E depois do (último) adeus | por Joana Pereira Bastos | in Jornal Expresso

Onze dias depois da sua morte, Isabel II foi ontem finalmente a enterrar. Com o sentimento de que terminou uma era, largos milhares de pessoas encheram as ruas de Londres para acompanhar ao vivo o longo cortejo fúnebre, assistido à distância por milhões de espectadores em todo o mundo, naquele que já é considerado o maior evento mediático das últimas décadas.

Politicamente, a última despedida da soberana com o segundo reinado mais longo da História, só atrás de Luís XIV, transformou-se num “fórum mundial” que contou com mais de 70 chefes de Estado – entre os quais Marcelo Rebelo de Sousa – e 400 altos dignitários estrangeiros, numa cerimónia recheada de recados de peso para a geopolítica global.

Após o velório público no Parlamento, o corpo da monarca seguiu numa carruagem, já usada no funeral do pai, Jorge VI, e do avô, Eduardo VII, para a Abadia de Westminster, a mesma onde há 70 anos foi coroada e onde o filho, já proclamado Rei Carlos III, virá a sê-lo, no próximo ano.


Em Monarquia o simbolismo é tudo. E simbólico foi também o destaque dado à presença dos dois bisnetos mais velhos da Rainha, filhos de William, agora herdeiro da coroa. George, de 9 anos, que um dia se espera vir a ser Rei, e Charlotte, de 7, a terceira na linha de sucessão, acompanharam a pé a entrada e a saída do caixão para deixar claro um sinal de continuidade.

A sucessão, automática, já é consumada no hino. Depois de sete décadas a cantar “God Save The Queen”, a canção nacional fechou a cerimónia fúnebre já com a letra adaptada. “God Save the King”, entoou-se em Westminster.

Mas ainda que a Coroa se perpetue, dificilmente alguma coisa será como dantes. Apesar da enorme manifestação de apoio à Monarquia, expressa nos últimos dias pela maciça adesão popular às cerimónias fúnebres da Rainha, os sinais de desconforto com o regime têm vindo a crescer, sobretudo entre os mais jovensEm apenas dois anos, a percentagem de britânicos entre os 18 e os 24 que preferiam ter um chefe de Estado eleito subiu de 26% para 41%.

A vontade de mudança é ainda mais notória nas antigas colónias do Império britânico que continuam a ter como chefe de Estado o monarca do Reino Unido e onde estão longe de estar saradas as feridas deixadas pela exploração colonial. No final do ano passado, a ilha de Barbados fez-se República, reduzindo de 16 para 15 os países chefiados pela Coroa britânica. E já depois da morte de Isabel II, outros pequenos países anunciaram a intenção de seguir o mesmo caminho. O debate tem vindo também a ganhar força na Nova Zelândia e na Austrália, onde o atual Governo até tem um ministro com a pasta da “transição para a República”.

Com a morte de Isabel II, que gozava de um respeito e reverência que dificilmente o filho reunirá, é provável que a questão venha a estar, mais do que nunca, em cima da mesa, até no interior do Reino Unido, ameaçado pelo crescimento do sentimento independentista na Escócia.

Depois do último adeus à soberana, muitos tenderão a ver o fim desta era como a oportunidade natural para uma nova História. Resta saber se à Rainha que viu desfazer-se o Império vai seguir-se o Rei que assistirá ao fim do regime e à dissolução do próprio Reino Unido.

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