O Vírus Chinês e os misseis Strela da Guiné | A Confissão de Impotência do Imperador | Carlos Matos Gomes

No dia 23 de Março de 1973 o PAIGC disparou o primeiro míssil antiaéreo Strela contra um avião português. A 25 de Março foi abatido o primeiro avião, um Fiat G 91, sobre Guileje, no Sul, o piloto, tenente Pessoa, ejeta-se e salva-se. Três dias mais tarde, a 28 de Março, outro Fiat, desta vez pilotado pelo tenente-coronel Almeida Brito, também é abatido no sul da Guiné. O avião explode no ar provocando a morte do piloto. Na semana seguinte, a 6 de Abril, a Força Aérea perde ainda dois aviões ligeiros de transporte DO-27 e um avião de ataque ligeiro T-6G, com os respetivos pilotos, devido à ação do míssil. Para as tropas portuguesas é uma escalada na guerra com a qual não contavam e para a qual não estavam preparadas. Para o PAIGC foi a derradeira arma para vencer a guerra. A gravidade da situação é espelhada na informação que a delegação da DGS na Guiné envia para Lisboa, a 9 de Abril, sobre a perda de supremacia pela Força Aérea Portuguesa: “Não dispomos de meios aéreos que possam constituir uma força de dissuasão ou que nos permitam castigar duramente as bases de apoio, temos que encarar como muito possível que o PAIGC venha num muito curto prazo de tempo a estabelecer novas áreas libertadas, e dificultar ou impedir o tráfego aéreo e até mesmo a aniquilar algumas guarnições que agora passaram a não poder contar com o apoio aéreo para as defender, evacuar os feridos e reabastecer.”

A guerra estava militarmente perdida quando o primeiro caça português se despenhou. O contingente português na Guiné perdeu os céus. Os quartéis longínquos, junto às fronteiras, ficam isolados, abandonados e sujeitos a flagelações contínuas pela artilharia inimiga e, acima de tudo, pelo morteiro soviético de 120 mm e sem apoio aéreo eficaz, apesar dos esforços paliativos dos pilotos e tripulações e da sua coragem. O primeiro míssil é o momento de viragem que desequilibra a guerra. A nota da DGS é uma confissão de derrota. Portugal ficara à mercê de uma arma do inimigo. O império colonial estava a ruir.

A política de manipulação da opinião levada a cabo pelo regime americano da administração Trump, e dos seus “vozes do dono” pelo mundo, vide Paulo Portas em versão “Estado de Emergência” diariamente na TVI, ao atribuir à China a autoria do ataque com o vírus CODIV 19 à sua economia, à sua civilização, ao seu poder imperial e aos resultados devastadores que tem causado no CONUS (Continental United States), sem que o império americano tenha resposta, corresponde a uma confissão de derrota, como a da DGS da Guiné a comunicar para a sede que o império e as suas legiões africanas estavam perdidos.

A última ação que um comandante, um chefe deve tomar é confessar a impotência perante o inimigo — os uniformes militares antigos procuravam agigantar os combatentes através de chapéus altos, ombreiras; os grandes chefes faziam circular informações mistificadoras sobre armas secretas que possuíam, multiplicar a imagem dos seus efetivos com plastrões, imitações de viaturas e armas — Trump apouca os seus, agacha-se e queixa-se. Mas fez mais, destruiu a credibilidade dos seus serviços de informações, que segundo ele, foram incapazes, como a modesta DGS portuguesa de 1973, de descobrir a arma secreta do inimigo. Destruiu a credibilidade do seu aparelho de defesa e segurança, o que inclui capacidade de obter informação e de encontrar contramedidas, incluindo para ações de guerra biológica, e ainda, expôs a fragilidade das defesas internas, incapazes de controlar o ataque e de mitigar os seus efeitos na sociedade.

A tentativa de Trump de encontrar na China, no inimigo, um bode expiatório para a sua incapacidade é a confissão de um imperador perdido no meio da batalha.

A História e a literatura, Shakespeare, principalmente, têm exposto as tragédias que os reis e imperadores loucos, perdidos nos momentos de convulsão, têm causado aos povos.

A teoria da conspiração chinesa é uma confissão de impotência. Tenho ouvido e lido indómitos militares e civis apoiá-la. Por mim, julgo que quem não se sente impotente deve lutar contra o vírus e contar com as suas forças. Chamar nomes às setas, ir contra moinhos de vento, alivia medos de Don Quixotes sem génio nem coragem, mas não vence batalhas, como Cervantes demonstrou pela voz de Sancho Pança.

Nota pessoal, para evitar rotulagens “à la minute” de antiamericanismos primários, a minha mãe era americana, manteve o passaporte americano até morrer e os meus avós foram para os Estados Unidos muito antes dos pais de Trump. Tive e tenho família por lá, em ambas as costas.

Born 1946; retired military, historian

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