Este confinamento que nos dilacera e embrutece | Carlos Esperança

Na pungência dos lamentos de amigos onde o otimismo se apaga e a alegria dá lugar ao medo e à ansiedade, refletimos na anómala situação em que abdicamos dos amigos, até dos filhos e netos, que se tornaram suspeitos e perigosos.

Sabemos de amigos que morrem sem nos despedirmos, renunciámos às tertúlias que nos mantinham vivos e onde exercitávamos os neurónios, abdicámos dos passeios habituais, das idas aos locais de origem, enfim, de tudo, ou quase tudo, o que dava sabor à vida.

Os que outrora não abdicávamos da liberdade, renunciamos hoje a ela, por prudência ou por civismo, de motu próprio ou por imposição legal, sem nos darmos conta de que esta renúncia se pode tornar rotina e, à força do hábito, acabemos por nos resignar.

A máscara que nos tapa a boca e as narinas, que esconde a face e as suas expressões, é a metáfora da normalidade, uma peça de vestuário imprescindível, o disfarce que impede as manifestações de humor e transforma em autistas os extrovertidos.

Quando ao medo se junta a carência de meios de subsistência, se esgota a esperança e se entra em ansiedade incontrolada, já não é só a saúde individual que fica esmorecida, são as defesas contra os vendedores de ilusões que se debilitam.

Primeiro perde-se o sentido crítico, depois renuncia-se aos direitos, e acaba-se a aceitar oportunistas que exploram o medo, propagam o ódio e corroem a democracia.

Quem viu a miséria das aldeias portuguesas em meados do século passado, a resignação dos deserdados, e sentiu o horror de uma ditadura e o sofrimento da guerra colonial, não pode agora esmorecer.

A expectativa de uma vacina deve levar-nos a ser tão cautos como devemos, e a cultivar a esperança em melhores dias.

O que não podemos é deixar de ser críticos e de combater a propaganda que diariamente reabilita o antigamente, e a explosão do fascismo que encontra no medo e na ansiedade o húmus de que se alimenta.

O cavaquismo reabilitou e integrou os pides. Hoje, a ditadura passou a antigo regime, as colónias voltam a ser ultramar, os facínoras são exaltados, e as vítimas de um dos lados da guerra passam a ser designados como heróis do Ultramar.

Hei-de denunciar, até ao último dia, a operação de cosmética que compromete pessoas que me habituara a respeitar. Hei-de voltar a este dilacerante tema onde não deixarei que tapem as feridas abertas da minha geração com o bálsamo da reescrita da História.

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Esperança

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