A PSICOLOGIA DAS MASSAS SEGUNDO GUSTAVE LE BON | AUTOR: LEONARDO PEREIRA

Destaque parcial

Segundo Le Bon na sua obra Psicologia das Massas (1895):
As massas organizadas sempre desempenharam um papel considerável na
vida dos povos; mas este papel jamais foi tão importante quanto hoje em
dia. A ação inconsciente das massas que substitui a atividade consciente
dos indivíduos é uma das principais características da era atual
. (LE BON,
1895, p. 93

Com esta afirmação, pode-se verificar a importância que Le Bon deu às
massas, considerando os movimentos destas como característica com relevante
importância para toda revolução ou drástica mudança social dentro das civilizaçõeshumanas de toda a história.

Ainda observando esta afirmação, pode-se notar que o autor estava
prevendo, ainda no século XIX, a iminente e ampla expansão dos regimes
democráticos
de direito no mundo todo durante os séculos seguintes, hoje
predominantes na maior parte do globo.
Em sua obra, Le Bon evidencia diversas características gerais das massas,
e, apesar de admitir que as sociedades não passam por grandes revoluções sem
que as massas contribuam para isto, mostra-se um crítico dos movimentos de
massas durante a história e contrário às propostas de sociedades geridas por
populares e com participação direta da população.

As decisões de interesse geral, tomadas por uma assembleia de pessoas
distintas, mas de especialidades diferentes, não são sensivelmente
superiores às decisões que tomaria uma reunião de imbecis. Eles só podem
colocar em comum as qualidades medíocres que todo mundo possui. Nas
massas, é a imbecilidade e não a genialidade que se acumula. (LE BON,
1895, p. 14)
– As características gerais das massas
Em um sentido comum, massa é uma reunião de indivíduos quaisquer,
independente de suas crenças, cultura ou sexo. Uma massa psicológica, porém, é
uma aglomeração com um objetivo em comum, um coletivo onde a personalidade
consciente desaparece, e os sentimentos e ideias são todos orientados na mesma
direção através de um inconsciente coletivo. (LE BON, 1895)
Em sua obra, Le Bon elencou as três principais causas para a formação das
distintas características de uma massa psicológica. São estas o anonimato, o
contágio e a sugestionabilidade.

