O 25 de Abril e os revivalistas militares | Carlos Matos Gomes

O 25 de Abril e os revivalistas militares

Dos que mordem a mão de quem lhes abriu a porta

Muito raramente escrevo sobre assuntos militares. Evito fazê-lo porque estou há anos fora do serviço ativo e desconheço os elementos essenciais que fundamentam as decisões.

Escrevo desta vez porque me choca a violação do princípio do respeito pelo passado entre gerações de militares, e mistificação da História que mais uma vez e a propósito das comemorações do 25 de Abril li nas redes sociais, em textos da autoria de militares retirados do serviço, mas de uma geração que cumpriu a sua carreira já depois do fim da guerra colonial e do 25 de Abril.

A questão não é, nem era a manifestação de opinião, se em estado de emergência o Estado devia organizar uma cerimónia, nem em que moldes, direito legítimo, nem sequer a análise mais ou menos crítica do que a sociedade portuguesa e o Estado conseguiram nestes quarenta e seis anos, outro direito essencial, o que me chocou e choca foi, é, e tem sido (porque a atitude é recorrente e agrava-se, como os ataques de asma na Primavera) que o direito de critica e análise seja ardilosamente utilizado para minar os fundamentos do Estado democrático de direito e das instituições resultantes do 25 de Abril de 74, para ofender a honra de camaradas, tanto os que estiveram envolvidos no golpe de estado, como no processo político e até para com os que, ao longo dos anos, têm assumido funções de responsabilidade na política e nas chefias militares e a adulteração da História, que não tendo uma verdade assenta em factos.

Por esta ocasião da Primavera repetem-se e intensificam-se os argumentos clássicos desses militares, reunidos num grupo ainda de aparência inorgânica que, na essência, remetem para a velha questão do tempo de oiro perdido, os bons velhos tempos (que eles não conheceram e, pelo que se lê, não estudaram, apenas vendem à comissão): antigamente havia ordem e respeito, as forças armadas e de segurança eram um motivo de orgulho e hoje não há ordem e as forças armadas e de segurança são ofendidas e desrespeitadas; antigamente os chefes, políticos e militares, eram pessoas de respeito, respeitáveis, patriotas, competentes, e hoje os militares são uns vendidos políticos e os políticos uns corruptos que arrastam Portugal pelas ruas da amargura. Por fim e como pedra de fecho, Portugal era grande e grandioso (Portugal não é um país pequeno! — com mapa de Henrique Galvão), uma Pátria que merecia o respeito do Mundo e as Forças Armadas portuguesas um corpo militar admirado pelos seus pares. Enfim, a glorificação da política colonial e de guerra do regime chefiado, primeiro por Salazar, e depois por Marcelo Caetano. Em resumo, o 25 de Abril, o ato e o regime que dele resultou, destruíram três realidades: Ordem, Glória e Colónias! Não sendo possível reconstituir o domínio colonial, a luta destes novos patriotas militares parece ser pela imposição de um Estado de Ordem, Securitário e chorar pela Glória perdida. Uma estratégia de manipulação de opinião com claros objetivos políticos . Não há nenhuma inocência nestas “opiniões”.

Sendo um solitário, mais próximo dos lobos que das ovelhas, reconheço a lógica dos pastores dos rebanhos.

Este discurso da antiga grandeza imperial perdida é um argumento recorrente nos restauracionistas, eles surgem no presente com solução para tudo o que os seus antecessores não conseguiram. Estivessem eles nas Forças Armadas nas décadas de 60 e 70 e outro galo teria cantado! É um recorrente azar histórico: nunca são os donos da verdade a posteriori que estão nos lugares e nos tempos certos do presente da História!

Este discurso demagógico remete para um Portugal que nunca existiu. Alguns exemplos, o Ultimato Inglês foi uma demonstração de dissonância entre a política e os meios. As chamadas “campanhas de pacificação” após a Conferência de Berlim foram mais uma revelação de fraqueza. A campanha em Moçambique é desastrosa. As campanhas no Sul de Angola no final do século XIX, início do século XX, são reveladoras da mais chocante incapacidade. A participação de Portugal na Grande Guerra, numa apreciação que inclui políticos e militares nas três frentes, Angola, Moçambique e Flandres não é motivo para orgulho de ninguém.

A abordagem pelo Estado Novo, o que inclui Salazar e o alto comando das Forças Armadas, da questão colonial do pós-Segunda Guerra e do Movimento Descolonizador é um conjunto de tropeções de um bando de perdidos num mundo que não entendem, de um passado de que não sabem tirar lições e, fundamentalmente, de incompetência sobre um assunto elementar em política e na estratégia: avaliar uma situação conjugando o “ambiente operacional” (no caso a situação internacional) os meios de que dispõe e os objetivos que pretende atingir. Só o sacrifício da geração que esteve no 25 de Abril permitiu prolongar a guerra e iludir o facto de os políticos da época não saberem o que fazer dela nem com ela, continuar, aliarem-se aos sul-africanos, ou negociarem com os independentistas.

