O QI médio da população mundial diminuiu nos últimos vinte anos | Christophe Clavé

Nunca vi esta problemática tão bem explanada desde a monumental obra “A era do vazio” do Gilles Lipovetsky (Manuel Tavares).

“O QI médio da população mundial, que sempre aumentou desde o pós-guerra até o final dos anos 90, diminuiu nos últimos vinte anos …É a inversão do efeito Flynn.

Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos.Pode haver muitas causas para esse fenômeno.

Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem. Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos. O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.

A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de “golpes mortais” na precisão e variedade de expressão. Apenas um exemplo: eliminar a palavra “signorina” (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias. Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento.

Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de descrever as emoções em palavras. Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece. A história está cheia de exemplos e muitos livros (Georges Orwell – “1984”; Ray Bradbury – “Fahrenheit 451”) contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.

Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras. Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional? Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro? Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

Caros pais e professores: Façamos (“fazemos” na tradução brasileira) com que nossos filhos, nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinar e praticar o idioma em suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade. Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus “defeitos”, abolir gêneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.

Não há liberdade sem necessidade. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

“Christophe Clavé

https://libplus.it/non-ce-liberta-senza-necessita-non-ce…

/https://it.m.wikipedia.org/wiki/Effetto_Flynn….

Retirado do Facebook | Mural de Manuel Tavares

29 thoughts on “O QI médio da população mundial diminuiu nos últimos vinte anos | Christophe Clavé

  1. Pensei que só desde há alguns anos eu via tanta falta de inteligência, ou seja, uma apatia intelectual pandémica. As pessoas não lêem, não escrevem parecendo padecer duma encefalopatia congénita. Fico feliz porque afinal penso que estou certa. As pessoas não lêem e, se não lêem também não conseguem escrever. É que fazê-lo dá trabalho à cabeça…

    • Concordo plenamente,e complemento: às vezes até lêem,mas assuntos sem conteúdo didático que possam absorver ou transmitir qualquer tipo de conhecimento. Apenas lêem colunas de fofocas, assunto da modinha em redes sociais, sem base alguma de coisa nenhuma. E muitas vezes espalham fake news a torta e a direita sem pesquisar a verdade. Essa é a geração com muita informação sem conhecimento e sem foco.
      Excesso de informações sem qualidade sem conteúdo.

  2. Excelente texto. Ultimamente houve um aluvião de imagens, de palavras vazias, de músicas sem letra que contassem uma história, expressassem sentimentos ou emoções ou ideias interessantes e profundas. As canções são apenas uma sequência de acordes repetitivos e a dança popular, um conjunto de movimentos bruscos e desconexos. A arte verdadeira que exige esforço e dedicação morreu. Nas últimas décadas, tudo é arte. Tudo mesmice, os debates somente palavras, palavras e palavras. 24 horas de TV são um assassinato do desforço de reflexão, de raciocínio, de conhecimento. Hoje assistimos à ditadura da mesmice, da vulgaridade e da idiotice

    • Ana Maria seu comentário é ótimo e define inteiramente meu pensamento e opinião sobre o assunto. Parabens

    • Parabéns pela sua capacidade de explicar sucintamente o que vai acontecendo e serve perfeitamente o apetite totalitário, sempre presente nas sociedades.

    • Sócrates – Tal será então o caráter do nosso guerreiro. Mas como educá-lo e instruí-lo? O exame dessa questão pode ajudar-nos a descobrir o objeto
      de todas as nossas pesquisas, isto é, como surgem a justiça e a injustiça numa
      cidade (…) Mas que educação lhe proporcionaremos? Será possível
      encontrar uma melhor do que aquela que foi descoberta ao longo dos
      tempos? Ora, para o corpo temos a ginástica e para a alma, a música.
      (Platão; 2000:II, 63-4).
      Diga-me quem controla a música que não interessa quem controla as leis.

  3. Sem dúvida alguma, depois da fome, este é o problema número um do mundo que está em franca decadência cultural. TEXTO PERFEITO!

  4. CREIAS ou nao, vi reportagem que os jovens de hoje tem menos QI realmente, depois conversei com alguns diretores de escolas que tenho contato e todos foram unanimes em concordar, isso por diversas razoes. Hoje pensa-se menos, tudo está visivel, nao há aprofundamento, nao precisamos pensar, lemos muito menos, jogamos muito mais, pouca filosofia, pouco debate adequado, muito superficialmente os jovens examinam as coisas, as noticias,

  5. De acordo. Uma penúria geral, incluindo a imprensa escrita e falada no Brasil. Mas especialmente entre os mais jovens.
    J
    P s.: Um pequeno reparo: brasileiro nenhum diria “fazemos” naquele exemplo de imperativo. Erra-se muito por aqui no imperativo negativo do singular: “não faz isso!”

  6. Concordo plenamente com esse texto!
    Obrigada por expôr esse perigo, ainda há tempo para que possamos combater a continuidade da degradação da linguagem

  7. O analfabeto funcional está a contento com a NOM. Quanto maior a ignorância, melhor. São muitos os fatores determinantes que levaram o Brasil a esta situação de desinformação. Politização da educação é um deles. Os baixos salários de educadores atraem despreparados.
    A língua sempre teve transformações no decorrer da evolução humana – sempre com propriedade na interpretação, reflexão, aprimoramento da linguagem… Mas nunca aconteceu de cair o QI.

