Foi Nietzsche quem celebrizou a expressão “Deus está morto!” | Frederico Duarte Carvalho in Facebook

Querido Tiago,

Foi Nietzsche quem celebrizou a expressão “Deus está morto!”. E sabe-se que, quando o filósofo morreu, escreveram nas paredes da cidade “Nietzsche está morto! Assinado: Deus”. Agora, digo-te: Nietzsche e Deus estão mortos, mas nós ainda não. A diferença é que podemos ler Nietzsche, mas ele nunca nos leu nem o vai fazer. Estamos condenados a repetir gestos e palavras, condenados a sofrer porque ousámos cometer o mesmo erro dos homens livres: amar a vida. E não preciso da autorização de Deus para amar o quer que seja, para ser pleno, para ousar e errar. Tenho demasiada experiência para ter agora de andar a pedir licença para escrever o que me apetece, quando apetece. Tenho pouco tempo a perder porque sei que ainda tenho muito para conhecer, viajar e aprender. É precisamente isso que me dita a experiência.

Ao meu filho, já o proibi de crescer, mas ele insiste e diz que não pode fazer nada para evitar. Que é a ordem natural das coisas, responde com um sorriso. Em 2006 publiquei o livro “Abril Sangrento” (Edições Polvo, 2006), uma distopia sobre como seria Portugal caso o 25 de Abril tivesse degenerado num golpe militar sangrento, com o massacre de todos que estavam no Largo do Carmo. O personagem principal era um jornalista, Sebastião Saraiva, um jovem de 22 anos, que trabalhava desde Setembro de 1993 no jornal “Lusitânia”, dirigido por João Soares e que tinha Pedro Santana Lopes como Editor. A dada altura, diz o jornalista: “A minha pouca experiência na altura (repito, tinha 22 anos apenas) levou-me a ter, ‘arrogantemente’, mais certezas do que dúvidas”. Perguntaram-me se era mesmo aquilo que queria escrever. Se não era o contrário: um jovem deve ter mais dúvidas do que certezas, não? Expliquei que era mesmo isso: temos mais certeza quando somos jovens do que quando temos mais experiência. Porquê? Ora, porque só com a experiência é que aprendemos a não ter certeza e isso só acontece depois dos enganos que temos em juventude.

E como corrigimos esses enganos? Com mais enganos, pois claro! Deus existe? Deus está-nos a ler? Sei lá. Mas, ele existe sequer? Chama-lhe o que quiseres: pó das estrelas, Grande Arquitecto do Universo, inspiração divina, instinto de sobrevivência, racionalidade. Ainda estou à espera que alguém me demonstre que o Ser Humano, por ser inteligente, é superior aos outros animais da Natureza. Acredito em extraterrestres? Sim, se aceitarem a minha ideia que os extraterrestres somos nós, aqueles cuja existência na Terra não se explica e andamos a destruir o Planeta do qual dependemos, precisamente graças à nossa “inteligência”.

Não, Tiago, Nietzsche nunca me vai ler. Mas, Deus sim. E o que lhe digo eu agora? Eu, que até nem sou um religioso praticante, constato que as igrejas estão fechadas e o Papa reza numa praça vazia. Por isso, tenho de perguntar filosoficamente: é esta a vontade de Deus? Qual é a Lei Natural do Grande Arquitecto do Universo neste momento? Segundo a vontade de Deus, devíamos crescer e multiplicar. Ora, isso é precisamente o que o vírus anda a fazer e ele nem sequer é considerado um “ser vivo”. É vontade de Deus que nos mantenhamos vivos, pelo que, segundo os homens de Leis, devemos abstermo-nos de sair à rua e de ir à Missa ou fazer procissões. É sensato e até Deus concorda, já que a vida humana é sagrada e que tudo o que for feito para a preservar, está certo. Mesmo não cumprindo com o mandamento de ir à missa no Domingo, podemos ver a missa na Internet e rezar em casa. Deus aceita isso. Só que, morrer da cura será preferível a morrer da doença? É isso que Deus quer também? No fundo, por muito que a vida humana seja preservada, “Ele” acaba sempre por nos chamar e isso não tem hora. É quando quer.

Os cemitérios estão cheios de mensagens a dizer que Deus chamou determinada pessoa para junto de si demasiado cedo. Isso é faltar ao respeito ao Ente que se diz acreditar, pois não foi demasiado cedo: foi quando achou que era a hora. Porque, se acreditas em Deus, tens de aceitar isso. Só quem não acredita é que pode queixar-se da falta de “timing” do Destino. E o nosso destino é agora morrer. Se não pela doença, pela cura. Sem emprego, sem salário, com dívidas, à fome, de suicídio, acidentes em casa, aumento da pressão arterial e consequente ataque cardíaco agravado por condições de pré-obesidade, tudo provocado pela angústia dos anúncios televisivos do escalar das mortes do vírus.

Olha só, Tiago, se o mesmo critério jornalístico fosse adaptado aos números de acidentes nas estradas e mortes produzidas todos os dias. Com referência a pessoas que morrem com cancro e doenças coronárias? Olha só se, todos os dias, houvesse um directo sobre todas as mortes no País e soubéssemos quantas pessoas tinham morrido e de quê. E houvesse um gráfico actualizado ao fim da manhã e à noite. Aplicando o mesmo princípio do Estado de Emergência, as pessoas deixavam de ser autorizadas a andar de carro – excepto em viaturas de empresas e perfeitamente justificadas e conduzidas por profissionais do volante – e as cadeias de comida rápida tinham de fechar. Nunca a morte de um adolescente de Ovar provocou mais medo aos pais barricados em casa do que a morte de todos os primogénitos do Egipto. A morte só é feia quando a vemos, quando entra em casa. Se é a de outros, podemos acordar de manhã, fazer a barba, e irmos heroicamente fazer o “teletrabalho”, postar nas redes sociais fotos giras com #staythefuckhome, enquanto nos preparamos para ver mais uns filmes ao fim do dia. É preferível ir dilatando no tempo a morte dos outros. Como os empréstimos milagrosos que nos vão salvar nos próximos três meses e que nem daqui a 30 anos estarão pagos. É preferível isso ao risco de cair nas sondagens devido à quantidade de mortandade e de crematórios que estariam a funcionar. Seria mais fumo a juntar ao fumo dos incêndios que estão para chegar. Até amanhã.

Frederico Duarte Carvalho 

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Duarte Carvalho

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