TUDO O QUE NOS DÃO | Pedro Teixeira Neves

pedro - 200O país mobiliza-se, a nação exalta, os Media atropelam-se e pelam-se por uma imagem daqueles que partem e sobre quem impende a defesa de tão insigne missão. O exacto alcance histórico do momento é difícil de mensurar. O presidente e os mais altos representantes do país revelam para as câmaras uma confiança e um orgulho sem limites. Que se acabou o miserabilismo, a comodista atitude dos fracos e resignados, a indolência. A fisionomia dos homens e das mulheres altera-se às notícias dos heróis, chora-se por uma mialgia infame. Há angústia, sofrimento, páginas dos jornais choram a possibilidade de uma dor na coxa. Mas eis que o mister sossega as fileiras, minando o pessimismo e a palidez de sentimentos. Viva, grita o povo com um entusiasmo raramente na história entrevisto, insuspeito mesmo. A histeria é meridional. Um câmara man morreu ao descuidar-se e cair de cima da mota onde fazia cobertura em directo do estacionamento do autocarro que transportava os heróis para o estágio. Terá honras de Estado e de estádio no seu funeral, a família será convidada a assistir à grande final, assim nela o país se faça representar. E sorrirá, e receberá aplausos, lágrimas de elevação, elevação! Milhares e milhares retemperam a cor à alma por séculos esmaecida, o povo confunde-se com as classes mais altas, gritam em uníssono o gestor de empresas e o estivador, o empreendedor e o desempregado fabril, o administrador e o sapateiro. Há notícias de um golo, uma mulher sonha um filho tatuado, velhinhas tremem às imagens de um torso desnudo, acham tudo uma benção dos tempos, que nos seus tempos os bravos rapazes da nação não tinham aquelas compleições. Eis o ambiente cunhado pela alegria em torno dos heróis. Se for desta, sim, então haverá a nação de reerguer-se e um peditório nacional almejará reunir em tempo recorde os fundos necessários à construção de um novo Panteão.

Retirado do Facebook | Mural de Pedro Teixeira Neves

O HOMEM A ARDER | txt/ img ptn | 28/03/2016 | Pedro Teixeira Neves

Telefonam-me e dizem-me: vem depressa, está um homem prestes a arder. Pedi calma, acabara de começar a escrita de um texto. Havia muito que a simpática inspiração não me visitava. Calma, por favor, não será fumo sem fogo? – ainda perguntei antes de terminar uma frase com a qual ia chegando a acordo. Que não, asseguravam-me num estado de agitação que por um triz não me passava para as palavras. Pensei então num homem a arder. E depois na rua onde esse homem se encontrava a arder. E depois no bairro onde esse homem se encontrava a arder. E depois na cidade onde esse homem se encontrava a arder. E depois pensei que daria uma bela fotografia. Olho a parede branca da minha sala e vejo o homem a arder. Levantei-me então, peguei na máquina fotográfica e fui a correr. Cheguei mesmo antes dos bombeiros. As chamas acariciavam o homem e ainda olharam para mim, vermelhas, rubras. Mal tive tempo para uma fotografia. Hoje, a fotografia do homem na parede da minha sala aquece-me no rigor do inverno. O homem, dizem que deu cinza. Mas se eu fechar os olhos, na parede de minha casa o homem também desaparece. Não há fogo sem fumo.

PTN

2.º Livro da BUSILIS | Haikuases | de Pedro Teixeira Neves

ptnPedro Teixeira Neves  não é mestre em nada, muito menos na arte do Haiku. O autor tenta simplesmente brincar com as palavras e as emoções. A língua portuguesa vai-lhe servindo o propósito, temendo contudo não desmerecê-la. Publica agora este conjunto de “Haikuases”, apenas no formato dos três versos imediatamente devedores da fórmula poética japonesa. Quanto ao mais, no caso ao menos, é poesia, leitores e leitoras; que ela possa ser um sinal ou um arrepio já o poeta se daria por contente.

Pedro Teixeira Neves nasceu em Lisboa, em 1969. Formado em RelaçõesInternacionais, fez jornalismo desde 1994 até 2014. E foi publicando: romance, contos, poesia, literatura infantil. Assina também, aqui e ali,alguns trabalhos de fotografia. O resto será silêncio, mas também o que está para vir e ficar.