Essa geração, que é a minha, cumpriu e bateu-se como poucas ao longo da nossa História até para além dos limites razoáveis, por vezes em situações de vexame, como na Índia, ou de desprezo por parte de aliados, os EUA e a Inglaterra, que até impediram a utilização dos meios da NATO em África, aviões F 86, navios, viaturas (GMC) rádios, p.ex. A guerra irá terminar com os limitados (mas foi o que se conseguiu) caças bombardeiros portugueses Fiat G91 a serem abatidos por mísseis Strela das guerrilhas, porque os “aliados” colocavam sérias dificuldades em venderem outros mais modernos, com as forças portuguesas acusados internacionalmente de crimes de guerra e de genocídios, como os de Wiriamu! Com a população metropolitana ativa a fugir da guerra e da política do Estado Novo, centenas de milhares de emigrantes legais e clandestinos, uma parcela brutal do orçamento atribuído a despesas de guerra, 250 mil homens na idade produtiva nas Forças Armadas, proibição de os portugueses decidirem o seu futuro e, sequer, de o discutir!

Em 1974 as forças armadas portuguesas apenas participavam em exercícios na NATO através da Armada (onde sofriam vexames da parte dos seus aliados, nomeadamente nórdicos — noruegueses e holandeses), viviam num limbo internacional de que as participações mais ou menos encobertas de apoio aos mercenários do Congo e do Biafra não acrescentavam prestígio. Forças tão desprestigiadas e tão mal equipadas que em 1961 não conseguiram recuperar um navio mercante português, o «Santa Maria», em águas internacionais! Que em 1972/73 os seus aliados mais próximos por razões de sobrevivência, a África do Sul do apartheid e a Rodésia da independência unilateral, faziam relatórios arrasadores sobre o espírito combativo, sobre a estrutura de comando das forças portuguesas em Moçambique e Angola. Entretanto a Marinha Inglesa realizava um bloqueio ao porto da Beira! (Beira Patrol) — e Portugal era formalmente aliado de Inglaterra!

Foi a este “Estado a que isto chegou”, nas palavras de Salgueiro Maia, que uma parte dos militares, a dos melhores, desde logo pela razão elementar de terem ganho consciência da irracionalidade criminosa de uma política de guerra sem objetivo, nem fim, nem meios, uma guerra de queimar portugueses sem sentido, deu o devido e patriótico fim a 25 de Abril de 1974. O qual não devia, segundo esta franja de militares, ser comemorado! Li que a presença dos chefes de estado-maior não “dignificava as Forças Armadas”, que as envergonhava!

Foi o 25 de Abril que retirou Portugal do grupo dos estados-pária onde se encontrava. Que permitiu restabelecer ligações sem “vergonha” com aliados europeus e americanos, mas também com países do Terceiro Mundo, com o mundo árabe (o Egito, em particular), a África (OUA), a Ásia (China e Índia, em particular), a URSS e os seus aliados. Que abriu a porta a alguns desses militares hoje tão críticos do regime democrático e tão empenhados no ataque aos seus fundamentos para terem a oportunidade de participar em missões internacionais que, sem valorização de mérito político, os levaram à antiga Jugoslávia e ao Líbano, a Timor, a Angola, Moçambique, Guiné, Marrocos (Sara), na República Centro Africana, Bolívia, Afeganistão, entre os outros espaços de conflito internacional, em missões para as quais, durante a ditadura e a guerra colonial, os militares portugueses jamais haviam merecido serem considerados elegíveis para participarem!

Não há para estes “neo epopeicos” frustrados um ministro do regime do Estado de Direito que não seja ou tenha sido um biltre, a maioria dos generais são uns vendido. Os militar com responsabilidades no 25 de Abril são cobardes, ou traidores! Para eles, os virtuosos, a virtude do Estado e das Forças Armadas morreu a 25 de Abril de 1974! Entretanto veneram alguns “heróis do absurdo”, incapazes de perceber a razão dos seus atos. É este o discurso sublimar deste grupo de revivalistas, manipuladores da opinião.

Na realidade e é histórico, foi o 25 de Abril que dignificou a condição dos militares portugueses. O 25 de Abril foi obra de soldados, recorrendo a Mouzinho de Albuquerque. E foi o 25 de Abril, com os seus militares e políticos, com os seus defeitos e qualidades que colocou Portugal no concerto das nações respeitáveis.

O discurso primariamente patrioteiro — primário porque rejeita o conhecimento resultante do estudo, da investigação, da análise e patrioteiro, um termo de Eça de Queiroz, porque se refere a um conceito adulterado de pátria, tenta confundir eventuais erros de conduta, de avaliação, cometidos durante o período pós-25 de Abril de 74 e até hoje, ou de confronto de modelos de sociedade, com o erro fundamental assente na incapacidade de um regime ditatorial não só de ler a realidade, mas de ir contra ela e contra direitos fundamentais. É um discurso que pretende confundir erro, escolha, com a essência do Mal!

São estes militares que surgem associados de forma mais ou menos insidiosa aos que proclamam que o 25 de Abril não devia ser comemorado, porque o 25 de Abril não devia ter ocorrido, que o Estado Português, através dos seus órgãos de soberania, incluindo os chefes militares, não devia estar na Assembleia da República a 25 de Abril porque há uma epidemia! Que, por redução ao absurdo, defendem a única alternativa ao 25 de Abril que seria a continuação da política colonial e de uma ditadura — não há alternativa, não era possível um Portugal colonial integrado em qualquer espaço da comunidade internacional -, que Portugal devia continuar a sofrer mortos e a espalhá-los espalhados por África, desde que fosse na guerra, a ter mortos espalhados pelos países de emigração, sem despedidas possíveis, que Portugal devia continuar a ter milhares de portugueses confinados pelo mundo, por serem emigrantes ilegais, ou desertores e não poderem regressar para verem pais ou filhos.

WRITTEN BY

Born 1946; retired military, historian

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