Banco suíço Syz explica como a Rússia resgatou o rublo e como as sanções falharam| in msn.com

Neste momento um rublo russo equivale a 0,014 euros e ao mesmo valor em dólares. Apesar das sanções, o rublo está ao seu nível mais alto em dois anos em relação ao euro. Quais são as razões por detrás dessa recuperação? A moeda russa conseguirá manter-se apesar das sanções que tenta ostracizar a Rússia e os russos?

Um estudo do banco suíço Syz explica como a Rússia segurou o rublo. “Após uma forte queda no início da guerra na Ucrânia, o rublo russo recuperou grande parte de seu valor em relação a outras moedas mundiais, uma mudança possibilitada por controles de capital agressivos implementados por Moscovo e por um fluxo constante de pagamentos pelo petróleo do país e exportação de gás”, diz o banco suíço.

A resiliência do rublo diante das sanções pode permitir concluir que o regime do presidente Vladimir Putin reivindique, pelo menos temporariamente, alguma vitória sobre os esforços internacionais para tornar isolar a Rússia. No entanto, essa melhoria da cotação do rublo pode ser apenas temporária, alerta o banco com sede em Genebra.

Na semana passada, a gigante russa de gás Gazprom fechou a torneira do seu fornecimento de gás natural à Polónia e à Bulgária, alegando que os dois países não estavam a pagar as suas importações de gás em rublos, conforme exigido por Moscovo como reação às sanções da Europa.

Algumas semanas antes pagar a gasolina em rublos poderia parecer um bom negócio para os compradores, pois a moeda russa estava a ser negociada a 120 rublos por euro, uma desvalorização de 35% em relação ao pico. Mas desde o ponto baixo em 7 de março, o rublo russo teve uma recuperação admirável. Agora está a negociar a 77 rublos por euro, o seu nível mais alto em dois anos.

No entanto, todas as sanções impostas no início da guerra ainda estão em vigor e se vão ficando mais severas com o tempo. Então, como os russos conseguiram reavivar a sua moeda? Aqui estão algumas explicações do Banque Syz.

Em primeiro lugar os fatores internos. Ao contrário de outros países que tiveram que defender as suas moedas, o banco central russo não está em condições de intervir no mercado de câmbio porque metade das suas reservas foi  bloqueada no âmbito da imposição das sanções. Este foi verdadeiramente o golpe inesperado que o bloco europeu e os EUA infringiram sobre a Rússia, porque as restantes sanções eram mais ou menos antecipadas pelos russos.

É verdade que a 24 de fevereiro, dia em que a invasão começou, o Banco da Rússia interveio pela primeira vez em anos como parte de uma série de medidas para estabilizar o sistema financeiro russo. A governadora Elvira Nabiullina disse que o banco central gastou mil milhões de dólares naquele dia, e ainda uma quantia mais pequena no dia seguinte, para tentar sustentar o rublo. Mas desde então, o governo russo e o banco central tiveram que implementar outras medidas para defender a sua moeda.

A 28 de fevereiro, o Banco Central da Rússia elevou as suas taxas de juros de 10% para 20%, o que foi um forte incentivo para os russos manterem sua moeda local. Outra medida forte introduzida pelo governo foi a ordem para as empresas russas converterem um mínimo de 80% dos seus ganhos estrangeiros em rublos. Isso significa que uma siderúrgica russa que ganha 100 milhões de euros vendendo aço para uma empresa na Alemanha deve converter 80 milhões desses euros em rublos.

O Kremlin também emitiu um decreto proibindo os corretores (traders) russos de vender títulos detidos por estrangeiros. Muitos investidores estrangeiros possuem ações de empresas russas e títulos do governo e queriam vender as suas participações após o anúncio da invasão e das sanções russas. Ao proibir essas vendas, o governo fortaleceu os mercados de ações e títulos, mantendo ativos na Rússia, o que ajudou a conter a queda do rublo.

Os próprios cidadãos russos foram alvos do governo, pois o Kremlin os proibiu de transferir dinheiro para o exterior. A proibição inicial estipulava que todos os empréstimos e transferências de moeda deveriam ser suspensos. Essas restrições foram relaxadas recentemente, mas as transferências estão limitadas a 10 mil dólares por mês para particulares até o final deste ano.

Outro movimento forte passou relativamente despercebido foi o facto de o Banco da Rússia ter retomado as compras de ouro a um preço fixo de 5.000 rublos por grama entre 28 de março e 30 de junho. Essa operação permite ao Banco Central não apenas vincular o rublo ao ouro, mas também estabelecer um preço mínimo para o rublo em dólares (já que o ouro é negociado em dólares americanos). O preço mínimo é estimado em cerca de 80 rublos por dólar (5.000 rublos divididos por 62 dólares por grama de ouro).

Esta operação levanta a possibilidade de um retorno ao padrão-ouro pela primeira vez em mais num século. Além disso, com a nova ligação entre o ouro e o rublo, uma nova subida do rublo poderá traduzir-se num aumento no preço do ouro. Recorde-se que desde a anexação da Crimeia em 2014, a Rússia, através do seu Banco Central, foi o país que comprou mais ouro. Atualmente possui o quinto maior stock no mundo.

Depois há fatores externos. Um dos motivos da valorização do rublo é o elo fraco das sanções impostas pelo Ocidente relativamente ao gás natural. As sanções foram originalmente concebidas para restringir a capacidade da Rússia de adquirir moeda estrangeira – dólares e euros em particular. Mas muitos países europeus continuam a comprar gás russo porque dependem dele e porque não há fornecedores alternativos suficientes para responder à procura.

