Paulo Querido | Há ou não há uma “nova direita” a medrar em Portugal?

Há ou não há uma “nova direita” a medrar em Portugal? A questão é suscitada a partir da observação repetida de títulos e artigos de sites de informação e da discussão que já tem algum lastro no “meu” Facebook. A resposta simples é fácil de dar: nos últimos 12 anos foram criados seis partidos em Portugal e três deles são clara, inequivoca e declaradamente de direita, medida em que é correto afirmar que há “novos partidos de direita”, que em linguagem descuidada pode redundar em “nova direita”.

Uma bosta semiótica, portanto. Um partido novo não tem necessariamente propostas novas, que é o sentido procurado com profissionalismo pelos sites de informação. O que me leva à resposta complexa — que contudo tem uma formulação muito simples que preenche a dúvida: não. Não, não há.

É fácil passar de “ah e tal é descuidado mas é só para simplificar” para “desculpa mas é ilegítima essa formulação”. Basta comparar. Como ficará demonstrado nos parágrafos seguintes, os três partidos novos da direita distinguem-se muito claramente por não apresentarem ideias novas para as questões velhas, muito menos identificarem as questões e preocupações surgidas recentemente no espaço público, o que os outros três partidos novos fazem.

Este século, e concretamente nos últimos 12 anos, foram criados estes seis partidos:

Pessoas-Animais-Natureza, PAN, em 2009

Livre em 2014

Iniciativa Liberal, IL, em 2017

Aliança em 2018

Chega em 2019

Volt em 2019, a formalização portuguesa; o Volt pan-europeu nasceu em 2017

A arrumação dentro do quadro binário esquerda/direita é extremamente fácil para Chega, IL e Aliança. Todos se declaram de direita. No Parlamento os deputados do Chega e da IL tiveram comportamentos de direita votaram contra os orçamentos do Governo do PS.

Não há espaço para dúvidas quanto ao Livre. Não apenas por ter como fundador um político de esquerda e eleito em partidos de esquerda, também se declara de esquerda e no Parlamento viabilizou os orçamentos e por sistema as políticas do Governo, mesmo tendo a deputada eleita acabado por se desligar e ficar como independente.

Menos clara é a arrumação de PAN e Volt, mas de direita não são. O primeiro recusa a catalogação binária. E sendo certo que na Assembleia da República votou quase sempre ao lado dos partidos de esquerda, as suas linhas programáticas fogem realmente a uma catalogação. Contudo, em traços gerais e a benefício de conversa, é seguro colocar o PAN dentro do ideário da esquerda, a partir do centro-esquerda.

Do Volt não temos ainda uma prática na Assembleia. Da leitura do seu programa, contudo, ressaltam pontos que o podem situar no centro. Numa leitura pessoal, diria que o Volt vai do centro para a esquerda, sendo mais explícito que o PAN em matéria económica. Parece-me claramente social-democrata.

É quando chegamos às ideias, expressas nas propostas de lei, no espaço mediático e nos seus programas partidários e declarações de princípios e valores que se acentua o carácter velho dos novos partidos de direita.

O Chega preocupa-se em expurgar o marxismo da Constituição e refundar Portugal. Segregacionismo e redução dos direitos estão no seu mantra.

A IL também vê no socialismo um problema, proclama a supremacia do indivíduo e o liberalismo económico e social e elege a privatização de serviços do Estado como a sua luta principal.

O Aliança está em reformulação e não se encontra o seu programa. Proclama Personalismo, Liberalismo e Solidariedade na sua página do Facebook e a Wikipedia descreve-o como do centro-direita, preocupado com a fiscalidade (conservadorismo) e a economia (liberalismo). Tem vagas reminiscências nas ideologias expressas por pensadores católicos.

Por muito importante que sejam para uma parte da sociedade, nenhuma destas ideias é nova e nenhuma destas ideias é aplicada a questões novas. Nem sequer a imigração é uma questão nova.

O contraste com PAN, Livre e Volt não podia ser maior. O PAN colocou em cima do tabuleiro público um tema totalmente novo — a nossa relação jurídica e política com os animais e a natureza. E mais: no centro da sua ação estão as questões ecológicas prementes, matéria que não trouxe sozinho para a discussão, mas que é ainda um assunto classificável como “novo” em Portugal, com apenas um partido declaradamente ecológico (Os Verdes).

O Livre tem por grandes temas a ecologia e o europeísmo, sendo o primeiro partido federalista. A economia circular e o rendimento básico incondicional estão na linha da frente das suas ideias.

Além de ser um partido inovador na forma, com uma estrutura única europeia (razões jurídicas forçam a legalização por países), o Volt persegue o desenvolvimento sustentável e a transição climática. Formula uma política nuclear para a Europa, aborda as migrações com um quadro de ideias novas e tem uma política externa, nomeadamente para as relações do bloco europeu com a China.

Creio ter ficado bem expresso que não, não há uma “nova direita” em Portugal. Infelizmente, os novos partidos de direita não trouxeram ideias novas nem propostas novas nem suscitaram questões novas. Só algumas caras novas — e viva o velho.

Ao lado do tema da direita, mas não muito: tenho dito e vou repetir mais vezes que o PSD só volta a ser viável como partido de Governo se encontrar abordagens e narrativas novas para as questões atuais, sendo crucial o pacote relacionado com o clima (ecologia, ambiente, sustentabilidade, migrações), a energia e o digital.

Teoricamente, isso pode ser feito de dentro para fora. Mas não conheço (nunca li, nunca vi uma referência) uma única personalidade ligada ao PSD com ideias para atacar o pacote crucial. Resta uma alternativa: procurar pontes com os partidos que as têm. Em concreto: Rui Rio ganhava em estudar eventuais formar de se aproximar do PAN, do Volt e até do Livre, em vez de andar a perder tempo com o Chega, que só trouxe, traz e trará prejuízo ao PSD.

Por mim, encolho os ombros. O PSD não (me) faz falta nenhuma, na verdade. O sistema partidário português contém, já em germinação, as sementes para o equilíbrio sem o PSD no centro: a ocupação total do centro pelo PS com a compensação à esquerda pelo BE será a via encontrada pelo eleitorado.

E por falar em PSD: o antigo grande partido autárquico é hoje um anão a rapar o tacho da popularidade de cromos televisivos duvidosos. Dos barões às cenas tristes.

Paulo Querido

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