O comentário mais antigo aos Evangelhos em latim | Frederico Lourenço

Em 2012, o latinista austríaco Lukas Dorfbauer fez uma descoberta sensacional no fundo de manuscritos da catedral de Colónia. Descobriu o mais antigo comentário aos Evangelhos em latim, que desaparecera de vista na época carolíngia. Escrito no século IV por Fortunaciano, bispo de Aquileia, este texto transporta-nos directamente para o cristianismo pré- e pós- constantiniano: «pré-» porque quando Fortunaciano nasceu, no início do século IV, o cristianismo era ainda uma religião ilegal, cujos adeptos a praticavam com risco de vida; «pós-» porque Fortunaciano teve a fortuna (quiçá plasmada no seu nome) de pertencer à geração que viveu com alegria a despenalização da fé cristã e se confrontou com a realidade surpreendente de um novo cristão no seu meio: o próprio imperador Constantino. Este supremo benfeitor da igreja (que não viu incompatibilidade entre ser cristão e mandar matar a mulher e o filho, entre muitas outras acções condenáveis à luz dos ensinamentos de Jesus) legou ao cristianismo uma tensão que até hoje não está resolvida: e essa tensão reside na permissibilidade de alguém se intitular cristão, e de ser incentivado nessa auto-percepção pela hierarquia esclesiástica (sobretudo se for rico e poderoso), sem precisar de pôr em prática quase nada do que Jesus ensinou. Penso muito em Constantino cada vez que vejo a corte de pastores evangélicos à volta de Trump e de Bolsonaro – e, para não batermos só nos evangélicos, não esqueçamos como os vários papas nunca deram a Pinochet, a Franco ou a Salazar motivo para auto-questionarem a sua identidade de bons católicos.

 

Mas adiante. Voltaremos mais abaixo a Fortunaciano e ao seu comentário aos Evangelhos, mas não sem que eu primeiro partilhe convosco uma fantasia que marcou muito a minha infância e adolescência, que consistia na ideia, frequentemente defendida pela minha mãe, de que o cristianismo sofrera uma espécie de degenerescência ao longo da história desde os «cristãos primitivos», como ela dizia, até à Roma dos papas que, por um lado, esbanjavam fortunas na ostentação bilionária da sua magnificência e, por outro, punham Giordano Bruno na fogueira. E, ouvindo a minha mãe, eu próprio fui fantasiando uma idade de ouro idealizada, que começara em vida de Jesus com aqueles e aquelas que tiveram a bem-aventurança de contactar directamente com o Mestre, de ouvir o som das suas palavras, ditas na própria voz de Cristo. Esses e essas tinham contemplado o rosto dele, tinham sentido as suas vidas avassaladoramente viradas ao contrário por causa daquela Presença. Sofreram o mais amargo dos desgostos quando ele foi crucificado, mas depois perceberam o alcance de tudo aquilo quando passaram a acreditar que ele ressuscitou. Só que essa primeira geração de cristãos passou; e vieram outras muito diferentes (isto na minha imaginação); veio São Paulo, que escreveu (como eu pensava e às vezes ainda penso) a perfeita «teologia do nonsense», tão divorciada das palavras de Jesus que não dava para entender a ligação entre uma coisa e outra; depois vieram outros (Tertulianos e Lactâncios e loucos – ainda que fascinantes – como Orígenes), sempre a complicar cada vez mais o que era tão simples nos Evangelhos. Mais tarde ainda, como golpe de misericórdia (assim o adolescente que eu era via a coisa), veio a conversão de Constantino; e o cristianismo perdeu (pensava eu) a sua autenticidade: de religião de perseguidos passou a ser a religião cujas igrejas se encheram de oportunistas. E depois este paradoxo: contavam-se cada vez mais cristãos (e cada vez mais cristãos ricos), mas cada vez menos contava que eles pusessem em prática os preceitos básicos de Jesus.

