O ABRAÇO DO PRIOLO | Almeida Maia

No primeiro dia, meti-me em frente à casa deles. Um telhado igual a barro verdoengo e bastante inclinado, com duas chaminés, janelas altas e madeiradas, tábuas brancas ao comprido e a porta azulada com o batente em ouro velho. Havia um alpendre à americana com cadeira de baloiço, um cepo a servir de mesa, vasos semeados de brincos-de-princesa e marias-sem-vergonha, quatro degraus e a relva. Verdecia em toda a volta.

Tive tempo de apreciar o grulhar do frondoso plátano, a maior ramagem que alguma vez permeei. O bafejo morno descia o tronco velho, ramificava-se e espraiava-se pelo tapete fino, fazendo-o dançar em tufos. Só soube que tinha esperado em demasia quando uma nuvem revelou o azul e o caracol terminou a volta por cima da vedação.

Com mais estilo do que Fred Allen, ele andava de bicicleta, contrariando todos os hábitos das proximidades — nunca vi outros estradistas por ali. Antes de guinar, fez a campainha chilrear tal qual um melro-d’água a cortejar num dia nublado. Depois, subiu a rampa e desmontou em movimento, com uma classe igual à dos filmes. Trajava um fato brunido à ministro e parecia perfumado com ambição, mais do que água no bico.

A cortina da janela mais rés agitou-se, segundos antes de se abrir a porta. Saiu uma criança da metade do tamanho dele, dentro de um vestido ebúrneo, de alças leves e saia boleada. Trazia cabelos doirados e os pés desnudos. Ela correu-lhe para os braços, e enlaçaram-se de afetuosidade.

Gostava eu de saber o que é um abraço, mas as asas não se abraçam, e como não dou importância ao que não sei, não liguei. Mas havia qualquer coisa na beleza do momento, reconheci-o nas minhas penas. Palra-se que só os humanos sabem que morrerão, mas os pássaros também sentem medo.

O homem e a menina entraram, fecharam a porta, e a bicicleta ficou cá fora, na humidade — tal como eu vivo e durmo. Não vi o que sucedia lá dentro, se os abraços continuavam ou se tudo mudava.

À noitinha, eu costumava regressar, só para ver a janela de cima apagar-se. Deslembro-me de experimentar comoção, até porque as primeiras semanas não me combaliram muito. Todas as manhãs, vigiava-o a sair de bicicleta, pelo menos quando não chovia ou ameaçava um outono invernado, pois quando o céu chorava, ele ia de carocha. Todas as tardes, assistia ao seu retorno, aos abraços e às risadas. Quando a lua ficou cheia, descobri quem ali vivia: ele, a tal criança e uma mulher, porventura doméstica domesticada, mas bonita e arranjada.

Chegara o dia de conferir se a decência era mesmo real ou quimérica. Amanheci empolgado com o método que eu próprio forjara, de um cérebro mais ágil do que nalguns sapientes. Tinha chovido toda a noite, eu vivera-o — e era óbvio, pelo regador de latão atestado, aonde fui chuchurrear. Como habitualmente, àquela hora, a janela da cozinha estava entreaberta. Asilei-me no lado de fora, benzi-me em nome de Hórus, de Penates e da Pomba Branca, e pus-me a escutar.

— Pai — garganteou a miúda. — À noitinha lês-me o livro que a mãe trouxe?

— Não sei. Tenho um discurso para escrever. Não tens trabalhos de casa?

Os talheres tilintaram, um prato descaiu na pia e a torneira abriu-se. Depois de a água encher um tacho, a mãe sussurrou:

— Não achas que devias passar mais tempo com a tua filha? Sempre ansiosa que chegues, a contar as horas… Dar-lhe beijos quando ela dorme não a faz sentir-se amada.

— Não me dês lições — corvejou ele. — Sou o sustento da casa. Sabes muito bem que a minha profissão é exigente. Se eu não me dedicar, o dia de gozarmos a felicidade nunca vai chegar.

A palha d’aço coçou-se no vidro.

— Mãe, não quero mais…

— Pronto, filha — serenou a mulher. — Vai lavar os dentes. Daqui a pouco vamos para a escola.

Ouvi mais loiça a retinir e a torneira a cessar funções. Depois da quietude, a janela fechou-se num estrondo que me fez esvoaçar de susto! Privado das vozes deles, subi para camadas mais arejadas. Afinal, os abraços nem sempre são de amor e o amor nem sempre é de abraços. Um abraço pode ser solitário.

Noutro dia qualquer, o portão da garagem abriu-se, chiando e tremelicando como se avisasse que estava a morrer. O homem brotou, bem-posto e de gravata, em cima da bicicleta. Resolvi persegui-lo até onde fosse. Sobrevoei copas verde-lima, plátanos e criptomérias, cedros e araucárias de outros matizes, com a brisa a despentear-me as asas. Ele, diminuído, lá em baixo, equilibrando-se nas vielas e passeios, por entre carros e transeuntes. Após o aglomerado de vivendas, vieram manchas de telhados nervurados, aqui e acolá, na cor laranja do desgaste, edifícios esbranquiçados com pinceladas de basalto, ruas delgadas de paralelepípedos enviesados.

Sobre a esquina do oleiro que vendia bananas, atravessou-se-me um pombo em voo desafável, de mau agouro, como se lhe pertencesse aquele pedaço de céu. Ofereci-lhe um olhar desafiante, convencido de que seria capaz de bicar-lhe a arrogância, mas esbanjaria demasiado sopro.

