Querido Tiago, o que é a Felicidade? | Frederico Duarte Carvalho

Querido Tiago,

O que é a Felicidade? Um chocolate quente na sala com a chuva a cair lá fora, por exemplo? As memórias de quando fomos felizes? Li uma vez, e achei um exagero, que um estudo defende que a memória mais duradoura nas células do cérebro é a dos cheiros. Até que, um dia, senti um cheiro que me fez recuar a um tempo em que eu deveria ter três anos e percebi que sim, esse estudo é capaz de estar certo. Sou como o Woody Allen quando diz que deveríamos viver a vida ao contrário. O judeu de Nova-Iorque é da opinião de que o dinheiro da reforma deveria ser para gastarmos enquanto somos novos e, no fim, podemos morrer com um orgasmo. Falas das corridas de F1 e ainda hoje li a notícia da morte do Sterling Moss, aos 90 anos, que disse que era feliz a fazer o que gostava e, ainda por cima, lhe pagavam para isso. Como sustenta o Herman José: o dinheiro não dá felicidade, mas manda ir buscar. Contava ainda o George Best, o futebolista genial do Manchester United, que todo o dinheiro que ganhou, gastou-o em mulheres e bebida. E o que lhe sobrou, gastou-o mal gasto.

Não quero ter recordações de quando fui feliz, pois, ao lembrar-me delas, sinto-me infeliz. Todos os dias busco a felicidade nas pequenas coisas da vida. E, sobretudo, em dar felicidade. Isso é o que me faz ser feliz. Falas do teu avô, das boas recordações e ainda do momento trágico em que soubeste da sua morte. Também poderia falar dos meus, das línguas-da-sogra que comia na Foz a ouvir um brasileiro a relatar o jogo nas Antas. Ou das tardes a ler BD em Francos. Ficam cá comigo. Ontem contei-te da felicidade que tive em passear numa Baixa do Porto deserta. Posso assim falar da felicidade que sinto em haver menos poluição no centro das cidades. Ao mesmo tempo, sinto uma enorme infelicidade em saber que este sentimento não vai durar muito porque as pessoas estão ansiosas em voltar ao “normal”. E não perceberam ainda que foi precisamente o “normal” que nos trouxe até aqui. E que é preciso mudar tudo. Mudar para sermos felizes. Temos de ter menos carros a poluir o mundo, as cidades devem ser do tamanho das pessoas e não com capacidade de as esmagar. Temos de criar mais cidades onde há campo, sustentáveis, integradas na Natureza. O Hundertwasser, o artista ecologista austríaco com uma casa-museu em Viena, tem lá os projectos de cidades coloridas, com jardins nos telhados, integradas na paisagem, com transportes fluídos e amigos do ambiente. É só aplicar o que já se sabe. Podemos povoar campos inteiros com pessoas felizes.

A “Utopia” de Thomas Moore tornada realidade, tal como o marinheiro português, Rafael, lhe contou. O paraíso na terra é possível, sem que seja forçosamente uma ideia apenas dos comunistas, mas de todo aquele que é um Ser Humano. Senão, para quê adiar o encontro com o Deus em que dizem acreditar? Ontem, depois do passeio pela Baixa, terminei o dia a ver um “feel good movie” – tradução: um filme especialmente concebido para nos fazer sentir particularmente felizes. Não foi porque precisasse de algo que me mantivesse o espírito dentro da felicidade conquistada, mas por simples curiosidade cinematográfica. Fiz uma pequena pausa na leitura de uma BD e estive a ver o filme “Campeones”, que venceu o Prémio Goya de melhor filme espanhol no ano passado, em 2019. Realizado por Javier Fesser, conta a história de um treinador-adjunto de uma equipa de basquetebol que, após ter discutido com o treinador principal e de ser expulso, bebe uns copos a mais, causa um acidente de viação contra uma viatura da polícia, e acaba condenado a prestar serviço comunitário. A juíza que o condenou era tia de um rapaz com síndroma de down e, com alguma visão pedagógica, acabou por indicar que ele deveria ir treinar uma equipa de deficientes intelectuais – não confundir com intelectuais deficientes. Já se está a imaginar a quantidade de piadas e de acção que a situação provocou e ainda de emoções com a participação de actores não profissionais, para chegarmos à conclusão de que, os doentes, somos nós, a grande maioria. Há uma cena, por exemplo, onde se diz que determinada pessoa classificada de deficiente intelectual nunca teve um acidente de trânsito, enquanto o treinador está precisamente ali porque teve um acidente. Escusado será dizer que a equipa vai jogar a final do campeonato. E que é um jogo em que qualquer um pode ganhar. E está o resultado indefinido até ao fim. E há então aquele momento em que a última bola pode decidir tudo e quando esta é lançada, filmada em câmara lenta, não entra no cesto! A sua equipa perdeu a final …

Então, o treinador vê algo que nunca esperava ver: os seus jogadores festejam com a mesma intensidade do que a equipa vencedora. A claque adversária grita pelo nome da sua outra equipa e todos, vencidos e vencedores, misturam-se numa celebração única. “Somos vice-campeões! Somos vice-campeões!”, gritam os seus jogadores, em enorme felicidade. E pergunta o treinador a um deles se é melhor ser vice-campeão do que campeão. E a resposta é esta tirada que deveria ser frase para imprimir e colar na parede: “Claro que é melhor ser vice-campeão! Preferes ser um marino ou um submarino?”. Que linda tirada! Sejamos submarinos nesta sociedade, Tiago! A Felicidade não está em sagrar-nos campeões como gritava o Freddy Mercury – sabe-se lá com que esforço. Não está em ter de vencer a todo o custo na vida. Está em ser um submarino. A navegar na profundidade dos dias, a apreciar um sorriso. Um olhar. Um dedo de pé, uma mão. Um gesto, uma frase. Sermos o submarino de uma sociedade, com olhar periscópico sobre a mesma. E navegar. Navegar é preciso. A Felicidade pode tudo o que quisermos, se o soubermos merecer. Pode ser, por exemplo, a sala de espera de um aeroporto e ela a sair da loja do “Duty Free”, com um sorriso para mim, e ouvirmos a chamada para a porta de embarque. É isso a felicidade. Abraço. Até amanhã.

Frederico Duarte Carvalho

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Duarte Carvalho

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