Eduardo Fontes | a poesia como evocação da infância | por Adelto Gonçalves 

Poeta faz com versos nada herméticos uma viagem ao tempo da inocência

     I
            Para comemorar o centenário de seus pais, os poetas Humberto Pinheiro Fontes e Maria do Carmo Alencar Oliveira Fontes, ambos nascidos em 1917, o poeta cearense Eduardo Fontes lançou Devaneios (Fortaleza, Editora Expressão Gráfica, 2017), seu 17º livro, que traz prefácio de Anderson Braga Horta, da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, e ilustrações do artista plástico Descartes Gadelha. Poeta bastante conhecido no Nordeste, talvez porque em seus versos nada herméticos e extremamente líricos sempre se mostrou muito preocupado em exaltar suas origens, Fontes, mais uma vez, confirm a sua opção por uma simplicidade que faz evocar nos leitores os anônimos menestréis de tempos mais amenos.


            Como observa Braga Horta no prefácio, todas as qualidades de seus livros anteriores estão presentes nesta obra, especialmente a simplicidade, como o poeta cearense Francisco Carvalho (1927-2013) já havia ressaltado ao comentar Rua da Saudade (1998), destacando que Fontes “adota uma carpintaria extremamente simples na construção do vigamento de seus poemas, de tal forma que eles se nos apresentam com excepcional lucidez e transparência”. Um exemplo do que disseram estes poetas é o poema “Vozes celestiais”, que consta deste livro:
“Ouvi vozes celestiais / vindas do espaço: / – Delete a mágoa, / a desesperança, / a amargura! / Tudo o que nos desconjura! / Delete o coração duro, de pedra, / e abrace a ternura! / Delete o ódio, a vingança, / o ressentimento, / e crie uma página / no facebook da alma / para as virtudes do perdão / e da magnanimidade! / Jogue para a lixeira / todas as ofensas recebidas, / e olhe para o Alto / onde brilham os astros!…”


                                                           II
Devaneios é também uma espécie de resposta do poeta à idade que avança sobre todos nós, ou seja, o lamento de um tempo perdido que ele deixou de aproveitar por comedimento ou por excessiva obediência aos pais e aos avós, que também foram poetas. Por isso, não fica a dourar a vida vivida, antes prefere se deixar ferrar pelo cravo da nostalgia, como se pode constatar no poema “Mocidade” em que diz:
“Se moço fora / quantos erros teria evitado! / Quantos erros teria cometido! Quantas infrações, quantos pecados, / quantos mais, quantos mais! / Quanto mais teria enxovalhado / os fiscais da vida, / as comadres e seus compadrios! / Quanto mais teria protestado… / Uma parte de mim se foi / por medo do padre da freguesia, / do vizinho e do confrade… / E por isso metade de mim / deixei pelo caminho… / Podia ter aprontado mais, / bebido mais, / namorado mais, / e não ser o homem contido / em suas potencialidades! / Podia ter sido mais, / muito mais!”   
A infância é mesmo tema recorrente na obra de Eduardo Fontes, pois, afinal, é do silêncio de uma época que a poesia se alimenta, como observou o grande crítico e ensaísta português Eduardo Lourenço (1923-2020) em suas Obras Completas. Tempo e Poesia, vol. III (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2016, pág. 687), lembrando que “só a poesia revela aquilo mesmo que a própria ficção é obrigada a silenciar para existir”. Leia-se o poema “Crianças”:
“Amo as crianças / e sempre as amarei, / e me vejo nelas / em alguns instantes!… / Nos seus olhos, / na sua inocência, / na sua pureza! / Deus, quando nasceu, / se fez criança! / E não existe poeta / sem uma criança / escondida no seu eu!…”
A evocação da infância e, por conseguinte, da casa dos pais chega a ser mesmo uma marca especial na poesia de Fontes, como se comprova no poema “Devanear”, do qual saiu o próprio título da obra. Não constitui uma simples visão romântica, mas a representação de um sonho que parece persegui-lo e faz questão de lhe devolver ao tempo da inocência, como se pode ver no poema abaixo:
“Devanear é sentir / o enlevo das coisas, / sem buscar os porquês… / E deixa a alma livre, plainar, / como pássaro, no espaço! / Sentir o vento / a bater nas faces, / e a reger a orquestra / farfalhante das árvores! / Devanear / é trazer da casa paterna / a algaravia dos sons / que o tempo não sepultou!…”
                                                           III
            Bacharel em Direito e em Administração, Eduardo Fontes (1947) é autor de uma vintena de livros, entre os quais se destacam: Exaltação à vida (poesia, 1967); O alpinista (poesia, 1970); O Lagamar que eu conheci (ensaio, 1974); Vitrais (poesia, 1979); O teatro de Carlos Câmara (1982); As pouco lembradas igrejas de Fortaleza (história, Prêmio João Brígido, 1983); Pequena história do Tribunal de Contas do Ceará, em parceria com Antônio de Pádua Saraiva Câmara (1985); Cantos do outono (poesia, 1995); Rua da Saudade (poesia, 1998); Pelas mãos da poesia (2 000); Na esquina da vida (crônicas, 2007); Cancioneiro de mim (poesia, 2012)|; Último trem para Pasárgada (poesia, 2013); Relicário da saudade (poesia, 2014); O baile da palavras (poesia, 2015); e Ciranda poética (2018).
Membro fundador da Academia Fortalezense de Letras, participou do grupo Sin de Literatura que, na década de 1960, mexeu com o movimento artístico-cultural de Fortaleza. É cronista do Diário do Nordeste, de Fortaleza.
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Devaneios, de Eduardo Fontes, com prefácio de Anderson Braga Horta e capa e ilustrações de Descartes Gadelha. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 150 páginas, 2017. E-mail da editora: arte@expressaografica.com.br E-mail do autor: eduardohumbertofontes@gmail.com
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(*) Adelto Gonçalves é mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo-Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

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