A Terra é como a bolacha Maria? | Francisco Louçã

Imagine um mundo plano com apenas duas dimensões, Flatland, no qual triângulos, quadrados, pentágonos e outras figuras geométricas vivem e se movimentam. Este mundo é-nos apresentado pelo Quadrado, que um dia sonha que visita um mundo unidimensional, Lineland, que é habitado por pontos brilhantes. Estes não conseguem ver o Quadrado senão como um conjunto de pontos e linhas, e o Quadrado ressente-se desta imagem de si, porque sabe não corresponder ao que é na realidade. E é então que começam os problemas.

Afinal são três

Um dia, Flatland é visitada pela Esfera, uma habitante de Spaceland, um mundo tridimensional. A reação dos habitantes de Flatland foi semelhante à da dos de Lineland. Tal como os pontos brilhantes só conseguiam ver o Quadrado como um conjunto de pontos e linhas, também os habitantes de Flatland só conseguem ver a Esfera como um círculo. A Esfera, orgulhosa da sua tridimensionalidade, salta para cima e para baixo, de modo a que se consiga ver o círculo a expandir e a retrair e fique assim demonstrada a existência de uma terceira dimensão. Os líderes de Flatland reconhecem secretamente a existência da Esfera, mas decidem perseguir os divulgadores da notícia. O Quadrado, convertido à tridimensionalidade, tenta convencer a Esfera da hipótese da existência de uma quarta dimensão, caindo em desgraça aos seus olhos, que são incapazes de ver para além do que percecionam. O Quadrado tem, entretanto, outro sonho, no qual a Esfera o visita e lhe apresenta Pointland, um mundo adimensional composto por um único ponto. Ao contrário de Lineland, Flatland e Spaceland, onde, apesar das tensões e hierarquias, existem sociedades, em Pointland tal não é possível, porque existe apenas um habitante – o rei –, que vive preso num universo confinado a um ponto e acredita ser infinito e a única realidade existente.
Esta é, resumidamente, a deliciosa história de Flatland – O Mundo Plano, uma aventura matemática escrita por Edwin Abbott em 1884, que é um retrato mordaz da sociedade vitoriana, satirizando ditaduras e várias formas de censura, mas onde também explica conceitos físicos e matemáticos complexos.

Entra a bolacha Maria

Porquê falar em Flatland mais de 130 anos após a sua publicação?, há de estar a perguntar-se. Porque reparei que Samuel Rowbotham, figura central do terraplanismo, morreu precisamente no ano de publicação do livro. E porque, apesar de publicado em 1884, Flatland parecer uma alegoria dos tempos em que vivemos, onde diversas formas de obscurantismo e negacionismo científico animam demasiadas pessoas.
O terraplanismo é um movimento cuja tese fundamental é a alegação de que a Terra é plana e não esférica. Se não espanta que esta teoria tenha tido algum crédito em tempos remotos, apesar de a Escola Pitagórica, no séc. VI a.e.c., já especular sobre a possibilidade de a Terra ser redonda, apesar dos cálculos da circunferência da Terra de Eratóstenes no séc. III a.e.c., torna-se difícil aceitá-la depois de Copérnico, Galileu ou Fernão de Magalhães. A primeira viagem de circum-navegação foi há 500 anos e consta que, chegados ao Estreito de Magalhães, os navegadores não se despencaram no vazio, antes descobriram a passagem entre o Atlântico e o Pacífico.
Apesar de a ciência explicar a esfericidade da Terra, o que leva então estas pessoas a duvidar? Várias motivações terraplanistas têm origem religiosa. A tal motivação junta-se a ignorância e o senso comum. Se as pessoas na Austrália não estão penduradas pelos calcanhares é porque a Terra é plana e não esférica, como é bom de ver! Mas a teoria da conspiração é o que alimenta verdadeiramente o terraplanismo. Todas as descobertas e evidências científicas são, para os terraplanistas, fabricações. Os humanos nunca foram à Lua, Apollo 11 nunca existiu, as imagens foram produzidas por estúdios de Hollywood. A vista de satélite que mostra a esfericidade do Planeta Azul é manipulada. A Terra é fixa, estacionária e plana, o sol e a lua estão dentro da nossa atmosfera, por cima estão os outros planetas, e as estrelas e o espaço, na realidade, são apenas água.

A política também é plana

Tudo isto poderia ficar arrumado no reino da comicidade, não fosse revelar uma inclinação dos tempos em que vivemos, nos quais os obscurantismos parecem querer reordenar o mundo conhecido. E esta disponibilidade para acreditar em conspirações de unicórnios é preocupante, porque alimenta posicionamentos negacionistas da história e da ciência. As teorias da conspiração sempre existiram porque sempre houve quem com elas beneficiasse. O truque é primário, mas funciona. Primeiro, instala-se a dúvida e encontram-se bodes expiatórios, depois, reescreve-se a história de acordo com as próprias necessidades.
Em maio de 2019, Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro que se instalou nos Estados Unidos, tuitava: “Não estudei o assunto da terra plana. Só assisti a uns vídeos que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute”. Em novembro do mesmo ano, entusiasmados pelo interesse do guru, reuniu-se a primeira convenção brasileira sobre terraplanismo. Olavo de Carvalho não estudou muitos outros assuntos, mas de que vale o estudo perante a força esmagadora de “uns vídeos”? Provavelmente, Olavo de Carvalho também viu uns vídeos ou leu algum blogue sobre nazismo, porque não se cansa de afirmar que este era um movimento de esquerda.
O terraplanismo vai muito além da crença de que o planeta tem a forma de bolacha Maria, representa uma renúncia aos consensos históricos construídos com base na ciência e à racionalidade como instrumento de interpretação do mundo. Os terraplanistas comportam-se como o ponto de Pointland, que não pode aceitar as várias dimensões do mundo. É como se recusassem livrar-se dos grilhões, saindo da caverna de Platão para viver a realidade. O problema é que o caminho terraplanista insiste em trocar a realidade pelas sombras projetadas na parede. Por mais que as ideias que escapam à perceção sensorial possam ser explicadas e demonstradas, a racionalidade não é linguagem que colha nos meios obscurantistas. E disto se faz, queiramos ou não, uma parte do lado sinistro da cultura moderna. Pedem-nos que reduzamos o conhecimento a uma espécie de culto religioso, com a sua hierarquia e devoção. Mesmo que seja para venerar uma bolacha chata.

Francisco Louçã

Retirado do Facebook | Mural de Francisco Louçã

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