Noticias da A25A | A Biografia de Salgueiro Maia e as Circunstâncias | por Carlos Matos Gomes | Vasco Lourenço

Caros associados

Estamos em plena evocação dos 50 Anos do 25 de Abril.

Nessas comemorações – iniciadas em 23.03.2022, dia em que o tempo de vivência em Liberdade igualou o tempo que durou a tenebrosa e negra ditadura, com a condecoração de alguns dos Capitães de Abril (30) – irão desenvolver-se um conjunto de actividades que o acontecimento em causa plenamente justifica. 

Como afirmou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não devendo, nem podendo esquecer o passado, temos de aproveitar esse passado e o presente, para projectarmos o futuro.

Nós, Capitães de Abril, nunca renegando a nossa acção que provocou o derrube da ditadura e a abertura das portas à Liberdade, à Paz, à Democracia, à Justiça Social, à Solidariedade, valores que assumimos como Valores de Abril, logo, os valores porque nos batemos e continuamos a bater, temos muita honra e algum orgulho em termos cumprido todas as promessas feitas aos portugueses e ao mundo, termos entregue o poder ao povo português, democraticamente organizado, termos exigido apenas a qualidade de cidadão comum, igual aos demais.

Esperamos portanto, confiando nos responsáveis, que estas comemorações não sirvam para desvirtuar o que efectivamente se passou – os Capitães de Abril tiveram como primeiro mérito aproveitar as condições criadas pela luta de muitas e muitos portugueses, potenciada pelos erros dos ditadores, onde a imposição de uma guerra sem sentido desempenhou papel fundamental, mas o facto é que não se pode escamotear que quem fez o 25 de Abril foram, efectivamente eles, com os seus homens, integrantes do Movimento das Forças Armadas!

Poder-se-á perguntar, porquê esta preocupação? 

Nada mais natural, quando, não há muito tempo, ressurgiu a teoria de que “Os militares, regressaram aos quartéis, porque a isso foram obrigados, pelos políticos”.

Como diria a minha avó e a minha mãe “caldos de galinha, nunca fizeram mal, a ninguém”!…

A passagem dos 30 anos, sobre o falecimento do Capitão de Abril Fernando Salgueiro Maia, não podia deixar de ser assinalada, no âmbito das comemorações de que falamos. 

Vamos assistir a vários actos, em Lisboa, em Santarém e em Castelo de Vide, que começaram com uma pequena homenagem, no Quartel do Carmo, local onde esse nosso camarada impôs a rendição ao ditador, onde foi apresentada a 13.ª edição do livro “Salgueiro Maia. Um Homem da Liberdade”.

A intervenção principal coube ao Capitão de Abril Carlos Matos Gomes, grande amigo e companheiro do biografado.

Este nosso camarada, também ele um Capitão de Abril de todas as horas e de corpo inteiro, que já nos habituou à excelência das suas obras, como um dos principais escritores da actualidade, aproveitou o seu conhecimento, a sua vivência, o facto de também ter sofrido na pele algum do ostracismo de que muitos Militares de Abril foram vítimas, para exprimir um sentimento que viveu e vive ainda em muitos de nós.

Fê-lo com uma mestria, que só as suas qualidades de exímio escritor poderiam proporcionar. Como tive oportunidade de lhe dizer, logo a pós a sua intervenção, “conseguiu exceder-se, em qualidade”!

Aqui vos deixo o seu texto, com as felicitações ao Carlos Matos Gomes, com o regozijo de vermos ultrapassado o período onde o 25 de Abril foi fortemente atacado por quem, ao contrário do tributo que lhe devia, tudo fez para o esquecer e mesmo anular.

Mas também com a esperança de, vendo reconhecido que o 25 de Abril foi uma obra colectiva, constituindo uma acção única em Portugal e no Mundo, possa servir de exemplo a seguir no futuro, por quem teima em acreditar que é possível viver em Liberdade, em Paz, em Democracia, em Igualdade, com Justiça Social e Solidariedade.

25 de Abril, Sempre!

