Voltar aos Evangelhos, dia após dia | Frederico Lourenço

Levado pela curiosidade e ajudado pela propensão poliglota com que tive a sorte de nascer, em 57 anos de vida já li muitos textos em várias línguas. Mas os quatro textos a que volto sempre são os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que leio todos os dias em grego e também nas luminosas traduções latinas conhecidas como «Vetus Latina» e «Vulgata» (no caso dos Evangelhos, «Vulgata» designa no fundo a «Vetus Latina» retocada por Jerónimo).

Por estranho que pareça, o facto de eu ter publicado uma tradução dos Evangelhos e de eles fazerem parte do meu quotidiano não trouxe o efeito que eu previa de familiaridade, muito menos o que eu receava de banalidade. Estes textos, que conheço de trás para a frente, nunca me são familiares, porque são todos os dias uma descoberta fulminante; e, em vez de o meu estudo operar um efeito de banalização, o que acontece é que estes textos se me tornam cada vez mais especiais, mais únicos – e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos, mais ambíguos, mais difíceis de entender.

Nos tempos em que eu dedicava a minha atenção prolongada à tragédia grega ou a Homero, era claro e palpável que, quanto mais eu estudava, mais eu compreendia os textos e a sua problemática. No caso dos Evangelhos, acontece o contrário: quanto mais os estudo, quanto mais os conheço por dentro, quanto mais tenho presente na minha cabeça qual é a lição do manuscrito X e a lição do manuscrito Y, quanto mais vou dominando alguns litros do oceano de bibliografia que ninguém consegue dominar, mais se afasta o horizonte da compreensão. São textos ao mesmo tempo abordáveis e inabordáveis, compreensíveis e incompreensíveis, dotados de uma estranha verosimilhança e de uma não menos estranha implausibilidade. Sendo textos que a teologia cristã lê como um bloco unitário, são, na realidade, quatro textos completamente diferentes. Isso aumenta o seu mistério e agudiza também a sua mensagem.

Quando eu estava a preparar para publicação o volume da minha tradução da Bíblia que contém os Evangelhos, reli um livro que já não lia desde a minha adolescência: o «Commentaire de l’Évangile» de Lanza del Vasto, um homem que marcou muito a minha vida. Sedento como eu estava de ler abordagens isentas aos Evangelhos, que propusessem uma análise sóbria daquilo que o texto realmente diz sem viés teológico, decepcionou-me o modo anti-académico e frontalmente católico com que Lanza del Vasto abordou estes textos. As piadinhas a chamar «insectos roedores» aos estudiosos que adoptam o método crítico-histórico pareceram-me infelizes, porque quem insulta e ridiculariza um adversário intelectual está a mostrar que não tem argumentos para contrapor.

No entanto, ultimamente tenho gostado de voltar a ler as reflexões de Lanza del Vasto porque, com a quilometragem que já tenho na leitura de bibliografia académica sobre os Evangelhos, já me dei conta de que não existem abordagens isentas de viés. Mesmo sem contarmos a bibliografia assumidamente católica e protestante, fica claro que também os universitários que querem escrever fora da caixa da religião imprimem inevitavelmente algum tipo de viés às suas análises, viés que, a meu ver, desfigura os seus livros e artigos como uma funda e repugnante cicatriz. Fica-se com a sensação de que só escreve sobre os Evangelhos quem já tem uma ideia feita sobre os Evangelhos, seja ela qual for (teológica, histórica, linguística, etc.): e essa pessoa, por muito que o tente ocultar, escreve de forma enviesada, para fazer coincidir o texto analisado com a ideia prévia sobre ele. O problema, que vejo com cada vez mais clareza, é que é um erro fundamental partir para a análise dos Evangelhos com qualquer ideia feita que seja. E é um erro ainda maior gastar energia, erudição e papel na insistência, isenta de imparcialidade, de que «é assim». Pasmo sempre como Hartwig Thyen se deu ao trabalho de escrever e publicar em 2015 um comentário com 796 páginas ao Evangelho de João com base na premissa de que cada palavra de João é um jogo intertextual com Mateus, Marcos e Lucas – quando bastou a P. Gardner-Smith em 1938 um livro de 100 páginas para mostrar (de forma admiravelmente isenta, calma e objectiva) que isso não é possível.

Viés por viés, parcialidade por parcialidade, ideia feita por ideia feita – então leiamos um pouco Lanza del Vasto. Podemos aceitar com ele, ou não, que os Evangelhos narrem a história da «Vérité incarnée», mas será pacífico aceitar que tudo o que é narrado nestes textos é um ensinamento (p. 40). Quanto a esse ensinamento:

«cabe-nos a nós tirar-lhe o significado, o qual nunca é explicado pelo narrador, por receio de perder o contacto do concreto e do valor da vida. É por isso que as cenas da vida de Jesus nos impactam os sentidos de modo tão vivo e nos tocam quase corporalmente. Mais do que uma narrativa, mais do que uma representação, é uma presença».

Mais à frente (p. 44), Lanza del Vasto diz que «Cristo fala-nos com uma voz de que não duvidamos porque, ouvindo-a pela primeira vez, reconhecemo-la».

Quanto ao texto literário dos Evangelhos – ou, como ele diz com o seu viés teológico, «do Evangelho» – «é tão belo e tão comovente porque nada tem de estético, porque não procura comover nem agradar».

Para Lanza del Vasto, os evangelistas produziram textos imbuídos de imparcialidade perfeita que os católicos não têm desvantagem em ler com parcialidade. Eu diria ao contrário: os Evangelhos são textos a cuja parcialidade devemos responder com uma leitura imparcial.

Se as minhas leituras dos Evangelhos me trouxeram alguma iluminação ao longo destes anos, eu diria para já que são duas:

1. Os Evangelhos não são textos iguais aos outros, porque (contrariamente a obras-primas como a Ilíada ou a Eneida) são textos cuja vocação seria mudar para melhor a vida humana na terra: porque (não obstante a história do cristianismo de conivência com regimes autocráticos, com a escravatura, com o colonialismo, com o anti-semitismo, com a opressão de mulheres e de homossexuais, etc. etc.) são textos que promovem a liberdade, a justiça e a paz e que criticam sem rodeios a desigualdade entre ricos e pobres e, ainda, a prática literalista e dogmática da religião («o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado»).

2. Os Evangelhos não são textos dotados de imparcialidade perfeita, porque não conseguem contar a vida de Jesus sem viés. Mesmo sem entrarmos no problema teológico das gradações oscilantes ao nível da sua cristologia explícita e implícita, há o desconcertante viés anti-judeu (como se Jesus não fosse judeu) que a leitura atenta dos quatro Evangelhos escancara. A maneira como os Evangelistas nos contam a história de Jesus traz água no bico. Por isso, parece-me aconselhável não acrescentarmos à parcialidade dos Evangelhos mais outro viés: o das nossas próprias parcialidades.

Termino dando a palavra a Lanza del Vasto (p. 40): «o Evangelista tem a sua motivação e a sua finalidade, bem clara e da qual não se afasta nem por uma linha: apresentar ao mundo este exemplo perfeito que só merece ser comemorado e pregar a revolução interior».

E com a ideia de «revolução interior» já podemos agradecer a Lanza del Vasto uma pista bem preciosa.

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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