De fato, um dos principais impulsionadores da valorização do rublo é a estratégia de Vladimir Putin de exigir que alguns compradores de gás natural russo paguem suas contas de gás em rublos.

Os contratos de gás natural costumam ser em euros ou dólares, e os países que compram esse gás – UE, Estados Unidos, Canadá etc. – têm poucas reservas. Forçar esses países a pagar em moeda russa resultará em compras de rublos em grandes quantidades (estima-se que as compras de gás natural russo pela União Europeia cheguem a cerca de mil milhões de dólares por dia). A procura por rublos pode explodir, impulsionando a subida do rublo. É a antecipação desse aumento que contribuiu para o aumento do valor do rublo.

O segundo falha nas sanções é a exclusão da dívida soberana. Uma das medidas mais prejudiciais contra a Rússia foi o congelamento das suas reservas externas. A Rússia detém cerca de 640 mil milhões em euros, dólares, ienes e outras moedas estrangeiras em bancos em todos do mundo. As sanções bloquearam o acesso da Rússia a esses ativos, exceto quando se trata de pagar juros sobre sua dívida soberana. O Tesouro dos EUA deixou uma janela aberta para intermediários financeiros para processarem pagamentos à Rússia. Essa janela pode fechar em breve, mas tem sido uma grande ajuda para a Rússia até agora. Sem ela, a Rússia poderia ter que levantar dólares vendendo rublos, o que pressionaria a moeda russa.

E se não tivesse conseguido levantar esses dólares, teria entrado em default, com consequências negativas para a Rússia e o rublo. Outro fator que contribui para o fortalecimento do rublo é o aumento dos preços do petróleo e do gás natural. Os países exportadores de commodities estão a beneficiar do aumento dos preços. É o caso da Rússia, um dos maiores exportadores mundiais de commodities, que, como explica o Syz, continua a exportar apesar das sanções. Além das exportações de energia para a Europa, a Rússia mantém relações comerciais muito fortes com outras grandes economias, como China e Índia.

O resultado líquido é um fluxo constante de moeda estrangeira para a Rússia e uma explosão no superávit comercial da Rússia.

Todos esses fatores reduziram o risco de colapso da economia russa e, portanto, contribuíram não apenas para a estabilização, mas também para a valorização do rublo. A Rússia deu uma verdadeira lição ao mundo de como valorizar a sua moeda perante adversidades nunca vistas.

Mas para alguns analistas o governo russo fez muito mais do que defender a sua moeda, e dizem que o governo está a manipular o mercado do rublo e criando uma procura que de outra forma não existiria. Alguns observadores culpam o banco central russo por usar uma variedade de ferramentas para fazer o rublo parecer uma moeda valiosa, quando na verdade muito poucas pessoas fora da Rússia querem comprar um único rublo, a menos que seja absolutamente necessário.

Os comerciantes já não veem o rublo como uma moeda de livre comércio. Os controles de capital impostos como resultado das sanções ocidentais significam que a taxa de câmbio é efetivamente administrada. Muitas casas de câmbio até pararam de negociar o rublo, pois acreditam que o valor não corresponde ao preço pelo qual pode ser negociado na realidade.

Os russos inicialmente fizeram fila nos multibancos do país para sacar o máximo de moeda estrangeira, mas o pânico diminuiu desde que o rublo estabilizou. Os estrategistas dizem que a subida do rublo não é legítima e que a moeda seria negociada em um nível muito diferente se as barreiras artificiais fossem removidas.

Quais são as perspectivas de longo prazo para o rublo?

As intervenções governamentais descritas acima trazem riscos significativos. Se a Rússia conseguir encontrar uma solução para o problema ucraniano com o corolário dos fim das sanções e a restauração das relações comerciais com o Ocidente, o rublo pode manter seu valor atual. Por outro lado, se as medidas forem retiradas sem uma resolução, o rublo poderá entrar em colapso, resultando em uma explosão da inflação doméstica e uma profunda recessão económica na Rússia, diz o Banque Syz.

De fato, algumas medidas – inclusive domésticas – terão que ser retiradas no médio prazo. Por exemplo, os clientes bancários russos não podem continuar a pagar taxas de juros muito altas por muito mais tempo. As taxas de juros foram reduzidas de 20% para 14% na semana passada, mas o nível absoluto permanece relativamente alto e ameaça sufocar a indústria e o crescimento.

Por outro lado, o superávit em conta corrente esconde os efeitos de longo prazo das sanções, que inevitavelmente terão um forte impacto negativo na economia e, portanto, no rublo, diz o Syz.

Mas a maior ameaça ao rublo é certamente o fator que permite que ele seja tão forte no momento, ou seja, a estratégia de Putin sobre as exportações de gás natural para a Europa. Os contratos de gás eventualmente terão que ser renegociados, e é uma aposta segura que os atuais clientes da Rússia pretendem reduzir significativamente a quantidade de gás natural russo que importam.

Os Estados Unidos já estão a enviar remessas para a Europa. Fala-se de suprimentos do Reino Unido, Noruega, Qatar e Azerbaijão. Israel está a ponderar a ideia de um gasoduto. Uma queda na procura terá um impacto negativo significativo na balança comercial e de fato no rublo.

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