Abraços de Abril

Vasco Lourenço

A biografia de Salgueiro Maia e as circunstâncias 

A biografia é uma disciplina superior da Literatura. Na ficção os romancistas, os contistas representam a vida, a realidade e criam personagens que servem a trama, o enredo, inventam os acontecimentos. Na biografia, os biógrafos têm de traduzir a realidade através de pontos de luz, descobrir as marcas do tempo, distinguir o vulgar do excecional, colocar nela a personagem, e revelar como ela foi determinada pelo passado e pelas circunstâncias. De, como um pintor, revelar a personagem que se encontra no fundo da paisagem e como ela foi chegando ao primeiro plano. Como determinou o seu tempo e o tempo que virá.  
Nas forças armadas todos os militares têm a sua biografia oficial: com o nome, o número, a filiação, as habilitações, as especializações, o seu percurso, as unidades onde foi colocado, os louvores, as condecorações, as punições – casamento, filhos – tudo averbado. Chama-se a esse documento uma «Nota de assentos» – tudo ali se encontra assentado.  
Uma biografia, esta biografia escrita por António Sousa Duarte, «Salgueiro Maia – Um homem da Liberdade», não é, não podia ser a «Nota de Assentos» do Fernando José Salgueiro Maia, nascido em 1944, em Castelo de Vide, que foi admitido em 1964 na Academia Militar com o 7º ano da alínea F dos liceus…. É, foi, a primeira abordagem consistente para os portugueses conhecerem uma figura marcante da sua história e é um objeto irrepetível.  

A sua primeira edição é de 1995. Hoje não seria possível escrevê-la assim, com a informação com a pureza de elementos com que ela foi construída. Ela foi escrita noutro tempo. No fim da década do que ficou conhecido por cavaquismo – que não vou qualificar, nem a personalidade que a simbolizou  – mas de que direi o que é hoje reconhecido, um regime político de cariz neoliberal que estava em moda como ideologia dominante, uma nova classe dirigente, um novo grupo reinante, enriquecido com os fundos europeus, em que a palavra de ordem era «obra», e não justiça, ou solidariedade, em que a grandeza era a exibição de riqueza, em que o 25 de Abril ficara reduzido a um mero golpe militar que tinha acabado com uma ditadura benévola e inaugurado uma época de caos popular, que os novos emergentes iriam ordenar e explorar, com novos bancos, novas urbanizações, novas prioridades.  Uma nova cultura do imediato, a-histórica.  

No tempo da primeira edição de Salgueiro Maia – um homem da Liberdade, os heróis eram os novos volframistas, idênticos aos antigos novos-ricos que exibiam canetas de tampa de ouro, que exploravam as minas, agora com o volfrâmio substituído pelos fundos europeus, que inventaram bancos, empresas de formação, de construção civil. Eram tempos em que os heróis vinham da província e chegavam deslumbrados a Lisboa com uma lista de restaurantes, de bares a frequentar para serem vistos, de alfaiates a quem encomendar fatos – em que esses jovens telefonavam aos pais a anunciar: Pai sou ministro – como Julio César  Veni, vidi, vici  “Vim, vi, venci”. 

Nesse tempo, no tempo da biografia de Salgueiro Maia que agora se reedita, haviam passado 20 anos desde a data em que o jovem capitão saíra de Santarém para Lisboa à frente de uma coluna de militares para a operação de incertos resultados de derrubar um regime anacrónico, de ditadura e colonialismo e de meia dúzia de famílias oligarcas.  

Nesse tempo, Salgueiro Maia, como os seus camaradas, eram, numa versão benévola, curiosidades toleradas que se deviam manter quietas como bibelots sobre as velhas cómodas e, na versão mais comum, elementos perigosos, de quem se deviam resguardar os negócios, gente que devia ser deixada na sombra, esquecida. Não convinha falar em revolução, não fosse alguém lembrar o que a revolução havia derrubado e perguntar o que faziam os novos heróis pelos outros, pela liberdade e o bem-estar coletivo, pela justiça, pela igualdade. Havia uma nova ordem de valores e novos agentes, os gestores de fundos, os aproveitadores de fundos. Até nas forças armadas havia uma nova hierarquia que se impunha, e a quem a simples manutenção de Salgueiro Maia em Santarém, na sua unidade de sempre, era dificilmente suportável. Por isso foi colocado em postos burocráticos nos Açores, na Direção da Arma de Cavalaria em Lisboa e no Presídio Militar de Santarém, como carcereiro!  

Esses foram os tempos de Salgueiro Maia resistente: o tempo em que estudou sociologia e antropologia, história militar, nomeadamente fortificações. Viveu esse confronto com um regime que não o vergou sem jamais deixar que lhe vissem um esgar de desalento, lhe ouvissem uma palavra de amargura, em que se assumiu orgulhosamente como implicado no 25 de Abril. 