– Anonimato
[…] o indivíduo em massa adquire, pelo único fato do número, um
sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que,
sozinho, ele teria forçosamente refreado. Quanto mais a massa for anônima
e, por consequência, irresponsável, menos o indivíduo será levado a refrear
os instintos, já que o sentimento da responsabilidade, que sempre retêm os
indivíduos, desaparece inteiramente. (LE BON, 1895, p. 14)
Como afirma Le Bon (1895), o indivíduo em meio à massa adquire um
sentimento de invencibilidade, resultado da sua crença no anonimato que a grande
quantidade de pessoas lhe garante. Este sentimento provoca no indivíduo a perda
do medo das consequências, a perda da sensação de responsabilidade moral pelos
seus atos e a inabilidade de restringir alguns de seus instintos.
– Contágio
Numa massa, todo sentimento, todo ato é contagioso e contagioso a ponto
do indivíduo sacrificar muito facilmente seu interesse pessoal pelo interesse
coletivo. Esta é uma aptidão muito contrária à sua natureza e que o ser
humano só é capaz quando ele faz parte de uma massa. (LE BON, 1895, p.14)
Quando parte de uma massa, o indivíduo abandona seus interesses
pessoais em virtude dos aparentes interesses coletivos. As ideias e os sentimentos
tendem a se alastrar com facilidade entre os indivíduos que compõem uma massa,
pois todo ato produzido dentro de uma massa é contagioso, mesmo que tal ato
possa ser individualmente considerado irracional ou imoral pela maior parte dos
integrantes da massa. (LE BON, 1895)
– Sugestionabilidade
Também é quase este o estado do indivíduo que faz parte de uma massa
psicológica. Ele não está mais consciente de seus atos. Nele, como no
hipnotizado, ao mesmo tempo em que certas faculdades estão destruídas,
outras podem ser levadas a um grau de exaltação extrema. Sob a influência
de uma sugestão, ele se lançará com uma irresistível impetuosidade para o
cometimento de certos atos. (LE BON, 1895, p. 14)
Por fim, o que possibilita o contágio de ideias é a própria sugestionabilidade
que os indivíduos adquirem quando participantes de uma massa. Este é um estado
similar à hipnose onde a personalidade consciente perde predominância para a
personalidade inconsciente, cujo qual assume o lugar de destaque nas ações e
posicionamentos. Indivíduos neste estado tendem a transformar ideias em atos
imediatamente, agindo então pelo instinto, espontaneamente e até violentamente.
(LE BON, 1895)
Sentimentos comuns nas massas
Le Bon ainda discorre sobre alguns sentimentos e instintos que, apesar de
não serem características essenciais de toda massa, são frequentemente
observados nas atitudes dos indivíduos completamente integrados à massa. Estas
características são a impulsividade, a credulidade, o simplismo de sentimentos, a
intolerância e a moralidade.
– Impulsividade, mobilidade e irritabilidade
A massa é o joguete de todas as excitações exteriores e reflete suas
incessantes variações. Ela é, por isso, escrava dos impulsos que recebe. O
indivíduo isolado pode ser submetido aos mesmos excitantes que o
indivíduo em massa; mas, como seu cérebro lhe mostra os inconvenientes
de ceder a eles, ele não cede. É o que se pode fisiologicamente exprimir
dizendo que o indivíduo isolado possui a aptidão para dominar seus
reflexos, enquanto que a massa não a possui. (LE BON, 1895, p. 17)
Como consequência da predominância do inconsciente nas ações dos
indivíduos dentro das multidões, as massas se apresentam como um elemento
impulsivo e irritável, altamente suscetível as excitações exteriores que recebe, seja
para excitações positivas, que geram respostas generosas, ou para excitações
negativas, que geram respostas violentas e cruéis.
Analisando esta facilidade que as massas têm de rapidamente partir de uma
atitude extrema para outra atitude completamente contrária, conforme os estímulos
que recebe, pode ser constatado sua alta sua mobilidade. (LE BON, 1895)
– Credulidade
[…] transitando sempre nos limites da inconsciência, sofrendo facilmente
todas as sugestões, possuindo toda violência de sentimentos própria aos
seres que não podem apelar para as influências da razão, desprovida de
todo espírito crítico, a massa só pode ser um ser de credulidade excessiva.
(LE BON, 1895, p. 19)
A credulidade excessiva das massas é sua capacidade de acreditar em
ideias fantasiosas e ilógicas, que seriam facilmente descartadas através do
pensamento crítico. A massa separa pouco o subjetivo do objetivo, assim, pode
interpretar até mesmo acontecimentos simples e corriqueiros como atos
conspiratórios, incríveis ou milagrosos. Esta característica é resultado da facilidade
com que uma ideia se propaga pela massa através da contágio, e a alta
sugestionabilidade faz com que essa ideia seja aceita pelos indivíduos sem maiores
ponderações. (LE BON, 1895)
– Exagero e simplismo de sentimentos
A simplicidade e o exagero dos sentimentos das massas fazem com que
estas últimas não conheçam nem a dúvida nem a incerteza.[…] A suspeita
enunciada se transforma logo em evidência indiscutível. Um começo de
antipatia ou de desaprovação, que, num indivíduo isolado, não se
acentuaria, se transforma num ódio feroz num indivíduo em massa. (LE
BON, 1895, p. 24)
Numa massa, os sentimentos, que são compartilhados pelos seus
integrantes, tomam uma forma muito intensa, porém também simplista. Ou seja, as
opiniões ou atitudes individuais apresentadas diante a massa são classificados por
esta de uma forma categórica seja positiva ou negativamente, não havendo espaço
para meio-termos ou interpretações diversas, e a resposta da massa a estes
estímulos pode levar facilmente ao excesso e desproporcionalidade. (LE BON, 1895)
– Intolerância, autoritarismo e conservadorismo das massas
Não tendo nenhuma dúvida sobre o que é verdade ou erro e tendo, por
outro lado, a noção clara de sua força, a massa é tão autoritária quanto
intolerante. O indivíduo pode suportar a contradição e a discussão, a massa
não as suporta jamais. (LE BON, 1895, p. 26)