    O emburrecimento está num conjunto de fatores – terceirização da educação dos filhos para instituições, descompromisso dos educadores, ausência de uma sociedade responsável é, principalmente, mais direitos que deveres em todos os aspectos!
    Pior – gente que bate no peito e esbraveja sua ignorância!
    A quem interessa atualmente que tudo caia ?!
    Assim caminha a clientela da NOM..
    NOM está muito feliz…

  8. Estou de acordo com o empobrecimento da linguagem. Pessoalmente sou contra o uso dos emojis, não são palavras e carinhas e palminhas são usadas cada vez mais.

  9. A era petralha empobreceu a inteligência dos alunos, desde as séries iniciais até o curso superior. Não fazem mais leitura em aula, não estudam verbos, não usam fazerem redação.. Não estudam história do Brasil e história geral. Como tbm geografia do Brasil e geografia geral. Não conhecem histórias da música muito. enos seus autores.
    Matemática então, nem se fala. Uma cultura geral, não faz mais parte dos jovens nos dias de hoje.

  10. Achei muito interessante.
    A cada vez maior utilização de meios informáticos leva por vezes a alterar conteúdos porque se sabe que o corretor não admite o que se pretende.
    A vida corre em ritmo acelerado e isso choca com a atenção devida ao que se diz ou faz.
    Obrigada.

  11. Penso que nós pais e educadores devemos valorizar a leitura, presentear mais com livros, premiar boas ideias, bons pensamentos, valorizar mais os mais pensantes. Porém penso que só criticar não resolvemos o caso. Vamos tentar achar caminhos? Será que se investirmos nas escolas de periferia seria um bom caminho?

  12. Sempre considerei absurda e um sinal de retrocesso a reforma ortográfica imposta nos últimos anos, assim como sempre me preocupei com a linguagem simplificada dos internautas. Em casa estimulamos conversas à mesa e observo meus filhos, sugerindo, sempre que necessário, uma adequação de concordância verbal e clareza de pronúncia em suas frases. Durante esse longo período de isolamento pela pandemia a leitura tem sido uma fonte prazeirosa de entretenimento e renovação compartilhada por minha caçula, hoje com 16 anos. Seguimos no viés da simplificação.

  13. Excelente texto e que descreve com exatidão o que vemos se passar diante de nossos olhos, nossos jovens não são mais desafiados a ler, refletirem sobre o que leram, raciocinar. O simplismo da atualidade está destruindo a capacidade de questionamento e aprimoramento do intelecto. Hoje tudo é direcionado para a forma mais fácil de se fazer as coisas, roubando da juventude o prêmio maior: o pensamento que analisa, avalia e busca respostas, ao invés de concordar com tudo que lhe empurram goela abaixo.

  14. Como se justifica o uso obrigatório do substantivo O Presidente por A presidenta? Achei um absurdo com a gramática. E agora o uso em discursos ou cumprimento todos/todas do pronome e mais aberrante todes!!!!

    O que me diz?

  15. E o que falar das terríveis simplificações nos Whatsapp, Instagram, etc., aprofundadas ainda mais com os tais de emojis?

  16. Excelente texto, e comentários. Acredito que a comunicação se deteriorou muito, inclusive com o recurso da internet (whatsapps, Instagram….). As pessoas não dialogam mais, as expressões se reduzem à emojis e figuras! Então qual o grande motivo das pessoas se preocuparem em conjugações verbais e acentuações se seus próprios pensamentos estão sendo expressos somente por símbolos e imagens, como na idade pré-historica?! Houve realmente um grande retrocesso, e bem pior do que a gente imagina. E isto não se refere somente aos nossos jovens, mas aos adultos também.

  17. Muito interessante esta reflexão sobre a linguagem na linha do tempo e sua relação com o desenvolvimento humano.

  18. Que texto maravilhoso!!
    Ontem mesmo, ao dar uma aula, fiz uma
    colocação, expondo o porquê das
    denominações e utilização dos tempos
    verbais.A explicação causou espanto e
    ao mesmo tempo uma satisfação pela descoberta .

  19. Não acredito (mais) que a humanidade tenha qualquer chance de evolução no que diz respeito a inteligência. A sensação que sinto é de que a maioria das pessoas deseja freneticamente aquilo que não exija o mínimo esforço. Ouvir músicas destemperadas, beber e se drogar alucinadamente, proporcionar aglomeração de gente que tem nada em comum…enfim. Faz algum tempo eu li, por intermédio de um cientista, que apenas 5% da população mundial detém o domínio da consciência e usam-na para o melhor. Hoje, entendo o anteriormente dito. Não há mais o que dizer ou esperar!

  20. Infelizmente, a hipótese, na qual se baseia esse artigo, é falsa: dados históricos [1] de múltiplas referências mostram.que a média global de inteligência só aumenta.

    Não apenas isso, mas o artigo sobre Efeito Flynn na Wikipédia em língua inglesa [2], muito mais extenso que o de língua italiana dado como referência a esse artigo, inicia, no primeiro parágrafo, com um estudo científico de 2015 mostrando a validade do Efeito Flynn; não obstante, o artigo vai a fundo em meta-análises e descreve que a quantidade de testes de baixo QI foi o que majoritariamente vem diminuindo, e que a redução de QI é maior entre adultos que em crianças.

    [1]: https://ourworldindata.org/intelligence
    [2]: https://en.wikipedia.org/wiki/Flynn_effect

  21. Este artigo me fez lembrar dos estudos de Vigotsky, sobre o papel da linguagem no desenvolvimento do pensamento. Obra fundamental para psicologia e pedagogia, mas recomendo para quem quer se aprofundar sobre linguagem, e sobre a natureza humana. Recomendo!

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