Assim o quiseste, assim o tiveste | o preço da energia | por Carlos Matos Gomes

Os agentes de comunicação de massas impuseram uma verdade. Essa verdade tem consequências que começam a doer. Agora, os mesmos que apoiavam as sanções e os embargos perguntam aos políticos o que vão fazer. É hipocrisia em estado puro. Os assim designados jornalistas são cúmplices da situação que estamos e vamos viver.


Os jornalistas têm responsabilidades sociais. Não podem atirar a pedra e esconder a mão.

Digámos. Assim começava um dos televangelistas contratados para formatar a opinião pública para das intenções expansionistas da Rússia as suas prédicas diárias. Era necessário formar uma opinião que aderisse à narrativa de que a Ucrânia era pacífica e democrática, um Estado exemplar que, de um momento para o outro, e sem qualquer motivo, se vê invadido pelo ameaçador vizinho.

Houve alguns, poucos, que se atreveram a desmascarar esta história de cobertura de intenções. Os grandes meios de manipulação adotaram com fervor militante a tese da iníqua e criminosa invasão, que contrariava os princípios do Direito Internacional e até a doutrina da guerra justa de Santo Agostinho.

Sabe-se hoje pela voz da administração americana e do governo do Reino Unido que americanos e ingleses, com a cobertura da NATO (essa virtuosa aliança defensiva) andavam a treinar o exército ucraniano desde 2004, com maior intensidade a partir de 2014, que lhe haviam fornecido material moderno e apoio de informações (intelligence), incluindo via satélite. Um exército especialmente criado para o efeito foi instalado na zona russófila do Leste da Ucrânia, causando cerca de 14 mil mortos. O novo governo pró-americano da Ucrânia, que tinha como figura de boca de cena Zelenski, foi incentivado a provocar a Rússia com um pedido de adesão à NATO. O que tinha ficado acordado que não aconteceria e que colocaria Moscovo a 10 minutos de voo dos novos misseis táticos. Isto é, a capital da Rússia ficava dentro do teatro de combate e sem possibilidades de defesa!

A guerra da comunicação, contando com o entusiástico empenhamento dos jornalistas, obteve uma vitória estrondosa, há que reconhecê-lo: as opiniões publicas europeias abraçaram as teses americanas e as lições da doutora Ursula Van der Leyen. Esta vitória da manipulação preparou as opiniões públicas para a fase seguinte: havia que castigar os russos pelo atrevimento de não querem um vizinho que subalugava o seu território para ali serem instaladas armas contra si. Saíram as conhecidas sanções — em pacotes! — seis pacotes, meia dúzia. Houve quem, deitando mão a bom senso, tivesse avisado que as sanções seriam tiros nos pés, fariam ricochete. Foram acusados de putinistas.

Os dirigentes europeus anunciaram o seu grande objetivo: a independência energética da Rússia. Nenhum jornalista se atreveu a perguntar de quem passava a Europa a ser dependente, dado a Europa não possuir grandes recursos energéticos. Ficaram em respeitoso silencia e seguiram de capacete e colete (PRESS) como pequenos rafeiros os guias que na Ucrânia lhes mostravam casas destruídas, ruas com corpos, desgraças de todos os conflitos, diárias em várias partes do mundo àquela mesma hora, na Palestina, na Eritreia, na Nigéria, no Haiti, até nas favelas do Brasil, ou nas dos Estados Unidos (sim, há favelas nos EUA).

Os dirigentes europeus transferiram enormes quantidades de dinheiro, de materiais e de armamento a um grupo dirigente que sabiam ser notoriamente corrupto, que eles próprios haviam classificado como dos mais corruptos do mundo. De repente ficaram com o cadastro limpo e até com certificado de bom comportamento. Quem está preso é o Assange.