Como a massa vê tudo de maneira absoluta, na forma de sentimentos
extremos, esta é incapaz de suportar a crítica ou opiniões divergentes. Em uma
multidão não há espaço para debates ou oradores que contrariem a opinião geral, e
esta tende a responder as críticas de forma agressiva e autoritária. Assim, nota-se
que as massas são conservadoras em sua natureza, pois não querem e não aceitam
a mudança de seu próprio comportamento. (LE BON, 1895)
– Moralidade
[…] se as massas se dedicam frequentemente aos baixos instintos, elas dão
também, às vezes, exemplos de atos elevados de moralidade. Se o
desinteresse, a resignação, a devoção absoluta a um ideal quimérico ou real
são virtudes morais, pode-se dizer que as massas possuem frequentemente
essas virtudes em um grau que os mais sábios dos filósofos raramente
atingiram. (LE BON, 1895, p. 29)
Apesar de agir instintivamente e serem capazes de atos criminosos e
irresponsáveis, as massas também são capazes de realizar feitos que exigem um
elevado senso de abnegação, devoção e desinteresse, de uma forma raramente
vista em indivíduos isolados. Isto acontece pois o interesse pessoal não é um
motivador muito importante dentro de uma multidão, enquanto costuma ser o maior
motivador para um indivíduo.
Esta moralidade elevada, apesar de inconsciente, faz com que as massas
sejam protagonistas de inúmeros momentos heroicos na história das civilizações,
em especial nos eventos em que foram exigidos grandes sacrifícios em virtude de
algum ideal. (LE BON, 1895)
– As ideias, os raciocínios e a imaginação nas massas
Le Bon discorreu também sobre o processo necessário para que as massas
consigam internalizar uma ideia, como o raciocínio dos indivíduos em meio a uma
multidão é alterado e como é influenciada até mesmo a imaginação das pessoas
nestas situações.
– As ideias nas massas
Quaisquer que sejam as ideias sugeridas às massas, elas só podem se
tornar dominantes com a condição de assumirem uma forma bem absoluta
e muito simples. Elas se apresentam então sob a forma de imagens e só
são acessíveis às massas sob essa forma. (LE BON, 1895, p. 30)
As massas só conseguem internalizar e, consequentemente, mobilizar-se
por uma ideia quando esta assume uma forma bem simples, mesmo que
originalmente, esta ideia ou pensamento tenha surgido a partir de um sofisticado
ideal filosófico. Este fato se dá pela considerável perda da capacidade de
pensamento lógico da massa e por seu consequente baixo nível intelectual possível.
As ideias das massas são transmitidas de forma clara e absoluta, não admitindo
interpretações contraditórias, apesar de que não necessariamente as ideias
precisam ter uma ligação entre uma e outra. (LE BON, 1895)
– Os raciocínios nas massas
Associação de coisas dessemelhantes, que só possuem entre si relações
aparentes e generalização imediata de casos particulares, tais são as
características dos raciocínios das massas. […] Uma cadeia de argumentos
lógicos é totalmente incompreensível às massas e é por isso que é
permitido dizer que elas não raciocinam ou raciocinam falsamente e não são
influenciáveis por uma argumentação lógica. (LE BON, 1895, p. 33)
Os raciocínios das massas são baseados em associações, dependendo da
construção de analogias para atingirem a sua validação. A impotência da massa de
agir racionalmente a impede de desenvolver seu senso crítico, ou seja, de julgar
corretamente qualquer situação a que é apresentada. Por isso, de modo geral, as
decisões das massas são impostas, e não discutidas antes, e a aceitação geral de
uma ideia pelos seus integrantes é resultado da incapacidade que seus membros
adquiriram de formar seu próprio raciocínio. (LE BON, 1895)
– A imaginação nas massas
Tudo o que impressiona a imaginação das massas se apresenta sob a
forma de uma imagem cativante e bem nítida, livre de qualquer
interpretação acessória, ou que não possui nenhum outro acompanhamento
além de alguns fatos maravilhosos ou misteriosos: uma grande vitória, um
grande milagre, um grande crime, uma grande esperança. É preciso
apresentar as coisas em bloco e jamais indicar sua gênese. (LE BON, 1895,
p. 35)
Diferentemente da argumentação lógica, que normalmente não provoca
efeitos consideráveis no inconsciente das massas, a imaginação representativa é
incrivelmente eficaz. A imaginação das massas é muito suscetível a ser
impressionada, de forma que os acontecimentos reais não têm tanto valor quanto as
imagens evocadas na mente destas. Os principais motivadores das ações das
massas são as imagens que as seduzem ou as aterrorizam. (LE BON, 1895)
– A convicção religiosa das massas
Não se é religioso apenas quando se adora uma divindade, mas quando se
coloca todos os recursos da mente, todas as submissões da vontade, todos
os ardores do fanatismo a serviço de uma causa ou de um ser que se torna
o objetivo e o guia dos pensamentos e das ações. (LE BON, 1895, p. 36)
Em sua teoria, Le Bon afirmou que as convicções nas massas assumiram
uma forma especial, tendo em vista suas características únicas e rígidas, à qual dá o
nome de sentimento religioso.
Esse sentimento tem características muito simples: adoração a um ser
supostamente superior, medo do poder mágico que este ser supostamente
possui, submissão cega a seus mandamentos, impossibilidade de discutir
seus dogmas, desejo de difundi-lo, tendência a considerar como inimigo
todos aqueles que não o admitem. Quer um sentimento tal se aplique a uma
divindade invisível, a um ídolo de pedra ou de madeira, a um herói ou a uma
ideia política, no momento em que ele apresenta as características
precedentes ele é sempre de uma essência religiosa. (LE BON, 1895, p. 36)
Le Bon ainda afirmou que a intolerância e o fanatismo foram inevitáveis nos
indivíduos em massa, pois estes realmente acreditam possuir uma resposta
autêntica e correta para qualquer das questões que lhe são apresentadas, sentindo
então a necessidade de impor estas ideias para aqueles que não concordam com
sua visão.

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