Realpolitik | um conceito fora do discurso atual | por Carlos Matos Gomes

Hoje, a propósito da guerra na Ucrânia e perante a ditadura do pensamento único e da opinião instantânea, da técnica do dispare uma condenação antes de pensar, lembrei-me de ir a uma Enciclopédia Britânica que anda aqui por casa e ler o que ali se diz sobre um conceito que desapareceu do discurso da comunicação social: Realpolitik.

Reza a Enciclopédia Britânica (tradução minha): Realpolitik, política baseada em objetivos práticos e não em ideais. A palavra não significa “real” no sentido inglês, mas sim que conota “coisas” — daí uma política de adaptação às “coisas” como elas são. A Realpolitik sugere, assim, uma visão pragmática e objetiva e um desrespeito pelas considerações éticas . Na diplomacia, a Realpolitik é frequentemente associada à busca implacável, embora realista, do interesse nacional.

Pensadores conceituados como Maquiavel e Nietzsche defendem a Realpolitik como um tipo de realismo político segundo o qual as relações de poder tendem a abafar todas as pretensões de fundamentação moral, num tipo de ceticismo moral análogo ao do argumento de Trasímaco na República de Platão. (Trasímaco, personagem de a República, para quem a justiça não é nada mais do que a “conveniência do mais forte”).

Outro pensador e ator habitualmente muito citado na análise de conflitos (mas não convocado pelos “analistas” desta guerra), Henry Kissinger, define Realpolitik como sendo “política externa baseada em avaliações de poder e interesse nacional”.

A Realpolitik surge, como se vê, associada ao interesse nacional, às relações de força, sem relação com a Moral, nem com o Direito, mas sim com o pragmatismo.

Para quem possa pensar que a Realpolitik é uma invenção dos MAUS do momento (a Rússia), acresce que ela foi modernamente introduzida pelos Estados Unidos no governo de Nixon por Henry Kissinger. O conceito serviu para justificar o modo como os Estados mais poderosos deviam relacionar-se com outras Estados igualmente poderosas de uma maneira prática, em detrimento de uma base de política doutrinária ou ética. Esteve associada às ações diplomáticas de Nixon com a República Popular da China e a URSS, apesar de a ideologia dos EUA ser contrária ao comunismo. Outro exemplo, que também podia ser recordado nesta guerra pela guerra que se está a travar é o de Kissinger na guerra israelo-árabe de 1973, quando ele persuadiu os israelitas a retirarem-se do Sinai por causa da conjuntura internacional relacionada com a crise do petróleo. Hoje os fundamentalista diriam que Kissinger era um “putinista” que propunha uma rendição dos israelitas, uma limitação de objetivos, em nome de interesses de âmbito mais alargado do que o imediato.

Não estamos no caso da invasão russa à Ucrânia perante nenhum fenómeno novo, nem exclusivo. Os EUA, nas administrações Nixon, de Reagan, de Bush pai e filho, de Clinton e Obama apoiaram uma extensa lista de governos que violavam os direitos humanos, para assegurar o interesse nacional norte-americano de estabilidade regional. Tal como hoje, os opositores classificavam estas atitudes como imorais, enquanto os seguidistas replicavam com o argumento de que eles estariam apenas a agir em defesa dos seus interesses. Isto é, a regra nas condenações morais de ações políticas é o Bem e o Mal serem definidos pelas relações de dependência. O que não torna as condenações dos atuais moralistas, nem a invocação do Direito particularmente respeitáveis. Adequado e realista seria analisar os interesses em jogo e as vantagens e os inconvenientes de determinadas ações (fornecimento de armamento, sanções, manipulação de opinião) e quem ganha e perde, no curto e no longo prazo.

Alguns dos mais proeminentes adeptos e praticantes da Realpolitik durante o século 20 incluem Churchill, De Gaulle, Willy Brandt, Henry Kissinger, Zbigniew Brzezinski, Hans-Dietrich Genscher, Helmut Kohl, Angela Merkl, Margaret Albright, Gorbatchov, Mário Soares, entre os portugueses.

A ordem da administração Biden de retirada americana do Afeganistão e da Síria e a concentração de esforços na Ucrânia é um caso claro e exemplar de Realpolitik, que está ainda em curso.

Apenas um outro ponto, também fora das análises instantâneas, a relação entre Realpolitik e realismo político, em especial agora que estamos em plena campanha centrada nos crimes de guerra. Quer a Realpolitik quer as teorias do realismo na política implicam operações políticas de acordo com o princípio de que a política é baseada na perseguição, posse e aplicação do poder. Por isso, corre um risco de cometer crimes em tempos de guerra (John Bew: Realpolitik, a history — Oxford). Elas assentam em última instância no poder da força armada e apenas podem ser reguladas através da destruição do inimigo, ou da diplomacia (Clausewitz).

Carlos Matos Gomes

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