À medida que fui ficando mais velho, o estudo dos muitos textos diferentes que nos chegaram do cristianismo dos primeiros séculos veio necessariamente mudar a visão simplista que eu tinha em adolescente. Mas foi difícil largar a fantasia reconfortante de que os primeiros cristãos eram perfeitos, mesmo quando o que a História nos diz é que já estavam estilhaçados em grupos fanáticos que se digladiavam entre si, rotulando-se reciprocamente de heréticos, excluindo, dividindo, rejeitando e anatematizando, sem pinga (dir-se-ia) de amor cristão. Mas mesmo quando eu já era adulto e professor universitário, dava por mim a suspirar pela pureza primitiva dos primeiros cristãos perante o espectáculo pouco edificante de colegas, católicos praticantes, que investiam uma energia indefectível em fazerem a vida negra uns aos outros dentro da universidade. Como se os primeiros cristãos não tivessem feito o mesmo; e como se o comportamento actual do ser humano pudesse ser diferente do comportamento do ser humano há dois mil anos. Como se, em algum momento da sua História, o ser humano outra coisa fosse que não a coisa que é.

Tudo isto para dizer que quando li a notícia da descoberta de um comentário aos Evangelhos escrito no século IV – o mais antigo comentário em latim – todas as minhas fantasias despertaram de novo. Comecei logo a imaginar que este bispo de Aquileia (em cuja basílica ainda hoje se vêem mosaicos do tempo de Constantino) poderia ter preservado o «espírito puro» dos primeiros cristãos. Que o seu comentário nos permitiria fazer, de forma directa, uma viagem para o período logo após a despenalização do cristianismo, onde certamente (a minha cabeça já estava a sonhar) se intuiria ainda aquele espírito «autêntico».

Na realidade, o comentário de Fortunaciano aos Evangelhos proporciona essa viagem directa no tempo. E foi para mim uma viagem salutar, porque pôs o ponto final nas fantasias que me acompanham desde adolescente. O cristianismo que fica registado na «fotografia» oferecida pelo comentário aos Evangelhos de Fortunaciano não é um estado espiritual preferível ao que nos é dado sentir nas igrejas de hoje. Antes pelo contrário. Falando só pela igreja em que fui baptizado e educado – a católica – não tenho dúvida de que transmite hoje aos seus fiéis uma mensagem que é mais consentânea com a letra dos Evangelhos do que a interpretação questionável dessa letra que o bispo do século IV nos dá a ler.

Talvez o problema basilar na leitura que Fortunaciano faz dos Evangelhos seja justamente o facto de ele não se interessar pela letra, mas somente pelos sentidos que ele julga adivinhar por trás dessa letra. E é claro que a partir do momento em que a Escritura passa a ser um jogo de adivinhas baseado na convicção de que a verdadeira mensagem não está nas palavras que temos diante dos olhos, mas sim no sentido que se esconde atrás da letra, estão todas as portas abertas para uma leitura em que as obsessões e as manias de cada um serão projectadas na tela da interpretação livre em que os Evangelhos se tornaram.

Fortunaciano tem uma obsessão patente em cada página do seu comentário: trolar os judeus de todas as maneiras e feitios. «Pois quem será tão estúpido», pergunta o bispo de Aquileia no seu comentário a Mateus 7:26-27, «como o povo judeu, que sempre permanceceu na estupidez?» A vontade de fazer dos Evangelhos um panfleto anti-judeu leva Fortunaciano a uma leitura monocórdica: a «árvore má que produz fruto mau» é a sinagoga; qualquer leproso é o símbolo do povo judeu; a sogra doente de Pedro é a sinagoga, novamente; mas a estalagem onde não há lugar para José e Maria também é a sinagoga; os muitos endemoniados são os que praticam a religião judaica; o homem paralítico é o carácter do povo judeu («est persona populi Iudaici»); a mulher que sofre hemorragias é outro símbolo do judaísmo; o escravo a quem Pedro corta a orelha é «claramente» o símbolo do pecaminoso povo judeu («servus scilicet populi Iudaici peccatoris habet figuram»). Na inevitável abordagem à questão da virgindade de Maria, o bispo católico dá-se conta de que a alegada profecia de Isaías sobre a «virgem que conceberá e parturirá um filho» esbarra contra o problema de a palavra hebraica que as Bíblias grega e latina traduziram como «virgem» significar «mulher jovem». A explicação do bispo é curiosa: Isaías escrevera, de facto, «virgem», mas os judeus malvados alteraram a palavra do profeta, depois «restaurada» pela inspiração dos Septuaginta.

