A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos | Tiago Barbosa Ribeiro

A Revolução de Outubro de 1917 comemora 100 anos. Entre alocuções apologéticas e críticas anti-comunistas, há espaço para uma celebração simbólica e afectiva no campo das esquerdas – porque a Revolução é património das esquerdas – e há também espaço para uma fervilhante reflexividade em muitas iniciativas académicas e culturais que tenho visto ao longo dos últimos dias. É bom que assim seja.

A Revolução de Outubro, a «mãe» das revoluções, foi objectivamente o acontecimento mais marcante do século XX. O seu impacto mudou a geopolítica da Humanidade. Foi um «game changer» tão grande como a Revolução Francesa, em relação à qual falar do «grande terror» parece – porque é – um anacronismo face ao que significou no curso da história. Obviamente que a segunda revolução de 1917, a bolchevique, resultou de uma conjugação de factores e não da acção mitificada de um grupo de homens que muitos acasos poderiam não ter permitido. Mas permitiram: os acontecimentos do final do século XIX, as aprendizagens da Comuna de Paris, a «revolução» de 1905, a Primeira Guerra Mundial, a «guerra imperialista», o desequilíbrio entre o Governo Provisório e os Sovietes, em especial o de Petrogrado, o exílio bem sucedido de Lenine, a Revolução de Fevereiro, a acção resoluta dos bolcheviques na tomada de poder em Outubro (na realidade, Novembro), a teorização orgânica do marxismo por esse brilhante estratega político que foi Vladimir Ilitch Ulianov, Lenine, um grande conspirador, um operacional e um teórico da revolução operária.

A Rússia da época não tinha o «húmus» social que Marx e Engels previram para a insurreição proletária no fio do materialismo histórico: viam-na em países do capitalismo industrial avançado, em especial a Inglaterra e a Alemanha do Kaiser. Mas as coisas são o que são ela irrompeu naquele contexto histórico preciso, criando ondas de choque que perduraram e ainda perduram.

Na Rússia dos czares, um império que então ocupava 1/6 do planeta, com uma população analfabeta e pobre, foi possível derrubar uma dinastia opressora com 300 anos e abalar os alicerces – políticos, sociais, económicos, militares – do mundo moderno. Depois de uma das guerras civis mais sangrentas da história, os bolcheviques triunfaram e criaram o primeiro «Estado proletário» com a socialização efectiva dos meios de produção, servindo de «farol do socialismo» para experiências em todo o mundo. Em pouco tempo, a Rússia passou de um país-continente feudal para uma das maiores potências mundiais.

Não é possível postular como teria sido se Lenine não tivesse desaparecido precocemente ou se Trostky não tivesse sido assassinado. Talvez o PCUS não tivesse feito a «desestalinização» no seu famoso XX Congresso nem fosse necessário, mais tarde, derrubar uma Cortina de Ferro. Mas também não teríamos tido o Exército Vermelho a dar um contributo decisivo para a derrota dos nazis, só para dar um exemplo, nem tão pouco existiria uma URSS a exercer força gravitacional para o desenvolvimento dos Estados Sociais no Ocidente ou para a emancipação das velhas colónias europeias. Mesmo as dissidências «sessentistas» ou as revoluções dos trópicos, desalinhadas da burocracia mecânica do leste, não existiriam sem referência ao ideal fundador de 1917.

A história é o que é. Para lá de todas as disputas que o tempo presente ainda convoca, Outubro é uma das chaves do século XX e uma das marcas mais poderosas da história do movimento operário. Emancipadora, pois claro, no contexto que a permitiu e a consolidou. Celebre-se, pois.

Tiago Barbosa Ribeiro

Retirado do Facebook | Mural de Tiago Barbosa Ribeiro

PEC IV, dois anos depois | Tiago Barbosa Ribeiro

751079Foi há 2 anos que um grupo de dirigentes políticos impreparados, desgastados por sucessivas derrotas eleitorais e formatados num liberalismo doutrinário, viram no chumbo do PEC IV a possibilidade de precipitação de uma crise política. Com isso conseguiriam também obter cobertura externa para o seu programa, construindo uma poderosa narrativa que os desresponsabilizaria na crise.

O PEC IV não era um passe de mágica nem, tão pouco, inclua as medidas que o PSquisesse aplicar ou que fossem confortáveis para qualquer socialista: não eram. Não são. Eram, todavia e à época, as medidas possíveis de um Governo socialista isolado de uma economia periférica numa Europa guinada à direita, atravessando uma convulsão financeira mundial, com instrumentos limitados por uma integração monetária assimétrica.

O contexto nacional era de progressiva reorganização das forças financeiras e económicas, antecipando uma queda do Governo socialista minoritário. Pouco antes, desde 2008, com o estouro da desregulação mundial e a queda dos gigantes da finança norte-americana, a Comissão Europeia estimulava políticas expansionistas e de investimento público para combater a recessão – o que de facto foi conseguido -, agravando o défice e a dívida de todos os países europeus. A Alemanha, que viu nesta crise a oportunidade histórica de impor a sua hegemonia política e financeira na UE com pesados custos para o projecto europeu, rapidamente percebeu a oportunidade de fortalecer a sua economia estabelecendo os termos de troca nos restantes países e nas instituições europeias.

Desta forma, em relação a outros países, a excepção portuguesa foi a conjugação do pico da crise com a fragilização política do Governo de então, com um Presidente da República hostil e com a gula da banca pelas linhas de recapitalização de um programa de assistência, levando todos os principais banqueiros a uma inédita semana de entrevistas na televisão para forçar uma viragem política no país.

O PEC IV, de facto, permitiria o oxigénio possível até outras medidas por parte do BCE. Atendendo ao que entretanto sabemos de outros países, é bem provável que não tivéssemos chegado a um programa de assistência para toda a economia ou que as condições, nomeadamente de juros, tivessem sido mais vantajosas.

Dois anos volvidos, sabemos o que aconteceu. A direita não podia esperar e a esquerda à esquerda do PS, justiça seja feita, já tinha votado contra todos os anteriores PEC. O resultado foi a crise política e, com isso, a entrada definitiva de Portugal nos radares internacionais. O país foi despojado, os activos públicos foram vendidos a preço de saldo, os custos laborais baixaram pela via salarial, o desemprego disparou, o desespero grassa.

Portugal mergulhou numa tragédia económica e social sem fim à vista, os indicadores sociais recuaram décadas, temos o pior desempenho económico em 40 anos. As ideias dos que nos trouxeram até aqui estão enterradas, mas os resultados das suas políticas vão perdurar décadas.

Só poderemos virar esta página quando percebermos que o que estamos a viver resulta de opções políticas concretas, de programas, de doutrinas, de ideologia, e que o combate pela mudança faz-se também pela consciência muito clara dos momentos e atitudes que definiram a nossa história recente. Na altura, o Secretário-Geral da OCDE afirmava que «no caso de Portugal é sobretudo um problema político auto-infligido». Os números são indesmentíveis:

É por isso que o chumbo do PEC IV é um dos momentos mais marcantes da história portuguesa contemporânea que, por razões diversas, muitos querem ignorar. Infelizmente, quanto mais tempo passa, mais percebemos a sua importância para a definição do nosso futuro colectivo.

http://oportugalfuturo.blogspot.pt/2013/03/pec-iv-dois-anos-depois.html … (FONTE)