A inutilidade da voz  |  Avanti popolo! | Carlos Matos Gomes

A Itália é reconhecida pelos seus cantores, clássicos e ligeiros, tenores, sopranos, meio sopranos, baixos.

A voz dos italianos e italianas brilha no canto, nas artes mas não brilha na política. A voz dos italianos não conta para a definição da política de Itália, da definição do papel da Itália na Europa e no Mundo.

No caso da política, a bela voz dos italianos vale tanto como a péssima voz (para mim) dos checos, ou eslovenos, ou neerlandeses, ou bascos. Não vale nada.

As eleições de amanhã em Itália são a prova de que a voz dos italianos, como a dos restantes europeus não tem qualquer valor. O governo italiano anterior caiu, como caíram dezenas desde o final da Segunda Guerra, e nada se alterou. Os italianos falaram, cantaram, votaram, mas quem determinou o que a Itália ia ser, quem determinou os negócios que gerariam fortunas, foram os banqueiros de Wall Street, os mafiosos da Sicília, os camorros de Nápoles, os industriais de Milão. Os italianos cantam, mas apenas lhes batem palmas, quanto ao resto seguem-se os negócios do costume.

E foi assim que, cantando e comendo massa, os italianos viram nascer um inútil e caríssimo aeroporto intercontinental em Malpensa/Milão, construído por interesse da aliança das mafias da Liga do Norte e da Sicília e viram um comediante antecessor de Zelenski, um velho canastrão como Berllusconi ser primeiro ministro para tratar de negócios, como Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasile agora Zelenski na Ucrânia.

A Itália dos surdos que não ouvem os seus cantores é o paradigma da orgia , dos bacanais em que se transformaram as ditas democracias europeias. Os povos cantam, bem ou mal, e os empresários das óperas mais ou menos bufas, dos coliseus e senados, mandam-lhes os filhos para guerras de que nem se dignam apresentar uma causa séria, que ultrapasse a que explica a vinda dos meninos no bico de uma cegonha. Vão, sem explicação, os adultos para o desemprego, as mães para as filas de supermercados e os velhos para asilos. Os jovens conduzem tuk-tuks ou motoretas com uma mochila de pizas e arroz chau-chau às costas, pagos a um euro por ração entregue ao domicilio. Gentes das cidades vêm-se expulsas das casas, gentes dos campos restam entre ruínas.

Parece que as sondagens dão a vantagem a uma senhora que aproveitou as receitas de Mussolini e os italianos continuam a cantar e a dar à manivela dos gramofones. O que fizeram os governantes anteriores perante o canto dos italianos? Enriqueceram, foram a Bruxelas, a Washington, mandaram um professor de economia formado nos Estados Unidos administrar o Banco Central Europeu, que em princípio tinha por missão desenvolver uma moeda que competisse com o dólar! Bela graça! E depois este foi nomeado chefe de governo, sem eleições, como já tinha acontecido com uma senhora inglesa — Theresa May, substituída por outro paraquedista sem coro nem decoro, Boris Johnson, e agora sucedido por uma antiga republicana convertida ao radicalismo bélico.

Os anteriores governos de Itália, como os da França, da Espanha, de Portugal, da antiga Holanda e da nova Chéquia não ouvem os povos cantar. E, sendo deliberadamente surdos, ou entendendo que os povos estão alegres e divertidos quando enfrentam os preços nas prateleiras, quando vêm os salários oferecidos a diplomados ao nível de um sem-abrigo, ou, pior, tomando os povos por estúpidos quando lhes metem verdades pela goela abaixo, como aos gansos.

Os “democráticos” políticos italianos, não escutando as vozes “avanti popolo” que há anos os avisa , surgem gora preocupados com a possibilidade de uma ragazza sem peias dizer o que o povo quer ouvir — prometendo aos pobres serem ricos, aos ricos serem mais ricos, afogar os emigrantes, marimbar-se para a senhora literalmente aparecida numa azinheira em Bruxelas, e que anda desde Fevereiro passado a garantir aos pobres de espirito — nós — que isto de os europeus terem desenvolvido um sistema industrial sem energia nem matérias-primas é um milagre alemão, que ela promete repetir aos pastorinhos, após o corte do gás russo e das suas matérias-primas.

De facto, o milagre alemão (os milagres) foram o resultado das ideias friamente racionais de um senhor a alemão chamado Bismark, que convocou uma Conferencia em Berlim (1884/5) para os europeus irem a África sacar a energia e matérias-primas para sustentar o desenvolvimento e a boa vida dos europeus.

A senhora de jaqueta amarela e saiote azul nunca ouviu falar de colonialismo, mas promete sempre mais armas e mais sanções para castigar a Rússia às labaredas do Inferno. Bismark, muito mais sábio que a senhora Úrsula van der Leyen, não acreditou que seria possível industrializar a Europa sem energia nem matérias-primas. Mas a inevitabilidade de ser necessário energia barata e matérias-primas em quantidade para os europeus viverem na abundância em que vivem custou duas guerras mundiais e uma guerra quase eterna em África e na Asia. Não há milagres. Os povos têm de saber de onde lhes vem o que lhes assegura a existência e o seu modo de vida. São os povos que têm de decidir os sacrifícios que estão dispostos a suportar.

As eleições em Itália têm pois a única importância de revelar a irrelevância da vontade popular nos regimes que saíram da Segunda Guerra. Se nenhum político entendeu ser importante explicar aos cidadãos que o dinheiro que utiliza para comprar uma pizza ou uma bifana não tem qualquer valor real, que é fruto da imposição de um monopólio da reserva federal americana (FED) e que o sistema se baseia no truque inventado por Sófocles, um filósofo grego, há mais de dois mil anos, de substituir a prata dos dracmas por cobre, continuando os dracmas a valer como se fossem de prata.

Já agora, façam a experiência e perguntem ao ministério (mais mistério) das finanças o que é o fractional reserve lending, ou “empréstimo sem cobertura de um valor material”, o que significa emprestar mais dinheiro do que se tem em caixa e que é a a maior fraude de todos os tempos.

As eleições na Itália revelam que a voz dos europeus é tão escutada pelos seus dirigentes como a dos coreanos do norte e menos que os tenores do Scala de Milão. Mas dizem-nos que vivemos em democracia. Talvez. Pelo menos podemos escutar as árias de ópera que queremos, por enquanto e se não forem em russo. Claro.

Carlos Matos Gomes

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