Mas, nas traseiras desse regime em que Portugal passou a ser Sociedade Anónima – e até foi realizado um filme com o título de Portugal SA -, enquanto a maioria dos portugueses andava fascinada a olhar para outros heróis, de gente com brilhantina no cabelo e cartão de crédito da empresa, foi possível aproveitar a distração com as novas estrelas do novo regime para fazer uma biografia sobre Salgueiro Maia.  

António Sousa Duarte aproveitou esse desvio de atenções para, com o cuidado de um lapidador de um diamante, de um artesão que trabalhou no seu telheiro escrever a biografia de Salgueiro Maia.   Graças ao desinteresse dos protagonistas desse tempo e dos seus cronistas, temos um objeto único e irrepetível. 

Irrepetível porquê? Lembro a conhecidíssima frase de Ortega y Gasset, porque o homem é ele e a sua circunstância. Todas as coisas estão em permanente processo de mudança. Todos os seres humanos são sujeitos ativos da História e do meio, estão à mercê do tempo, apenas são decifráveis num dado contexto. Segundo Husserl, o tempo é uma questão de perceção, uma questão de consciência. É pela forma que as coisas e os seres tomam com o tempo que as percebemos. O tempo, a passagem do tempo altera a nossa visão da realidade e também do passado. Vivemos um permanente presente histórico em que vamos alterando as nossas interpretações da realidade, é a realidade que muda e não o tempo! Heróis de ontem são criminosos de hoje. A Divina Comédia de Dante, o Inferno é uma galeria de heróis que o tempo fez cair em desgraça.  

Também relativamente a Fernando Salgueiro Maia o tempo fez o seu trabalho. E a biografia que dele fez António Sousa Duarte revela-o. É um marco irrepetível porque o tempo tem vindo a colocar as coisas, as personagens, os acontecimentos no seu lugar. A sociedade portuguesa de hoje é muito diferente da de 1995. A visão do passado também. Graças ao trabalho de historiadores, de investigadores, de jornalistas, de académicos, de editores, temos hoje um manancial de informação que nos permite ver mais do que víamos há trinta anos.  

Há 30 anos ainda era possível afirmar que o 25 de Abril foi obra de militares que apenas não queriam ir mais para a guerra, ou que a guerra se mantinha porque os militares enriqueciam com ela. Curiosamente os que justificavam o fim da guerra com a cobardia dos militares eram os mesmos que justificavam a sua continuação com o enriquecimento.  

Ainda era possível afirmar, como um militar incensado como indómito defensor do império, que os oficiais do 25 de Abril eram fujões da guerra. Ainda era possível um professor universitário e dirigente partidário, além de latifundiário, classificar os militares de primatas fardados. Ainda era possível afirmar que o 25 de Abril foi obra de militares a soldo de Moscovo. Ainda era possível acusar os militares de traição, como alguns excitados anunciaram que iriam fazer em tribunal! 

Esta biografia de Fernando Salgueiro Maia foi escrita nesse tempo e iniciou uma época de higienização histórica. Salgueiro Maia surge nela como um símbolo de uma geração, da geração do 25 de Abril que afrontou todas as ignomínias que durante vinte anos haviam sido lançadas sobre os militares que haviam levado a cabo o 25 de Abril, o derrube da ditadura, a descolonização, que tinham aberto a porta do poder aos portugueses, afrontado as tradicionais oligarquias políticas, económicas, religiosas e militares. Esta biografia permite-nos ver hoje como Salgueiro Maia resgatou uma geração, a sua geração.   

Dessa geração se disse e ainda diz que não tinha consciência política? Então como explicar o lema da companhia de cavalaria de Salgueiro Maia mobilizada para a Guiné em 1971 com a designação de Os Progressistas?! E isto 3 anos antes do 25 de Abril no conservador Regimento de Cavalaria 4 em Santa Margarida! E como surge um dos mais bem gizados politicamente programas políticos que é o Programa do MFA. Leia-se a sua modernidade e quão longe, lá para trás na história, estamos hoje das teorias neoliberais! 

Os militares do 25 de Abril eram maus militares? Então como justificar que Salgueiro Maia tenha conseguido o extraordinário feito de comandar a sua companhia, já após o final da sua dura comissão na Guiné, quando se preparava para embarcar, de a rearmar e de a levar numa das mais duras e sangrentas operações realizadas durante toda a guerra para romper o cerco à guarnição de Guidaje?  

E como justificar a brilhante ordem de operações de Otelo Saraiva de Carvalho para derrubar o regime? 

Esta biografia de António Sousa Duarte também responde a uma questão tantas vezes colocada: Porque foi Salgueiro Maia ostracizado – é o termo – pelo cavaquismo, e porque é e foi esta biografia tão importante para hoje percebermos as razões? 

