EM DEFESA DA INTELIGÊNCIA | Guilherme d’ Oliveira Martins | Opinião/DN

“Perante um mundo ameaçado de desintegração, onde os novos inquisidores arriscam edificar para sempre os reinos da morte, esta geração sabe que deveria, numa espécie de corrida contrarrelógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliar de novo trabalho e cultura e reconstituir com todos os seres humanos uma arca da aliança”. Estas foram as palavras de Albert Camus quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura a 10 de dezembro de 1957.

Afirmando que a sua geração não estaria destinada a refazer o mundo, o escritor preferia os homens empenhados às literaturas comprometidas. Mais do que pregador da virtude, o intelectual deveria compreender que a verdade é misteriosa e fugaz e que a liberdade é perigosa “tão dura de viver, quanto empolgante”. Conferências e Discursos (Livros do Brasil, 2022) reúne trinta e quatro textos de Camus, que constituem reflexões que ganham, nos dias que correm, uma atualidade premente.

Quando a guerra regressa ao nosso quotidiano, com argumentos que julgaríamos banidos, compreendemos que Camus pôde ver para além das ilusões alimentadas por amanhãs que cantam. Por isso, foi incompreendido, ao recusar o conformismo das ideias adquiridas. E, ao relermos, o que disse em março de 1945, na associação “Amitié Française”, quando na frente europeia começavam a calar-se as armas do conflito, voltamos a entender como a humanidade nunca pode considerar-se definitivamente conciliada… “De facto, nada faremos pela amizade se não nos livrarmos da mentira e do ódio. E, em certo sentido, é bem verdade que não nos livrámos. Há muito que frequentamos essa escola. E talvez seja essa a última e mais persistente vitória do hitlerismo, e das marcas odiosas deixadas no coração até daqueles que as combateram com todas as suas forças (…)

Todas as manhãs, durante quatro anos, cada francês recebia a sua dose de ódio e de afronta. Acontecia no momento em que abria o jornal. Alguma coisa teria, obrigatoriamente, de restar de tudo isso”. E assim o ódio prende-se a nós – ódio dos carrascos e ódio das vítimas. Mas como curar os corações envenenados? Como não ceder ao ódio? Como nada conceder à violência? E quando pensávamos que a memória poderia curar a violência cega e gratuita, eis que tudo regressa… “Ainda hoje a inteligência é maltratada. O que apenas prova que o inimigo ainda não foi vencido”. E voltamos a ouvir Göering: “Quando me falam de inteligência, puxo logo o revólver.”

“As filosofias do instinto triunfavam por todo o lado e, com elas esse romantismo de má qualidade que prefere sentir a compreender, com se pudéssemos separar as duas coisas”. Camus preferia, por isso, aquela inteligência que se apoia na coragem, que paga o preço necessário para ter o direito de ser respeitada.

Sabendo-se que o intelectual é um animal perigoso, para quem a traição é coisa fácil, deve entender-se que, quando a inteligência da coragem se extingue, instala-se “a noite das ditaduras”. Daí que a coragem deva manter-se com todos os seus deveres e direitos, pois a amizade é a ciência dos homens livres. “E não há liberdade sem inteligência e compreensão recíprocas”.

Não, não se trata de pregar a virtude. “Gostaria que não cedessem nem à astúcia, nem à violência, nem à indolência”. Em cada texto de Camus é, assim, o homem imperfeito que se manifesta, o mesmo que se angustiava com a fragilidade de sua mãe no auge do conflito argelino. No fundo, a crise do homem é a crise das certezas.

À memória de Joel Hasse Ferreira.

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