da perda de influência dos Estados Unidos, do surgimento de poderes desafiadores, caso da China e da Rússia, da democratização das tecnologias da informação e, em especial, da escassez de recursos essenciais, e do impacto das ameaças ambientais.

Estes novos grupos distinguem-se de movimentos anteriores típicos do pós-segunda guerra no Ocidente por lutarem pelo poder total, sem olhar a meios. Ressuscitaram as lutas de classes, não com a lógica da igualdade marxista, mesmo que utópica, mas com a lógica de extermínio dos nazis: os fortes eliminam os fracos, os novos os velhos, os que ocupam a terra eliminam os que chegam, os brancos contra os negros, os evangélicos contra os laicos, os dos arranha-céus arrasam os dos bairros populares. É o retorno ao modelo das sociedades integralistas onde medraram o nazismo e o fascismo.

Estes novos “chegados” — um nome certeiro -, de que o exemplo de maior sucesso é a alt-right americana, de Steve Bannon, não só não se sentem representados pela clássica “classe dirigente” conservadora, que aqui em Portugal constituiu, grosso modo, o que foi designado como o poder dos “barões” do PSD, e que em Espanha se afastaram do tradicional PP para constituírem o Ciudadanos e o Vox, como querem eliminá-los. Têm Trump, ou o trumpismo, como farol iluminador de sucesso. É a implantação de um trumpismo televisivo que está na banca deste mercado de Verão de jornaleiros e encantadeiras, sem ofensa.

Num cenário de incerteza como o que vivemos é essencial para a estratégia de poder destes grupos elevar o patamar da manipulação das massas a graus que até agora só imaginávamos na ficção científica, tipo Fahrenheit 451. Parece exagero, mas é o caminho que está a ser percorrido com a atual agitação nas antenas e nos estúdios da TVI. Conviria, julgo, trazer esta ameaça para a discussão pública, como um perigo civilizacional.

Os agentes populistas indígenas por detrás deste movimento de contratações feéricas, tal como os seus patronos, perceberam que “comentadores” tipo Marques Mendes são velharias ridículas e, acima de tudo, ineficazes. Há que trazer sangue novo para a arena, como nos coliseus romanos.

As “vedetas” que estão agora a saltitar na roleta sabem que são fichas de um jogo de morte da democracia e das sociedades do consenso em que melhor ou pior temos vivido no que ainda vamos designando como Ocidente e como sociedades liberais. Elas, as vedetas, podem gargalhar, piscar o olho, falar com gravidade, mas são apenas as trombetas que anunciam o demagogo e o ditador que está por detrás delas. Escondem o punhal e o assassino.

Não há inocentes. Quem compra e quem vende sabe que é uma peça de um jogo de manipulação para alcançar o poder. Sabe o papel que desempenha.

Aos democratas cabe lutar contra estes falsos virtuosos e não os aceitar como uma normalidade do mercado. Não são. São uma aberração perigosa!

Born 1946; retired military, historian

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