A resposta parece simples, mas foi necessário tempo para chegarmos a ela: porque Salgueiro Maia é o oposto do cavaquismo, do seu patrono e dos heróis do cavaquismo. Salgueiro Maia é o avesso de Cavaco Silva, da ideologia do sucesso a todo o custo e à custa de tudo e os capitães de Abril são o avesso da coluna de arrivistas que Cavaco Silva trouxe para São Bento. A sua generosidade e grandeza foram um espinho que os defensores do egoísmo social tiveram e têm atravessado, e por isso não o suportavam e não o suportam.  

Os heróis do cavaquismo e cada um escolherá na galeria os que entender, eram jovens, quase todos de origens populares, que ascenderam socialmente com esforço e dificuldades, sem outro princípio a não ser os seus fins, e basta recordar o percurso de muitos deles até aos dias de hoje, ambiciosos, gananciosos, que renegaram as suas origens, se assumiram como uma nova aristocracia, sem consciência social. Salgueiro Maia é e foi leal às suas origens, à sua terra, aos seus amigos, esteve sempre do lado dos seus, sem os renegar, muito pelo contrário, trazendo-os para perto de si.  

Em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria, antes e depois do 25 de Abril, ele estava sempre do lado dos seus subordinados, com o seu uniforme de serviço verde. Foi graças à empatia, à capacidade de comando pessoal que granjeou a adesão dos que com ele vieram na coluna e refiro o papel determinante dos seus velhos sargentos especialistas em blindados, que os trouxeram a andar até Lisboa e recordo o sargento-ajudante José Santos Gomes, familiar e carinhosamente tratado pelo Passarinho, que faleceu há pouco, sempre presente de uniforme número um, de botas altas, nas cerimónias de homenagem a Salgueiro Maia. Eram esses os Rapazes dos Tanques, da obra de Alfredo Cunha e de Adelino Gomes, os rapazes de Salgueiro Maia, os rapazes do 25 de Abril!  

Hoje não seria possível escrever esta biografia de Salgueiro Maia. A sociedade portuguesa de hoje vê Salgueiro Maia noutra dimensão. O tempo tem esse efeito. Fernando Salgueiro Maia é já um vulto da História de Portugal. Uma figura para além da vida de um homem. Salgueiro Maia já é mais do que ele, é uma projeção de nós, de muitos de nós.  

Qualquer obra que sobre ele seja escrita será sempre uma ficção. Ele está hoje já na categoria dos mitos. O mito do jovem implicado num ato transcendente como foi o 25 de Abril, onde desempenhou um papel decisivo no Terreiro do Paço e no Largo do Carmo, mas que tem a consciência de, apesar da grandeza do seu ato, ser visto pela sua instituição e pelo poder político em geral como um corpo estranho, como um perturbador. Diga-se que ele gostava de representar esse papel de implicado! 

Um Salgueiro Maia implicado em várias outras facetas determinantes da nossa vida coletiva, da transformação que a sociedade portuguesa sofreu no pós-Segunda Guerra: implicado na vida desde jovem na amizade com os colegas no Colégio de Tomar e no Liceu de Leiria, voluntariamente implicado na vida militar, que escolheu, na guerra em Moçambique e na Guiné, onde teve uma brilhantíssima ação no comando da sua companhia. Implicado no primeiro documento do Movimento dos Capitães, assinando a carta que da Guiné foi enviada no Verão de 1973 às mais altas autoridades do regime, um ato de indisciplina coletiva, punível.  

Um mito que construiu uma família com amor, mas também com determinação: porque queria viver no meio dos seus, com os seus. Um mito até na forma como enfrentou a sua doença, como decidiu a sua última morada. Consciente, corajoso, afetuoso. Leal.  

Salgueiro Maia é hoje o mito mais humanizado da nossa história, é um vulto, mas já está fora da nossa dimensão, implicando os portugueses na preservação da sua memória através dos valores que sempre foram os seus, de respeito pelas suas origens num povo, os valores universais da liberdade, da justiça, da solidariedade, da coragem.  

A biografia escrita por António Sousa Duarte, que não é uma hagiografia, restitui-nos um Fernando Salgueiro Maia que podemos tocar, com quem podemos conversar, ouvir a contar histórias, a rir, a viver a vida, as suas interrogações. O Maia rebelde e implicado.  
   
Carlos Matos Gomes | Carmo 1 Abril 2022
 

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