Quando Rio, Santos, Ventura e Figueiredo se encontram num salão | Francisco Louçã in Jornal Expresso

É uma festa, que promete nada mais e nada menos do que abundar sobre a “reconfiguração social, política e económica para as próximas décadas”, nas vésperas da inauguração do congresso do Chega, que foi apontada para o faustoso dia 28 de maio. A caminho destas décadas tão prometedoras, a convenção do MEL junta os chefes dos quatro partidos da direita, os recentemente chegados encerram as manhãs, os que têm mais pedigree encerram os dias (Rio faltou no ano passado, vai este ano ser a estrela da companhia). Acrescenta-se a aristocracia do Observador, que veio em peso, José Manuel Fernandes, Rui Ramos e Helena Matos, mais alguns cronistas avulsos (e que injustiça esquecerem os do Sol), um painel dos notáveis do PS que são parceiros deste mundo, Luís Amado, Sérgio Sousa Pinto, Álvaro Beleza, mais um ex-governante PS que era do PSD e retornou ao PSD, Nogueira Leite, também Henrique Monteiro, não podia faltar, e mais algumas glórias laranjas, Joaquim Sarmento, Miguel Morgado e Poiares Maduro, desta vez Montenegro foi esquecido, e do CDS, Paulo Portas. Há ainda uma feira de extravagâncias: o representante dos hospitais privados, Óscar Gaspar, ou Camilo Lourenço, que escreve sobre a “deriva bloquista de Vítor Gaspar” e do FMI, lá se irão explicar ao Centro de Congressos. Numa palavra, está toda a gente que devia estar e, em vez de notarem com surpresa esta confraternização, os analistas deviam saudar o acontecimento, do qual resulta um interessante sinal convivial. Quanto mais juntos melhor, quanto mais falarem melhor.

Tavares, outro dos que vai partilhar “oxigénio e alcatifas” com estas figuras gradas, garante que é tudo só para proteger os direitos oprimidos de alguns coitados que são silenciados pelo manto pesado da censura e lá estará, “de preferência na primeira fila e com a seguinte inscrição na minha T-shirt: ‘André, boa parte das tuas ideias são uma vergonha, mas vergonha maior era não as poderes defender’” (ofereço-me para pagar esta tshirt a Tavares, como incentivo carinhoso à sua coragem democrática, o coitado do “André” está tão impedido de dizer o que pensa). Isto promete, vão discutir o tamanho das vergonhas respetivas. Só que, em janeiro de 2019, o André escorraçava esta iniciativa para a qual não fora convidado, nos termos que só ele sabe utilizar: “Qualquer líder de direita e centro-direita devia estar envergonhado de participar num movimento como este (…), é um favor que me fazem não me convidarem”. Logo no ano seguinte fizeram o favor de o convidarem e lá esteve. Agora repete cordatamente, desta vez como encerrante de uma manhã de profícuas discussões, acolitado pelo seu vicepresidente, Nuno Afonso, e por Fátima Bonifácio, que há pouco explicou ao povo maravilhado que, como “a direita não se conseguiu impor com boas maneiras e falinhas mansas”, uma vitória do Chega será o início de “uma barrela de alto a baixo” no país.

O problema é que os organizadores parecem discordar destas versões delicodoces, ou até suspeitar da higiénica “barrela de alto a baixo”. Chefiados por Jorge Marrão, partner no “Deloitte Hub” (“o Jorge Marrão lidera o Real Estate em Portugal”, diz a empresa, orgulhosa), garantem que a ambição é “caminhar-se para um compromisso num espaço político alargado dentro do arco constitucional”. Pelos vistos, o partner da Deloitte anuncia que está a servir de consultor para organizar o “compromisso”, “alargado” como não podia deixar de ser, para a direita constitucional. Treta. Como o CDS não está capaz de eleger um deputado e o IL brilha com 1% na última sondagem do Expresso, Santos e Figueiredo só servem para o coro do convívio e sobram unicamente dois protagonistas, o Chega e o PSD. Ora, estes até podem dançar o fox trot, mas não será com a música do arco constitucional.

A operação pode ser ideologicamente ambiciosa. Desde que a direita se começou a trumpizar, mistura alegremente todos os fantasmas do passado, como o renascer da ordem patriarcal (se o Presidente começa um discurso com “minhas senhoras e meus senhores”, é uma miserável cedência ao “politicamente correto”), a mobilização do fanatismo religioso (a exclusão dos infiéis), o maccartismo (o “fundo de verdade” de que “os comunistas comem crianças”), os mais variados discursos de ódio e, sobretudo, a cereja das cerejas, o mercado como definição natural das coisas. Todos esses fantasmas se vão passear no “oxigénio e alcatifas” da bendita convenção. O problema é que isso não serve para nada, por mais que se aplaudam uns aos outros.

Nada pode evitar ao compromissador Jorge Marrão, ou aos dois chefes partidários que ficarão de pé no salão depois das salvas das urnas, Rio e Ventura, uma escolha entre dois caminhos. Para ter votos suficientes para negociar poder, Ventura tem que prometer um regime terrorista de violação constitucional (castração, prisão perpétua, pena de morte, apartheid para ciganos); então, quanto mais ganhar mais perde. Para ter votos suficientes para disputar alguma coisa do centro, Rio não pode propor-se ao país para reduzir o RSI ou os subsídios de desemprego, tem que dizer alguma coisa de aceitável. Pensar que destes caminhos diversos pode resultar um acordo “para as próximas décadas” é uma fantasia. Muito ficará pelo caminho e só assim se poderão entender, traindo-se um e outro ou um ao outro. Mas, como é bem evidente na agenda do tal convívio, não têm ideia alguma sobre qual será o caminho.

(no Expresso)

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