Enquanto afastava a ideia, surgiu um edifício imponente, cheio de pilares gordos e brancos. No estacionamento, o ciclista agrilhoou o transporte de duas rodas, ajeitou o casaco e subiu a escadaria, rumo à entrada.

Baixei a altitude e fui atrás, pela porta alta, apesar de um homem vestido de negro, boné e bastão olhar-me de viés. Esquivei-me, conquistei o paço interior e vi um corredor amplo, com paredes claras e solo de madeira cheirosa. Mantive-me perto da abóbada, nas alturas, que é onde pertenço. Ele entrou para uma sala central do edifício, uma divisão imensa, em formato de quarto minguante, com desenhos no chão e lugares virados para um estrado central. Havia muita luz e espaço para esvoaçar, mas senti um peso nas gavinhas; pousei num canto com boa vista. Chegava gente em rebanhos, ocupando os assentos no semicírculo.

Ele alisou o colarinho e destacou-se no palanque, antes de testar o som e clarear a garganta. Começou por cumprimentar os presentes, introduziu um tema geral e foi aguçando a voz, afunilando os argumentos. Parecia uma questão séria, de vitória eminente, de levar a sociedade a percorrer novos caminhos, elevar-se a um novo patamar. Sob aquele teto de vidro, naquela acústica maviosa, tudo o que ele proferia atrás do microfone era ampliado: as verdades e as mentiras.

— Quando a terra treme, estamos juntos; quando o mar se agita, estamos juntos; e quando se faz silêncio… — o recinto inundou-se de compromisso, numa vaga apoteótica apenas permitida aos grandes oradores. — Muito obrigado! — completou, sabendo que tinha a plateia na mão.

O rebanho levantou-se e aplaudiu, uns de pé, outros em bicos, como pardais a cobiçar o milho. Era uma orquestra de estalos em cadências que, por vezes, se emparelhavam, por outras, se misturavam.

O pregador agradeceu com adeuses, esperou por uma oportunidade e abandonou o ambão, permeando os apoiantes em sorrisos. Saiu da sala, entre acenos e palmadas nas costas. Seguiu pelo corredor até ao átrio e cumprimentou uma mulher. Pareciam conhecer-se de outras andanças, porque deram um abraço com os olhos. Começo a perceber estes mamíferos que não se julgam animais: vivem de abraços, quer sonhados quer materializados.

Ele saiu pela porta grande, desceu a escadaria e encavalitou-se na bicicleta. Parou após duas dúzias de pedaladas, comprou jornais num quiosque e seguiu viagem, sem nunca reparar no pássaro sobrevoante. Era eu, sempre naquele rasto, por ruas e ruelas, até ao bairro da sua casa, ao jardim e ao descavalgar. Atenuei o voo e desci, para pousar na cerca do jardim. Penteei as asas e assisti à porta a abrir-se, mas não brotou nenhuma menina em busca de abraços.

Desengravatando-se, ele entrou em casa, com os jornais na axila, e eu aproveitei a janela aberta da cozinha para ocupar-lhe o parapeito. Vi-o pendurar o casaco e passar pela mulher com um esgar. Sentou-se e começou a ler as notícias. A filha apareceu e cumprimentou-o com um beijo na face.

Não percebo estes humanos. Num dia, abraçam-se e beijam-se; no outro, ignoram-se. Os pássaros simplesmente vivem.

Enquanto o pai lia o jornal, a filha trocou olhares entristecidos com a mãe, baixou a cabeça e retirou-se. A senhora enfrentou o lava-loiças e respirou fundo:

— Correu bem?

— Sim. Está no papo.

Foi quando a mulher reparou em mim. Um priolo especado no parapeito da janela? Algo raro e poético. Inclinou a cabeça, fez um demorado sorriso de anjo e aproximou-se, o que me deixou desconfortável.

— Um pássaro. Já viste?

O marido produziu um grasnido impercetível, fechou um jornal e abriu o outro, descruzou uma perna e cruzou a outra. Depois, fungou e casquinou em desprezo por um artigo qualquer. Aprendi que nem tudo o que reluz seduz.

Aquela indiferença fez-me palpitar o sangue pelo peito. Num salto, flutuei, e uma força poderosa concentrou-se-me no bico. Dali à ebulição foi um rufo. Passei diante da mãe, que se desviou, assustada com o vento do meu adejar frenético, e atravessei o jornal com afinco. Rasguei-o, uma e outras vezes, puxando e espalhando pedaços de papel pela cozinha. Transformei a pasmaceira num cafarnaum!

O casal protegia-se como podia, as mãos a tapar a cara, a mulher de cotovelos erguidos, o marido salivando e tentando cortar-me as asas. Mas a surpresa assaltou-me, ao sentir aquelas mãos no meu corpo frágil.

Ele agarrou-me em pleno voo.

O nariz dele diante do meu bico, os olhos enraivecidos a embeber-me de ira, a mulher com as mãos sobre a face, a filha com os lábios a tremer. Senti o peito confortado, as penas aconchegadas, o amor a sufocar-me, a falta de ar. Não conseguia respirar. Piei uma vez, e a criança verteu uma lágrima; pipilei outro queixume, e a mãe soluçou; ao meu terceiro guincho, ele baixou o olhar para a filha, como se procurasse absolvição. Depois, regressou a mim e hesitou.

Os homens sonham voar. O que eu anseio é entendê-los. Continuo sem perceber-lhes as intenções, mas agora sei o que é um abraço.

Pedro Almeida Maia – 18-04-2021

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