POESIA | ÚLTIMA VIAGEM | Maria Helena Ventura | in PEDRA DE SOL

Nada mais resta

senão fazer a mala de viagem.

Não desisti das palavras

rasgadas no meu culto

pontes que quase atravessei

pela colheita do aroma

só dou uns passos atrás

para respirar a cor

e a melodia de alvoradas.

O equilíbrio ameaça ruir

neste mar tempestuoso

e todos os sorrisos libertos

sem rede de protecção

voltam ao meu aconchego

desiludidos e gastos.

Guardo as frases doces

no palato do anoitecer

e reaprendo a voar

com asas emprestadas

sem esboçar um destino.

Sentada à beira-mar

a estudar a dança das marés

dobro os vincos deste dia

como se acabasse

de passar a ferro

o fato amarrotado.

Navego a vertigem do meu corpo

lucidamente vivo

ânfora sedenta de água

na inevitável viagem.

Tanto enigma por decifrar…

Irei até ao ouro dos poentes

ávidos de trigo

ao outro lado das revelações

para encontrar grinaldas

de pássaros felizes.

Gostei de conhecer

as cores da alegria

pintadas em sfumato

os sabores do tempo

de menina com chapéu de sol.

E gostei dos sinais sem mácula

na dádiva intemporal

de um sorriso de papoilas.

Ficará uma réstia de mim

na gratidão das lembranças

um fragmento do pulsar

da mudança

rente à pele dos dias.

Ficará a transparência

do silêncio

se mais não puder dar

a quem me deu.

Até logo

Até amanhã

Até sempre.

Maria Helena Ventura – PEDRA DE SOL

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