Os dirigentes europeus sabiam das causas da invasão. Sabiam que estavam a lidar com um homem de mão dos EUA, sabiam que a maioria das notícias sobre a guerra eram mentira, ou deturpações. Casos dos massacres de civis — que foram apelidados de genocídios. Caso da central de AZOV, caso agora da central nuclear. A tecnologia hoje disponível permite saber a marca dos cigarros que um condutor vai a fumar, a 50 km de distância. Sabe-se através de infravermelhos onde estiveram aeronaves e peças de artilharia. Os dirigentes europeus tem toda a informação e mentem, ou deixam correr as mentiras que os serviços de propaganda de Kiev, da NATO, ou do Pentágono injetam nas redações. Algumas das reportagens veem já pre-editadas, não vá o apresentador esquecer-se de algum pormenor.

As opiniões públicas foram devidamente hipnotizadas. Pintaram caras de azul e amarelo, até votaram numa cançoneta só porque era dos pobres de Zelenski. Arrancaram os cabelos. E a unanimidade não olhou a divisões civilizacionais e políticas. A esquerda europeia amigou-se com Boris Johnson, com Ursula van Der Leyen, com o beato presidente da Polónia, com Biden. Quem não se dobrava diante das charlas de Zelenski (se repararem os seus técnicos de imagem filmam o comediante de baixo para cima parra parecer que ele fala de cima para baixo. Truques de sucesso) era banido e execrado.

Mas chegou a hora pagar tanta bondade, tanto ucranianismo, tanto zelenkismo. E aqui é que a porca torce o rabo. A energia vai subir entre 30 e 40 por cento. E energia são combustíveis e gás para as refeições, o banho, o aquecimento, o pão. Mas somos independentes da energia da Rússia! Isso é que é importante. Mas somos dependentes do petróleo e do gás americano obtido através do caríssimo processo do fracking e que tem de ser transportado de barco através do Atlântico, ou comprá-lo as petrolíferas que dominam a Arábia Saudita e o Médio Oriente e que são estados vassalos dos EUA. Mas estamos no mundo livre. Embora só tenhamos um fornecedor de energia e uma fonte de verdade.

Os agentes de ação psicológica (APsic) de serviço nas redações, jornalistas, assim ditos, agora interrogam o governo e parecem surpreendidos porque o governo não toma medidas para baixar o preço do gás! Abençoada hipocrisia. O governo, todos os governos europeus tomaram as decisões que conduziram a esta situação. Os ditos jornalistas que andaram pela Ucrânia, ou por Bruxelas, sabiam que este seria o resultado, ou então ainda são mais lerdos do que parecem quando perguntam com um olhar espantadiço: e agora, senhor ministro? O senhor não sabe produzir gás a pataco? Bilhas milagrosas como a lâmpada de Aladino? Não nos aconselha a mudar de eletrodomésticos, como fez a senhora Van der Leyen?

De facto, os governos europeus tomaram as medidas que conduziram a esta situação. Alguns, poucos, disseram que as sanções eram estúpidas ou, se eram pensadas, iriam conduzir ao desastre que já se anuncia. Putinistas. Vamos quebrar a espinha aos russos. Nem hambúrgueres vão comer! (Nem nós, pelos vistos).

A Europa está livre da dependência da Rússia. Aleluia! Devemos alegrar-nos, ou não? Foi esta a cama que fizemos, é nela que nos vamos deitar. Os jornalistas são parte do coro. São cúmplices da situação. Nada de queixumes.

Por fim, não há nada que possa alterar esta situação: inflação galopante e recessão. Os atuais dirigentes europeus nem sequer têm arte para salvar a face numa retirada com o mínimo de perdas (aprende-se no póquer, mas eles são mais de videojogos).

A situação pode ser caricaturada com o ministro português dos negócios estrangeiros: a Europa, através do Casão Militar fabricante de camuflados e quicos, fornece fardamentos (de boa alfaiataria) aos soldados de Zelenski, os americanos. através de Biden, oferecem mais três biliões de material militar. É esta oferta dos EUA que determina o preço da energia que os europeus vão pagar. Mas «os» e «as» tele evangelistas recrutados/as para os telejornais dirão que a culpa é, «digámos», do Bladimiro, como um deles trata o homem que fechou a torneira do gás a pedido dos europeus, diga-se.

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 25/08/2022)

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