SOFAGATE | A IMORAL MORALIDADE DA EUROPA | Paulo Sande

NÃO

Não aceitamos que o passado esclavagista da Europa, cujos epígonos são sobretudo portugueses, britânicos, espanhóis, franceses, permaneça vivo nos livros de História (e até nas histórias sussurradas de geração em geração). Em nome da moralidade e dos princípios, não o podemos aceitar, ainda que tenha sido essa mesma Europa a proclamar a imoralidade da escravatura e a decretar “urbi et orbi” a sua abolição.

MAS SIM

Toleramos o passado esclavagista de outros continentes, países e regiões, onde ainda hoje milhões de seres humanos vivem em condições que, quando não são de escravatura, são-no da mais abjeta servitude.

NÃO

Não aceitamos que as mulheres, a outra metade da Humanidade, sejam tratadas como seres de segunda categoria, sexualizadas para além da decência (um prolongamento da moral feita ética), maltratadas e abusadas. “Me too” e outros movimentos, todos de origem ocidental, o que é quase o mesmo que dizer europeia, decretaram respeito, consensualidade, tratamento igualitário. E se há abusos e excessos, o princípio é sagrado – homens e mulheres, iguais perante Deus, a sociedade, a lei.

MAS SIM

Quando um sultão turco, herdeiro dos “halife-i ru-yi zemin” (califas da face da terra), oferece uma cadeira ao seu congénere europeu, deixando de pé – e depois colocando à distância sobre um comprido sofá oriental, como que ostracizada, posta no seu lugar – a mulher que preside à poderosa (pelo menos em teoria) Comissão europeia, Ursula von der Leyen, indignamo-nos, debitamos algumas palavras (como estas) e começamos logo a esquecer o episódio. Sim, é chato, é desagradável, é humilhante para as mulheres (que outra razão haveria?) mas o que se há-de fazer? “Politics as usual”, afinal a Turquia é a ponta da lança da NATO no turbulento médio oriente…

NÃO

A União Europeia proclama solenemente a defesa dos direitos humanos no mundo inteiro, aprova regras de condicionalidade rígidas para os europeus, rege-se por uma bem intencionada Carta dos Direitos Fundamentais.

MAS SIM

Aceitamos e, diplomaticamente digerimos, as ações de autocratas, ditadores, violadores dos direitos humanos. Não reagimos, em nome de interesses geoestratégicos, respeitáveis mas espúrios, ou simplesmente por falta de arrojo.

Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, devia ter-se levantado e saído – ou sentado no sofá ao lado de Ursula von der Leyen. Essa seria a atitude correcta. Infelizmente, consultando a sua coragem, que provavelmente nada lhe disse, manteve-se pusilânime e sorridentemente sentado, no cadeirão à direita de Erdogan.

São todos estes Sins que tornam imoral a proclamação de uma Europa do exemplo, democrática e defensora dos direitos humanos.

Sob pena da moralidade proclamada não passar de um pastiche dos grandes europeus que, antes de todos os outros povos, aboliram a escravatura, reconheceram direitos iguais às mulheres, acabaram com o colonialismo e proclamaram a universalidade dos direitos das pessoas, a Europa tem de agir.

A Presidência do Conselho da União Europeia (adivinhem qual o país que a detém), o Ministro Europeu dos Negócios Estrangeiros, o senhor Borrell, a Comissão europeia, os 27 líderes europeus, devem agir, com firmeza, com medidas concretas. Agora. Hoje. Já.

Ou não.

Uma coisa tenho por certa: a Europa será moral, ou não será.

Retirado do Facebook | Mural de Paulo Sande

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