NOBRE POVO? | Daniel Oliveira in Jornal Expresso

Abaixo-assinados para defenestrar juízes, a “perplexidade” que a PGR compreende quando não se dirige ao trabalho do Ministério Público, os discursos dos televangelistas da indignação… Tudo é atribuído a uma reforçada exigência cívica.

Vou arriscar: a desilusão da maio­ria das pessoas com a democracia não tem nada a ver com a corrupção, tão antiga como o poder.

Vem quase sempre das condições de vida que ela devolve. Entre muitas razões complexas e nenhuma delas moral, a crise da democracia resulta de vivermos num tempo em que sabemos que o futuro será pior do que o passado. A corrupção até é mais visível, porque a combatemos melhor. Nenhuma república das bananas julga um ex-primeiro-ministro do partido no poder. E desde que Sócrates terá cometido os crimes de que vem acusado evoluiu-se: os prazos de prescrição são mais dilatados e há novos crimes na lei. Há muito a fazer, e não é só na justiça e na política. Também é connosco.

Falemos de um homem que entrou num tribunal acusado de corrupção e saiu de lá com os crimes de branqueamento de capitais e fraude fiscal. Que beneficiou da leitura da prescrição dos crimes de corrupção que o Ministério Público contesta. Não vou contar a sua aventura com a justiça, porque durou uma década. Com todos os recursos e incidentes possíveis. Não, não estou a falar de José Sócrates. Estou a falar de Isaltino Morais. Com ele, não precisamos de usar o “alegadamente”. Foi condenado em todas as instâncias possíveis. Quando perdeu o mandato, fez uma lista independente liderada pelo seu vice. Venceu. A festa passou pela prisão, para ele a ouvir da sua cela. Nunca pediu desculpas, exigiu-as. E quando saiu da prisão, correu com quem lhe guardou o lugar e voltou a vencer as eleições no concelho mais instruído do país. Quem condenou Isaltino há de olhar com espanto para a reprimenda que o povo deu à justiça com o seu voto. O PSD namora-o e Suzana Garcia, justiceira dos programas da manhã, diz que é o seu autarca modelo.

O mesmo povo que justamente se indigna com Sócrates vota uma e outra vez em Isaltino. Sabem o que ele é, mas dá-lhes alguma coisa em troca, enquanto Sócrates era primeiro-ministro quando tivemos uma bancarrota. A ética não é para aqui chamada. Nem a exigência democrática. E tanto não é que muitos dos indignados vão a correr votar em Ventura. Não são pobres vítimas do engodo. Tirando uns fanáticos, a maioria topa-o a léguas. Só acha que aquilo resulta para chatear quem querem cha­tear. Assim como acham que Isaltino pode ser o que sempre foi enquanto Oeiras prosperar.

Raramente a ética determinou a história, poucas vezes determinou os políticos, quase nunca determinou o voto. Eu sei que é confortável pensar que os políticos desonestos vêm de outro lado qualquer e não do povo de que se servem. Porque o povo não presta? Seria tão estúpido dizê-lo como dizer que é um povo honrado servido por má gente. O povo são pessoas. Uma minoria quase sempre corrompida, outra minoria quase sempre virtuosa e uma maioria que cai para um lado ou para o outro conforme as possibilidades e as necessidades.

Quando é exigente, nenhuma nação é governada por patifes. Disso tenho a certeza. Antes de pedirmos aos tribunais que façam o nosso trabalho, sejamos tão exigentes com o nosso voto como gostaríamos que os políticos fossem com o nosso dinheiro.

Daniel Oliveira

Expresso, 16.04.2021

Retirado do Facebook | Mural de Carlos Fino

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