A par com estas interpretações que visam atacar judeus (e, também, outros cristãos, os «heréticos»), encontramos ideias bem desconcertantes. Salomé (propõe Fortunaciano) representa a igreja (sic!), que recebeu a cabeça de João Baptista que, por sua vez, simboliza a cabeça de Cristo (sic!). As fraldas do Menino Jesus são os povos gentios, futuros cristãos (é melhor nem pensarmos muito nas implicações desta imagem…).

O comentário ao Evangelho de João (escrito, segundo Fortunaciano, para «impor silêncio eterno aos heréticos») não está completo, mas podemos ler a interpretação deprimente que o bispo de Aquileia propõe para as bodas de Caná, que acontece «no terceiro dia» (portanto uma afirmação da Santíssima Trindade, extrapola este comentador sempre pronto para extrapolações). A boda não é interpretada como tendo um noivo e uma noiva, porque representa (diz ele) o casamento entre a igreja e o Espírito Santo. Falta o vinho, como se sabe. O que será esse vinho que faltou? Naturalmente, o povo judeu, «que sempre falhou completamente, consumido por malícia e por injustiça e por descrença». Os seis recipientes que Jesus manda encher de água são os cinco livros do Pentateuco mais os profetas (que Fortunaciano toma artificialmente como um só livro, para dar o número seis). Escusado será dizer que o mordomo referido no texto não é um mordomo, mas sim Tiago, primeiro bispo de Jerusalém (que Fortunaciano já designara antes como filho de José e da primeira mulher deste, dada a sua insistência na virgindade perpétua de Maria, negada, naturalmente, por judeus). Por seu lado, os empregados que estão a servir na boda são (na leitura do bispo) os apóstolos, interpretação que estraga a delicadeza daquilo que o texto realmente diz.

Não vou desdobrar os exemplos e, assim, salto já para a conclusão. Se um padre católico ou um pastor protestante de hoje exprimisse nas suas homilias interpretações dos Evangelhos como as que lemos no primeiro comentário latino que nos chegou destes textos basilares do cristianismo, penso que muitos cristãos nunca mais poriam os pés naquela igreja. O que é que isso nos diz? Ou, individualizando, o que é que isso me diz? Diz-me que a narrativa tão cara à minha mentalidade adolescente (de que após uma idade de ouro de pureza primitiva o cristianismo se foi afastando cada vez mais da sua «autenticidade») não passa de um conto de fadas. Os cristãos não eram melhores e depois foram-se tornando piores. E porquê? Porque em muitos aspectos podemos dizer que, hoje, o cristianismo apresenta um rosto bem mais positivo.

Por um lado, os cristãos já não dedicam a sua energia a perseguir e a queimar outros cristãos «heréticos»: convivem hoje com o facto de que há cristãos católicos, ortodoxos, protestantes, adventistas do sétimo dia, mórmons, testemunhas de Jeová e muitos outros. Não acredito que em alguma destas denominações se aproveite o episódio das Bodas de Caná para trolar o povo judeu.

Por outro lado, no que toca à leitura dos Evangelhos, muitos cristãos hoje perceberam que as palavras concretas do texto são mais ricas do que os significados arbitrários sugeridos pelo jogo de adivinhas que é a leitura alegórica. Porque não interpretar as Bodas de Caná, simplesmente, como bodas? Porque não aceitar que o vinho que faltou era vinho e que, na história narrada, o filho de Deus é alguém que está disposto a providenciar um vinho ainda melhor? E sobretudo: porque não aceitar aquilo que poderá ser o cerne do episódio das Bodas de Caná – o facto de o milagre ter passado despercebido aos convidados de alta classe e ao seu mordomo, mas não despercebido aos empregados que estavam a servir? Isso sim, dá que pensar.

Frederico Lourenço

Retirado do Facebook | Mural de Frederico Lourenço

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