Natal 2020 | Frederico Lourenço

Quem leu o famoso romance “Brideshead Revisited” de Evelyn Waugh lembrar-se-á de uma conversa entre Charles e Sebastian sobre a fé, em que Charles se afirma não-crente e exprime a sua estranheza perante o facto de o amigo acreditar na lenda do Natal (com Reis Magos e burrinho junto da manjedoura). Diz Charles: “but my dear Sebastian, you can’t seriously believe it all… I mean about Christmas and the star and the three kings and the ox and the ass”. Ao que Sebastian responde: “oh yes, I believe that. It’s a lovely idea”.

Neste ano de pandemia, tão dilacerante para milhões no mundo (e que nos trouxe em Novembro a notícia deprimente de que Donald Trump obteve mais 11 milhões de votos do que em 2016 e, em Dezembro, mutações super contagiosas do coronavírus), a “lovely idea” do Natal é mais precisa do que nunca, capaz de consolar pessoas religiosas e pessoas sem nenhuma religião. Na verdade, não preciso de acreditar que o menino deitado na manjedoura é filho de Deus para reconhecer a espantosa beleza da ideia de que o filho de Deus pudesse estar deitado num estábulo de animais, calmamente observado por um burro e por um boi. Também não preciso de acreditar na virgindade da mãe que o deu à luz para achar “a lovely idea” a noção de que uma virgem pudesse engravidar e parir uma criança.

No romance de Evelyn Waugh, Charles indigna-se (carinhosamente, claro) com Sebastian, retorquindo que não se pode justificar a fé religiosa com base na “beleza” da ideia do Natal. “But you can’t believe things because they’re a lovely idea”, remata. Sebastian, impávido, responde: “but I do. That’s how I believe”.

A lenda do Natal na mitologia cristã tem o seu reverso, que – longe de ser “lovely” – é tragicamente ilustrativo da condição humana. Se o facto de o filho de Deus não ter vindo ao mundo no mais esplendoroso palácio da terra (mas sim na palha de um estábulo) sugere a mais requintada das verdades poéticas, já o massacre dos inocentes ordenado por Herodes faz soar uma nota amargamente realista, visto que genocídios e massacres pautam desde sempre a história da humanidade. Deus decidiu vir ao mundo? Então o mundo é isto: é um lugar assolado por guerras e pandemias, onde um bebé recém nascido não só não tem abrigo condigno como está imediatamente na iminência de ser morto à nascença. Mais tarde, nesse mesmo menino já crescido, cuspir-lhe-ão em cima. Troçarão dele, arrancar-lhe-ão a roupa, fustigá-lo-ão de forma cruel, crucificá-lo-ão. Este “Deus” não veio ao mundo para ser recebido como Deus, mas como um marginal, um criminoso, um “pobre de Cristo”.

Sinceramente, eu não sei se acredito em Deus. Mas se há “lovely idea” alguma vez imaginada por alguém – esqueçamos a maldade inextirpável do ser humano, o cadastro horrendo da história da humanidade e este mundo (criado por Deus?) de pestes negras, de gripes espanholas e de coronavírus – essa ideia linda tem de ser o Natal. Sebastian tinha razão. A capacidade humana para ver e criar beleza é a grande redenção. E nesta ideia, sim, é possível acreditar.

Portanto, aqui vão os nossos votos natalícios, neste ano anormal que, contudo, permitiu a mim e ao André a consoladora normalidade de montar com amor a nossa árvore de Natal.

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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